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Rede UC

Gonçalo dos Reis Torgal

Manuel Alegre, num dos seus mais bem conseguidos poemas sobre Coimbra – na minha opinião, é evidente – diz que

“De Coimbra fica um rio, fica a saudade”.

Num fado antigo, os gemidos da guitarra sublinham o cantor que confessa: “De Coimbra sinto saudades”. Outro poeta, igualmente dominado pelo sortilégio de Coimbra, chega a escrever que “chega a ter saudades dela quem nela nunca viveu”. Como pois, no que a Coimbra toca, poderia eu, que nela nasci, cresci e vivi não sentir saudade da vida ali vivida?

A SAUDADE é pois o sentimento que domina o ser e estar, que marca o ontem, o hoje e o amanhã do estudante de Coimbra, que fui e me sinto, já que tenho para mim que a Academia de Coimbra não se confina ao tempo que passa, pois nada seria sem as raízes profundas que a definiram no correr dos séculos passados, que no hoje vivemos, esperança no futuro, para parafrasear Pascoais, velho académico, que a Academia do meu tempo homenageou..

Reis TorgalÉ certo que é a saudade que nos leva, a nós, por quem os anos vão passando, a, olhando o presente, suspirar: - No meu tempo, aquilo é que era Academia. Mas não é menos evidente que, mesmo com as naturais dificuldades de entendimento e mesmo aceitação, que o desfasamento tempo-cultural sempre traz consigo, olhamos com igual saudoso carinho a juventude dos que hoje vivem a Academia. Não sei, nem questiono, neste âmbito, se tão Briosa como a que motivou o adjectivo real (não me ocorre se de D. Pedro V ou de D. Luiz – na grafia do seu reinado), mas sempre Academia de Coimbra, mais ainda quando, acabado o curso, deixa para trás a cidade onde, como escreveu uma das suas mais representativas vozes poéticas (Amélia Janny) “há no teu nome encanto sempre novo”.

Aliás é neste apego intemporal que assenta e se justifica o êxito da Rede UC, uma como que necessidade que em boa hora nasceu na Universidade para quem a frequentou (e não só) e para a qual se espera um caminho: mais além. E dizer Universidade é dizer Coimbra e se escrevo esta, leio aquela. Pois não dizemos nós, e diziam tantos como Antero, Eça e Camilo a quem recorro - aspeando e pondo em itálico o dizer seu - para alguns dos exemplos que seguem: “leu Teologia em Coimbra”. No meu tempo de Coimbra. “O Dr. Jacob Sebastian Selabus (…) estava em Coimbr, empinando em oráculo.” Estudava eu em Coimbra. Um colega que tive em Coimbra. “Um doutor (…) lente de Coimbra” Quando fiz exame em Coimbra. “[O Morgado] chegado de Férias de Coimbra”. “A doutorar-se em Coimbra.” ? E bonda.

Prossegue o poema de Alegre.

“De Coimbra fica o sonho, fica a graça.”

Na verdade, imperfeito seria pensar Coimbra, falar de Coimbra, sobretudo numa perspectiva académica, ou seja, de identidade com a Universidade, sem rememorar a graça, que é como que uma nota caracterizadora do que vivencialmente a define. Um breve apontamento, pois.

Era eu aluno de História de Antiguidade Oriental. Aluno Voluntário. Aprovado, embora, na escrita, vi-me obrigado a fazer oral. O Mestre era o Professor Mário Brandão – um Senhor. Felizmente vivo ainda. Interroga-me: - Sabe o que é o papiro? Confirmei o saber: - O caule de uma planta. E como se fazia? Titubiei a resposta. O Mestre então, antecipa-se ao meu hesitar e explicou. Gestualmente amassou na mesa o caule destinado a perpetuar o passado em termos documentais, batendo da cátedra, numa hipotética banca do artífice. Terminada a operação, que levara longos minutos, pára, pensa, e dá por findo o exame no seu proverbial: - Em suma, estou satisfeito.

Interroguei-me sobre o como, se praticamente nada dissera. Embora em dúvida, saí.

Fora da sala, uma colega, freira, pergunta-me o que dissera eu que tanto irritara o Mestre. Que nada, retorqui. Então porque dava o Professor “murros na mesa?”

Há, exclamei. Estava a fazer o papiro…

Reis TorgalReis TorgalReis TorgalSaudoso, ontem como hoje, deixei Coimbra e a Universidade. Meio século lá vai. Levei comigo a marca da cidade e da Escola que me acolheu e me habilitou para Vida, quer a objective no sentido profissional, quer no viver do dia a dia. Tenho para mim, que o ser e estar que me marca e de que me orgulho, o enraízo no seio familiar, mas o fortaleci na Universidade. A ela estou grato. Saudoso regresso amiúde no quando posso, forçando o quando não posso. Coimbra é a minha Terra a Universidade a minha casa.

Como diz Manuel Alegre, com que abri, meei e agora findo:

“De Coimbra fica o tempo que não passa.

Neste passar do tempo que não volta.”

Gonçalo dos Reis Torgal

Praia de Pedrógão, Novembro 2007