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Rede UC

Patrícia Ferraz de Matos

Talvez o leitor se surpreenda se eu lhe disser que não foi nos bancos das salas de aula que eu aprendi primeiramente como se comporta um grupo humano – as suas forças e as suas fraquezas – mas sim na convivência lá fora onde os espaços têm outro controle e as pessoas ficam mais receptivas a novas realidades e formas de estar. Os tempos da faculdade fizeram de mim uma pessoa empenhada na minha área profissional e agradeço aos meus professores pela qualidade sempre exigida aos alunos. Porém, foram as actividades que desenvolvi extra-curricularmente que me tornaram uma pessoa mais atenta, mais capaz de lutar pelas minhas ideias, de lidar com as diferenças e de reconhecer o valor real da amizade.

Apesar de hoje viver em Lisboa, nasci e vivi sempre no centro de Coimbra até terminar a faculdade e é lá que ainda reside um pedaço de mim. Foi ainda na infância que surgiu o meu gosto e interesse pela música quando frequentei o Colégio Progresso, e quando mais tarde participei em alguns espectáculos no âmbito das apresentações da escola de música do Inatel, mas só quando me comecei a aproximar da AAC pude levar mais longe essa experiência. Um ano antes de entrar para a universidade inscrevi-me na Tuna Académica da AAC (TAUC). Frequentei a sua escola e tinha em vista vir a pertencer ao grupo de música popular. Foi aí que conheci duas raparigas que tocavam na orquestra da TAUC, mas estavam envolvidas também num novo projecto fora da TAUC – uma tuna feminina. Estávamos em 1991 e apesar de já existirem algumas tunas femininas espalhadas por outras universidades, não havia ainda um grupo do género na mais antiga universidade do país! Quando as ditas raparigas me convidaram a levar o meu acordeão para o seu ensaio dessa noite não hesitei, fui experimentar e acabei por ser aceite no grupo. Era um grupo grande, sim senhora! O grupo - cujo nome era Tuninha – ensaiava discretamente numa sala minúscula emprestada pela secção de rugby que ficava no último piso da AAC. As músicas que tocavam eram alguns temas animados do nosso interessante cancioneiro popular português. Só a vontade maior de acreditar num projecto como aquele me dava forças para carregar o meu acordeão até lá acima. Depois de várias discussões e quezílias dentro da Secção de Fado da AAC, cuja maioria dos elementos que a constituía, inclusivamente mulheres, via a Tuninha como uma ameaça ao fado, à tradição coimbrã e, de certa forma, à “ordem” instituída, lá participámos no Sarau da Latada de 1991, embora o nome não tenha vindo no cartaz e nos tenha sido proibido pela organização do sarau a apresentação do grupo como tuna e a performance com o típico passo de tuna. Nesse ano tivemos mais umas quatro actuações mas, em virtude de várias contrariedades, o grupo acabou por desagregar-se no ano lectivo seguinte (1992-1993) e foi remetido a um passado malogrado.

Entre o grupo anterior houve, no entanto, meia dúzia de raparigas, entre as quais eu me incluía, que recusaram baixar o estandarte e foram à luta. Cada uma de nós foi levando amigas aos ensaios e foi assim que começámos a explorar o nosso projecto – queríamos recolher, interpretar e divulgar a música popular e tradicional portuguesa, incluindo alguns temas medievais e renascentistas. Fomos para casa ouvir discos, consultámos livros, fizemos arranjos musicais adaptados aos nossos próprios instrumentos. O gosto pela partilha musical era grande e a vontade de trabalhar e ter um lugar no meio musical dos estudantes também. Em 1993 o Mondego assistia ao nascimento das suas ninfas – as “Mondeguinas, Tuna Feminina da Universidade de Coimbra”. Percorremos primeiro o país de norte a sul e fizemos depois algumas deslocações pela Europa. Ganhámos traquejo, sedimentámos amizades, aprendemos a respeitar crenças e convicções diferentes das nossas. Aprendemos a partilhar e a ceder. Crescemos como pessoas.

