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Edmundo Bettencourt

UMA VOZ DA MODERNIDADE NA PRIMEIRA DÉCADA DE OIRO DO FADO/CANÇÃO DE COIMBRA

Edmundo Bettencourt

Como já foi referido no número anterior, Edmundo Bettencourt estabelece uma profunda mudança no panorama do Fado/Canção de Coimbra em plena primeira década de oiro do Fado/Canção de Coimbra, pois Bettencourt vai buscar temas de vários pontos do país. Disso são exemplo a “Tirana do Faial” ou “Lá vai Serpa, lá vai Moura”, transformando ele na voz e Artur Paredes na Guitarra, como já referimos anteriormente no que diz respeito a Artur Paredes.

Passando agora ao percurso de Edmundo Bettencourt, há que esclarecer que não era açoreano, como é muitas vezes referido, mas sim madeirense. Tal facto pode ser comprovado na sua Certidão de Idade do Arquivo da Universidade de Coimbra, onde é referido que nasceu às duas horas da manhã do dia sete de Agosto de 1899 na Freguesia da Sé, Funchal.

Chegada a altura de frequentar a Universidade, segundo António Nunes, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1918. Apenas no Ano Lectivo de 1922-1923 se inscreve na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, para frequentar o quinto ano de Direito e vem viver para Coimbra. Da consulta dos Anuários da Universidade de Coimbra, conferimos que esteve inscrito em Direito dos Anos Lectivos de 1922-1923 a 1924-1925, sendo que posteriormente não surge qualquer referência a uma matrícula de Bettencourt. O facto é que nunca chegou a terminar o Curso de Direito.

Paralelamente ao Fado/Canção de Coimbra, não podemos esquecer que Edmundo Bettencourt foi poeta e, entre a sua poesia resolvemos destacar este soneto da sua autoria intitulado “Sugestão”:

Entro na Igreja majestosa e calma,
Erro na sombra sob as arcarias
Anda no ar silêncio, e a minha alma
Toma a frieza das colunas frias
Numa capela triste aonde espalma,
Doirado ilustre, chamas fugidias,
Tocam-me o peito as setas duma palma
A evocar-me de Cristo em agonias
Começa o som do órgão, morno, errante,
E o aroma do incenso penetrante
Como as garras aduncas do tormento
E o já desejo acre de esquecer,
De o longe e o mundo eu só escutar e ver,
No coração me nasce brando e lento

E será no âmbito da poesia que também ficará ligado a um movimento que surge em Coimbra: a “Presença”, que várias fontes referem que Bettencourt, além de se ter relacionado com o grupo literário que origina o movimento “Presença” (Miguel Torga, José Régio, Branquinho da Fonseca, entre outros), de que foi fundador, terá sido mesmo Bettencourt que deu o nome de “Presença”, embora tenha abandonado o grupo em 1930, como refere o periódico Diário de Notícias de três de Fevereiro de 1973. Segundo esta fonte, foi, também nesta altura que terá publicado a obra “O momento e a legenda”, sendo a sua obra poética publicada toda em conjunto em 1964 com o título “Poemas de Edmundo Bettencourt”, com prefácio de Herberto Hélder.

Ao abandonar Coimbra para o seu “exílio” lisboeta, sem tirar o Curso de Direito, dois periódicos referem que a sua profissão foi delegado de informação médica, função que terá exercido até à aposentação, pelo que refere o Diário de Lisboa de dois de Fevereiro de 1973.

Em relação ao Fado/Canção de Coimbra, tem uma voz característica que interpreta novos temas tanto de Coimbra: Coimbra menina e moça/ Rouxinol de Bernardim/ Não há terra como a nossa/ Não há no mundo outra assim// Coimbra é de Portugal/ Como a flor é do jardim/ Como a estrela é do céu/ Como a saudade é de mim. Temas de outras zonas do pais, por exemplo do Alentejo: Lá vai Serpa, lá vai Moura/ Ai, as Pias, ficam no meio/ Quem vier à minha terra/ Ai, não tem que ter receio// Teus olhos linda morena/ Ai, deixam-me a alma sombria/ Quero-te mais ó morena/ Ai, do que a luz de cada dia. Ou dos Açores: Ó Tirana, saudade/ Saudade, ó minha saudadinha/ Foste nada no Faial/ Baptizada na achadinha […]. Ou seja, Bettencourt, traz para o Fado/Canção de Coimbra uma nova forma de cantar e temas que não era de Coimbra nem da sua região foram adaptados ao Fado/Canção de Coimbra caracterizando-se a sua voz, segundo Jorge Cravo de canto acutilante e agreste […] intensidade vocal […] impetuosidade e brutalidade de algumas notas cantadas.

No entanto, não terá sido apenas os temas novos de várias regiões do país, mas a própria divulgação do Fado/Canção de Coimbra de matriz coimbrã, se tivermos em conta as palavras do Dr. Afonso de Sousa: Até a própria canção de pura raiz coimbrã, que a voz privilegiada de Edmundo de Bettencourt proclamou ad urbi et orbi (a canção “Coimbra menina e moça”).

Faleceu em Lisboa no dia 1 de Fevereiro de 1973, referindo o Diário de Notícias que o seu corpo seguiu da Igreja de S. José para o Cemitério do Alto de S. João.

Também a placa que foi colocada na casa onde viveu em Coimbra, à entrada a Rua dos Coutinhos (junto à Sé Velha) mantém o seu memorial, destacando-se, obviamente, os versos da autoria de José Régio já sobejamente conhecidos:

Gritos de Cristal e de oiro
Que o Bettencourt alto erguia
Que é da roda que algum dia
Vos havia de acompanhar

Autoria

Rui Lopes

História (1997-2001) – Faculdade de Letras

Cultor da Canção de Coimbra

ruilopesguitarrista@gmail.com

Para ouvir:

Tirana do Faial - Edmundo Bettencourt >

Menina e Moça - Edmundo Bettencourt >

Canção do Alentejo - Edmundo Bettencourt >

Bibliografia Generalizada:

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1922-1923. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1923-1924. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA. ANO LECTIVO DE 1924-1925. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

BETTENCOURT, Edmundo – Poemas de Edmundo Bettencourt. Lisboa: Assírio e Alvim, 1999.

CERTIDÃO DE IDADE DE EDMUNDO ALBERTO BETTENCOURT. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. Cota no Arquivo da Universidade de Coimbra.

CRAVO, Jorge; NUNES, Mário – Memorial de Edmundo de Bettencourt (1899-1973). Coimbra: Câmara Municipal de Coimbra – Departamento de Cultura, 2003.

Diário de Lisboa de dois de Fevereiro de 1973.

Diário de Notícias de três de Fevereiro de 1973

NUNES, António – No rasto de Edmundo de Bettencourt: uma voz para a Modernidade Funchal: Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 1999.

O GRANDE LIVRO DOS PORTUGUESES. Lisboa: Círculo de Leitores, 1990.

SARAIVA, António José; LOPES, Óscar – História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora, s/d.

SOUSA, Afonso de – O Canto e a Guitarra na Década de Oiro da Academia de Coimbra (1920-1930). Coimbra: Coimbra Editora, 1986.