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António Menano

ANTÓNIO MENANO: UM “ROUXINOL DO MONDEGO” NA PRIMEIRA DÉCADA DE OIRO DO FADO/CANÇÃO DE COIMBRA

Uma das vozes que muito enobreceu o Fado/Canção de Coimbra na primeira década de oiro, foi, sem dúvida o Dr. António Menano, de cujo esboço biográfico nos ocupamos na presente newsletter.

A própria família Menano tem muita ligação ao Fado/Canção de Coimbra, pois não foi apenas António Menano, mas também alguns dos seus irmãos que vieram estudar para Coimbra, destacando-se Alberto e Francisco Menano.

Segundo corrobora a certidão de idade de António Menano no Arquivo da Universidade de Coimbra, nasceu pelas onze horas da noite do dia cinco do mez de Maio do ditto anno [1895], em Fornos de Algodres, filho de António da Costa Menano (negociante) e Januária Augusta Paulo (proprietária).

António Menano

Ingressou na Universidade de Coimbra em 1915 no Curso de Medicina, pois, através da consulta dos Anuários da Universidade de Coimbra extraímos as seguintes conclusões: no Ano Lectivo de 1915-1916, está inscrito nos preparatórios de Medicina; do Ano Lectivo de 1916-1917 ao Ano Lectivo de 1923-1924, está inscrito no Curso de Medicina, embora seja de notar que no Ano Lectivo de 1919-1920 não está inscrito, já que não consta nenhuma matrícula; No Ano Lectivo seguinte, o seu nome surge na lista geral de alunos, mas não nos alunos inscritos em Medicina; No Ano Lectivo de 1923-1924, surge na lista dos que se licenciaram em Medicina nesse Ano Lectivo, o que prova que se licenciou em Medicina.

Segundo José Niza, exerceu medicina em Fornos de Algodres, indo posteriormente exercer a sua actividade em Moçambique, mais concretamente em Inhaminga – Beira, segundo outras fontes, donde regressará definitivamente em 1961, fixando residência em Lisboa

Em relação ao Fado/Canção de Coimbra, segundo José Niza, fez parte de organismos como a Tuna e o Orfeon e fazia constantemente serenatas, sobretudo quando vinha a Coimbra, ficando célebre a sua voz, disso nos dão conta vários autores.

O Dr. Divaldo de Freitas apresenta-nos o seguinte testemunho: Numa das primeiras noites que pousei em Coimbra, no Bairro Rodrigo de Souza Pinto […] (Julho de 1926), ouvi, alta madrugada, vindos das “Escadinhas do Liceu”, e uma voz maviosíssima entoando estas quadras: Passarinho da Ribeira […]. Fiquei encantado com o que ouvira […]. E logo de manhã indaguei o meu vizinho de quarto […] quem era o cantor […] “é o inconfundível Dr. António Menano […] e que continua a ser um ídolo da Academia. Por este testemunho está uma prova de como a voz do Dr. António Menano conquistou um jovem brasileiro acabado de chegar a Coimbra para frequentar o Liceu e posteriormente a Faculdade de Medicina.

João Falcato refere Mas é António Menano que vai consagrar na mais admirável voz de tenorino […] Os seus harmoniosos trinados, as suas notas de cristal, trazem a Coimbra milhares de pessoas para o ouvir cantar […] vem a Lisboa e recebe ovações apoteóticas. Assim se prova que a sua voz conquistava quem o ouvia onde ia cantar.

Também o Dr. Afonso de Sousa refere que António Menano foi um dos cantores que na sua fecundidade de intérprete utilizou letras que outros cantores substituíram e que […] constituem apanágio da canção ou balada coimbrã.

Importante, também é o testemunho de Carminé Nobre, no seu clássico Coimbra de Capa e Batina em que alude ao nome como ficou conhecido, referindo que lhe chamavam o “Rouxinol do Mondego”e deixou Coimbra cantando o Fado.

Ou seja, através da análise destes testemunhos podemos referir que a voz de António Menano, além de ser de uma época ainda da fase lírica (à semelhança de Lucas Junot) da primeira década de oiro do Fado/Canção de Coimbra, com algumas gravações de setenta e oito rotações ainda com o acompanhamento a piano, foi uma voz que conquistou o público e perdurou no tempo, sendo muitas vezes associada ao célebre “Fado dos Passarinhos”:

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Passarinho da ribeira

Se não és meu inimigo

Empresta-me as tuas asas

Deixa-me ir voar contigo

Ao longe cortando espaço

Vai um ando de andorinhas

Que te levam um abraço

E muitas saudades minhas.

Foi, sem dúvida uma voz que marcou para a eternidade o Fado/Canção de Coimbra.

Segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira foi ainda condecorado com o Grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago.

Em 11 de Setembro de 1969, o cantor a que a anterior fonte referida definiu de voz excepcional, de suavidade e encantos únicos, clara, límpida […], calou-se definitivamente, acrescentando mais um “rouxinol” do Fado/Canção de Coimbra que tinha falecido à obra do Dr. Divaldo Gaspar de Freitas publicada em S. Paulo: Emudecem Rouxinóis do Mondego.

Do seu memorial restam os Fados/Canções de Coimbra que interpretou, gravados nos discos de setenta e oito rotações e a sua voz associada ao Fado dos Passarinhos, vulgarmente conhecido por Passarinho da Ribeira.

Placa de Homenagem a Menano

Também o Curso Médico de 1923 (o Curso do Dr. Menano) preservou a sua memória nas bodas de ouro do curso em 1973 (já o Dr. António Menano tinha falecido), ao descerrar no Penedo da Saudade uma pequena lápide ao talvez mais célebre elemento do Curso com a seguinte inscrição:

Ao António Menano

Com a saudade

Dos teus condiscípulos

no V Ano Médico

1922-1923

24 de Junho de 1973

Desta forma, fica apresentada mais uma figura do Fado/Canção de Coimbra que ficou no memorial colectivo.

Autoria

Rui Lopes

História (1997-2001) – Faculdade de Letras

Cultor da Canção de Coimbra

ruilopesguitarrista@gmail.com

Bibliografia Generalizada:

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1915-1916. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1916.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1916-1917. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1917.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1917-1918. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1918.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1918-1919. Coimbra: Imprensa académica, 1919.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1920-1921. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1923.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1922-1923. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1923-1924. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

CERTIDÃO DE IDADE DE ANTÓNIO PAULO MENANO. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. Cota no Arquivo da Universidade de Coimbra: IV – 1 ª D-5-3-13, Cx 3, n º 289.

FALCATO, João – Coimbra dos Doutores. Coimbra: Coimbra Editora, 1957.

FREITAS, Divaldo Gaspar de – Emudecem rouxinóis do Mondego. São Paulo: [S. N.], 1972.

GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Vol. XVI. Lisboa/Rio de Janeiro: Editora Enciclopédia, Lda, S/D.

NIZA, José – Fado de Coimbra II. Lisboa: Ediclube, 1999.

NOBRE, Carmine – Coimbra de Capa e Batina. Vol. 1. Lisboa: Imprensa Lucas e C. ª, 1937.

O GRANDE LIVRO DOS PORTUGUESES. Lisboa: Circulo de Leitores, 1990.

SOUSA, Afonso de – O Canto e a Guitarra de Coimbra na Década de Oiro da Academia de Coimbra (1920-1930). Coimbra: Coimbra Editora, 1986.

Vários posts do Blog Guitarra de Coimbra do Dr. Octávio Sérgio em: www.guitarradecoimbra.blogspot.com agora com continuação em www.guitarrasdecoimbra.blogspot.com