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Lucas Junot

A PRIMEIRA DÉCADA DE OIRO DO FADO/CANÇÃO DE COIMBRA E OS SEUS NOMES: LUCAS JUNOT, UM BRASILEIRO A CANTAR COIMBRA.

Por norma, intitula-se os anos vinte do século passado de “a primeira década de oiro do Fado/Canção de Coimbra”.

A época referida foi, de facto, de transição no Fado/Canção de Coimbra em que se passa do “lirismo” de Lucas Junot e António Menano para uma “revolução” no Fado/Canção de Coimbra através de dois nomes: Edmundo Bettencourt no canto e Artur Paredes na guitarra. Este dueto fará grandes transformações no canto e maneira de cantar, com temas de vários pontos do país (“Tirana do Faial”, “Lá vai Serpa, lá vai Moura”, entre outros), tal como na Guitarra, Artur Paredes imprime uma nova maneira de tocar, sempre acompanhado pelo Dr. Afonso de Sousa na segunda Guitarra.

Lucas Junot

Nesta newsletter vamos tratar de um caso importante, pois o objecto do artigo é Lucas Junot, um brasileiro que cantou e tocou o Fado/Canção de Coimbra.

Segundo consta na sua Certidão de Idade, Lucas Junot nasceu a 20 de Janeiro de 1902 na Rua Amador Bueno, em Santos, Brasil, e era filho de portugueses que foram na grande vaga de emigração para o Brasil no Século XIX.

Em Santos, fez a escola primária até que a família decidiu regressar a Portugal, fixando-se em Coimbra, onde Lucas Junot estuda na escola primária anexa da Sé Velha, indo depois frequentar o Liceu de Coimbra em 1915.

Segundo consta nos Anuários da Universidade de Coimbra, ingressou no Curso de Matemática em 1922, tendo matriculas até 1927, ano em que na fonte referida na lista das Licenciaturas da Faculdade de Ciências, Secção de Ciências Matemáticas está a indicação Lucas Rodrigues Junot, filho de José Maria Rodrigues Junot, natural de Santos – Brasil, prova de que terminou o Curso em 1927.

É também em Coimbra que conhece a sua futura esposa, Eugénia Junot, com quem casaria em 1927. Posteriormente, rumou a Luanda em 1928, onde trabalharia no Banco de Angola até lhe sair a “sorte grande” na lotaria do Natal. Isto ditou o regresso a Portugal e também o regresso definitivo ao Brasil em 1929, onde, segundo o Dr. Divaldo de Freitas, ao chegar, terá sido confundido com um português, na alfândega de Santos, Brasil.

No Brasil, dedicou-se sobretudo à Meteorologia, participou na revolta paulista de 1932, entre outras coisas. Contudo, Coimbra estava longe, mas sempre no seu coração. Pois, como podemos comprovar nas fotografias enviadas pela Sr. ª Maria Adelaide Junot, foi membro “Tertúlia Académica” no Brasil. Regressou a Coimbra em 1967, numa romagem de saudade para rever a cidade que nunca lhe saia do pensamento no Brasil.

Lucas Junot e Esposa

Quanto ao Fado/Canção de Coimbra, fez parte da Tuna Académica da Universidade de Coimbra desde os tempos de Liceu, tendo ido nas digressões da Tuna a Espanha (1923) e ao Brasil (1925).

Aprendeu Guitarra com Francisco Morais e foi o autor da letra do Fado de Santa Clara (Eu ouvi de Santa Clara/ Gemidos de alguém que chora/ Era a rainha pedindo/ Por mim a Nossa Senhora// Aos pés de nossa senhora/ Chorando pedi-lhe um dia/ Que não rezasse chorando/ Que os anjos entristeciam), tendo deixado gravados quatro discos de 78 rotações onde interpreta temas vários, que vão desde o Fado dos Passarinhos, ao Fado de Santa Clara, Fado Sepúlveda, entre outros, com especial característica para a sua voz de tenor levada ao extremo ou, como afirmou o Dr. Afonso de Sousa (Ilustre Advogado em Leiria e Guitarrista – 1906/1993): tinha uma voz de planificada inflexão e que me levou a suspeitar-lhe reminiscências da amplidão brasílica.

Lucas Junot

Lucas Junot, que dizia inúmeras vezes no Brasil “morrer sim, mas depois de rever Coimbra”, acabou por falecer em 29 de Agosto de 1968 em Santos, um ano depois de ter revisitado Coimbra, tendo sido sepultado no cemitério do Paquetá.

No ano seguinte, na casa onde viveu enquanto estudante de Coimbra, mesmo à entrada da Rua dos Coutinhos (junto da Sé Velha) era posta uma placa a afirmar que Lucas Junot ali tinha morado, cerimónia que contou com a representação da Reitoria da Universidade de Coimbra e também com a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra no Brasil.

Também Santos não esqueceu Lucas Junot, que hoje tem na sua toponímia o nome de Lucas Junot.

Na década de 1990, por decisão da sua viúva, a Guitarra, fitas de curso, capa e foto foram doadas ao Museu Académico de Coimbra onde hoje se conservam.

Fica assim apresentada mais uma figura do Fado/Canção de Coimbra.

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NOTA: As imagens são scanner de fotos enviadas há pouco mais de um ano pela Sr. ª Maria Adelaide Junot, filha do Dr. Lucas Junot, de Santos, Brasil, a quem fico grato.

Autoria

Rui Lopes

História (1997-2001) – Faculdade de Letras

Cultor da Canção de Coimbra

ruilopesguitarrista@gmail.com

Bibliografia Generalizada:

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA: ANO LECTIVO DE 1922-1923. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA: ANO LECTIVO DE 1923-1924. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA: ANO LECTIVO DE 1924-1925. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA: ANO LECTIVO DE 1925-1926. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

ANUÁRIO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA: ANO LECTIVO DE 1926-1927. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933.

CERTIDÃO DE IDADE DE LUCAS RODRIGUES JUNOT – Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra. Cota no Arquivo da Universidade de Coimbra: IV-1 ª D-5-3-19, n º 327

Diário de Coimbra de 25 de Julho de 1970.

FREITAS, Divaldo Gaspar de – Emudecem rouxinóis do Mondego. S. Paulo: [S. N.], 1972

FREITAS, Divaldo Gaspar de – Lucas Junot: A Saudade de Coimbra. Coimbra: Boletim da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra. (10, 1970) 27-34.

CANTANHEDE, Jorge de – Lucas Junot: Uma Saudade Brasileira. [S. L.]. Padrão, Revista Portuguesa do Brasil. (4, 1951) 19-20.

LEITE, Manuel da Câmara – Estudantes de Coimbra no Brasil: descrição da viagem ao Brasil da Tuna Académica em 1926. Coimbra: [Edição de Autor], 1926.

RAMOS, Mário – Coisas sobre a viagem da Tuna Académica da Universidade de Coimbra e Orfeão a Espanha. Coimbra: Empresa Internacional Editora, 1923.

SOUSA, Afonso de Sousa – O Canto e a Guitarra de Coimbra na Década de Oiro da Academia de Coimbra (1920-1930). Coimbra: Edição do Autor, 1986.