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Carlos Sequeira

Pedir a um alentejano tradicionalista na casa dos cinquenta anos, mentalizando-se para ser avô, apesar de gostar ainda de umas noitadas bem passadas em tertúlias gastronómicas báquicas ou taurinas, um testemunho sobre o que representou ser estudante de Coimbra, é algo que implica reviveres nada fáceis de alinhar tal a catadupa de recordações que hoje nos parecem quase irracionais.

Filho único de família pequeno – burguesa saí do doce lar com apenas 10 anos para estudar no Liceu de Portalegre. Apesar dos apenas 14 Kms de distância do “ninho” parecia grande risco, que contudo a idoneidade e carisma das famílias de acolhimento junto com o permanente apoio da família logo transformaram num bonito passeio de 7 anos sempre na frente do “pelotão” e um modelo para os companheiros e orgulho para a aldeia.

Coimbra foi o passo seguinte como unânime escolha familiar pela pacatez e auréola de provincianismo, que a recente crise de 69 não conseguira desfazer, em alternativa à cosmopolita e “depravada” Lisboa que seria a escolha natural tal como para a maioria dos meus colegas e amigos do Liceu de Portalegre

Aí estava pois a prova de fogo com apenas 17 anos longe da família, sem grandes amigos por perto, alojado em casa de desconhecidos onde o tratamento logo inicial por Snrº Doutor soava mais a desprezo e chacota do que a respeito e consideração, mas Coimbra aí estava era preciso desbravá-la.

Primeiro na Rua Tenente Valadim depois na Antero de Quental a ambientação começou em grande estilo, Praça da República e suas tertúlias, Moçambique, Piolho, Pigalle, alargando os raídes por outras paragens Atenas, Sé Velha, Leitaria Raul, Avenida, Rua das Matemáticas e o Lar da raparigas, lanches especiais no Zé Manel dos Ossos ou na Democrática, um jantarinho mais cuidado no Cunha ou no Espanhol satisfazendo namorada mais presumida e aproveitando o inicio do mês.

O 25 de Abril apanhou-me com o 1º ano já no bolso (o 1º semestre feito) pelo que tive toda a disponibilidade para as diversas manifestações, plenários, RGAs, Assembleias Magnas que enriqueceram o meu currículo e me esclareceram para a vida.

As fogueiras de Celas e da Conchada os bailaricos de finalistas e do Rancho de Coimbra as futeboladas na Associação Académica, os namoricos na Sereia no Penedo ou no Choupal,as festas de fim-de-semana em Antanhol, Tocha ou Cantanhede, os Pôr –do-Sol na Figueira, os amigos tão especiais como o Oscaralhinho, e o seu Peugeot 403 creme (mais espaçoso que muitos apartamentos de habitação hoje em dia) o Ventoinha, o Martins o Marante o Joãozinho, o António Jorge, a Sameiro,(com a mesa sempre posta para os estômagos mais exigentes) os saudosos Raul e Laura, as lerpas e suecadas até sair a fornada de pão quente na padaria da esquina, fizeram com que os seis anos de curso voassem como que por encanto. Então com apenas 23 anos de idade, em Penacova os amigos Zé Tó, Zé Setil a Teresa, chamavam pelo Drº Carlos com ar sério e responsável, e já com sabor a trabalho, na altura tão infantilmente desejado.

É assim que cada um dos estudantes que passa por Coimbra lá deixa um pouco da sua marca e transporta consigo para todo o sempre a nossa Coimbra. Ir hoje a Coimbra onde tenho o previlégio de ter os meus dois rebentos a estudar (Manuel em Direito, Joana em Medicina) é um verdadeiro terramoto emocional pois Coimbra é a irreverência com segurança e sensatez, é a tradição com inovação e modernismo; é solidariedade exigente e responsável; é boémia para o ego e para a alma. Coimbra é uma lição para quem preserva a Tradição procura a Amizade e cultiva o Respeito.

Carlos Sequeira

Medicina, FMUC

Membro nº 2679 da Rede UC