Alguns elementos das Mondeguinas eram participantes activas das RGA’s, outras tinham cargos na Direcção Geral da AAC; outras ainda na RUC. E foi este dinamismo das pessoas que constituíam o grupo que terá despertado no seu seio uma maior consciência social, facto que ainda hoje se revela nas visitas regulares que são feitas a lares e outras instituições de solidariedade social do concelho de Coimbra.

Mondeguinas na Madeira, 1997
CD MondeguinasPosteriormente, alargou-se o repertório musical e, como tínhamos elementos de várias regiões do país, algumas começaram a levar para os ensaios temas das suas terras. Tivemos também o apoio de várias pessoas e instituições, como a Câmara Municipal de Coimbra. Em 1995 gravámos um CD. Após várias horas em estúdio, havia alturas em que quase já não nos suportávamos, tal era o cansaço acumulado com o dos exames. Lembro-me que, para nos aguentarmos, levávamos biscoitos e fazíamos, no próprio estúdio, chá de perpétuas roxas e rinchões que depois distribuíamos por todas! O resultado final do CD foi muito positivo.

Tenho a certeza de que a partir daí o grupo começou a ser visto diferentemente pelo público e, mais importante do que isso, sentimos que tínhamos ultrapassado uma meta. Vários foram também os festivais em que ganhámos o “prémio de melhor tuna”. As Mondeguinas passaram a ser uma referência obrigatória nos saraus da Latada e da Queima das Fitas e a partir de 2002 nas noites do “Parque” durante a “Queima”.

O gosto e o interesse pelas tradições populares conduziram-me ainda em 1996 ao GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra). No GEFAC participei no “teatro popular mirandês” e fiz parte da cantata. Durante os dois anos em que lá estive também aprendi muito no que respeita às relações humanas e ao desenvolvimento de trabalhos em grupo. Cada espectáculo do GEFAC requeria um grande envolvimento das pessoas desde a montagem dos cenários, trajes, performances até à parte musical, passando pelas danças. Era sempre uma grande emoção ver como 40 pessoas podiam fazer parte de um só enredo. O GEFAC é e será sempre um grande grupo, não tanto pelo número de elementos que o constitui, mas pelo projecto maior que leva a cabo desde 1966 em interpretar e divulgar a cultura do povo português, sobretudo a de raiz popular. Apesar disso, continuo a nutrir um sentimento especial pelo projecto Mondeguinas, pois fui uma das suas fundadoras e mentoras e vivi intensamente o período não facilitado de afirmação deste novo e diferente grupo na academia. Contudo, penso que hoje o grupo se pode alegrar pelo facto de existir um lugar na velha cidade do Mondego onde as mulheres também podem cantar e encantar.

Por tudo isto considero que o meu envolvimento com estes grupos não só me permitiu desenvolver os meus interesses musicais e culturais, mas também me deu a oportunidade de conhecer pessoas novas, pisar inúmeros palcos dentro e fora do país, conhecer locais diferentes e vivências distintas, mas e, principalmente, fazer grandes amigos (as) com os (as) quais ainda hoje conto para as mais variadas situações e com quem me encontro em ocasiões especiais ou, simplesmente, para matar saudades.

Mondeguinas com Né Ladeiras, 1997Antes de me convidarem para dar este testemunho perguntaram-me se eu tinha filhos e se um dia os aconselharia a fazer parte de um destes grupos da academia, ao que respondi: “É claro que sim!”. São aliás muitas vezes as actividades que se desenvolvem extra-curricularmente que permitem um maior distanciamento dos estudos, uma maior abstracção e, portanto, uma maior criatividade e discernimento, e, não menos importante, ajudam a manter a sanidade mental e o equilíbrio emocional. Ultimamente, costumo até levar o meu rebento para os reencontros com pessoas que comigo privaram e com quem me diverti imenso. É por isso para mim importante voltar a estar com antigos estudantes de Coimbra e fazer parte desta “rede” que vem lembrar a mística do passado, mas terá certamente grandes proveitos sobre o que se há-de continuar a preservar no presente e vir a construir no futuro.

Lisboa, 28 de Agosto de 2007.