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Rede UC

Rui Lopes

Licenciado em História (1997-2001) e Pós Graduado em Ciências Documentais (Arquivo) (2002-2004) – Faculdade de Letras
Cultor da Canção de Coimbra

Falar de Coimbra e da sua mítica Universidade, é descrever um Universo colectivo que marca quem por cá passa e até, se tivermos em conta a canção Chega a ter saudades dela, quem nunca nela viveu, quem não viveu na civitatis conimbrigae chega a ter saudades dela.

Aportei a Coimbra em Outubro de 1997 para frequentar História na Faculdade de Letras. Era a segunda vez que estava em Coimbra após uma visita de estudo do Secundário. Da natal Abrantes onde sempre vivera e frequentara o Secundário já trazia o “bichinho” das coisas de Coimbra: a tocar viola já tentava as canções de Coimbra; A canção de Coimbra também já a escutava em um ou outro CD que possuía. Chegado à alma mater, não ia perder a oportunidade de também aprender a tocar Guitarra de Coimbra e lá me inscrevi também na Secção de Fado da AAC ficando mais uma ligação a Coimbra através da Guitarra.

A verdade é que gostei da vida académica apenas possível em Coimbra, fosse nas latadas e no “roubo” do nabo que fizemos às vendedeiras, nas queimas ou no já saudoso “Pratas”, a mítica tasca onde como caloiro tive de entrar de gatas a mando dos “doutores” que afirmavam que aquela tasca era um templo (Não esqueçam que o Pratas fechou em 1999 – tempus fugit). Acabou o “Pratas”, ficou outra tasca notável: o “Pinto”, lugar de encontro da malta de História logo que era concluída a última frequência … Não olvidaremos figuras características da Academia, obviamente que as figuras lendárias da academia: Pika, Pad’Zé, ”Mata Carochas”, “Pirata”, Teixeira, “Dim Bolinhas”, Barrigas de Carvalho (nomes que as memórias de antigos estudantes tanto evocam), já não andavam por cá, mas outras figuras os substituíram, por exemplo: o “Coelho” (perdão! Sr. António Coelho), eterno empregado do bar da AAC que se quis candidatar a Presidente da República (conseguindo ainda muitas assinaturas na academia e uma caricatura alusiva ao facto: tinha o “Coelho” com uma mula a puxar uma carroça e uma seta a indicar “Palácio de Belém” …) e o “Carlitos” que vai sempre com o seu fato de marujo a abrir o cortejo da Queima das Fitas e tantas outras situações havia a contar: talvez daqui a não sei quantos anos venha tudo contado num livro de memórias de estudante de Coimbra!

Falar de Coimbra, horas, dias, semanas, meses, anos … não chegariam. No entanto, para não me exceder muito nas “estórias”, vou resumir uma situação que me marcou na vivência de estudante.

No meu ano de quartanista, todas as semanas reuníamos nas cantinas “amarelas” por causa do carro da Queima das Fitas e, para variar, nunca estávamos de acordo, o que originava discussão. Numa sobre o nome que se havia de dar ao carro, houve propostas várias, mas a que prevaleceu foi a do Mestre (quase Doutor) Vasco Silva: Desempregonautas e o carro de História também optámos por um foguetão. Depois, questionava-se, akguém tinha de escrever uma introdução no livro de curso mas, uma vez mais, ninguém estava de acordo e … nova discussão. Foi então que a meio desta me surgiu um breve momento de inspiração poética, isolei-me numa mesa da cantina, concentrei-me, enquanto todos discutiam fui escrevendo um soneto com um tema que dizia respeito a todos: o adeus a Coimbra. Terminado o poema regressei à discussão e lancei para cima da mesa o soneto que tinha feito que logo correu de mão em mão e todos concordaram que seria o que viria no nosso livro de Curso, porque a ir para o último ano, começava tudo a pensar no adeus a Coimbra, o nome que marca eternamente a vida de cada estudante que passa cá alguns anos da sua vida para tirar o Curso. Tanto que, em conclusão de tudo isto poderia resumir Coimbra como Manuel Alegre a descreveu em duas estrofes de um poema da sua autoria:

De Coimbra, fica um sonho e uma saudade

Cavaleiros andantes, dulcineias

De Coimbra, fica a breve eternidade

Do Mondego, a correr em nossas veias

De Coimbra, fica o sonho e fica a graça

Antero de revolta, capa à solta

De Coimbra, fica um tempo que não passa

Neste passar de um tempo que não volta

No entanto, permitam-me terminar este testemunho que me foi solicitado, com um éférreá a todos os Antigos Estudantes de Coimbra e com o soneto que saiu da “estória” que contei e que intitulei “Coimbra”:

Coimbra, que vemos ao sonhar

Deixar-te é desalento

Coimbra, vamos-te cantar

Para sempre, ao sabor do vento

Ó sentimento,

Para quê delirar?

Se trazidos pelo vento

Havemos de cá voltar

Coimbra, lição da nossa vida

Em vez de esquecer, vamos lembrar

A vida de estudante perdida

Coimbra, vamos contigo sonhar

Na eternidade da nossa vida

Ver-te eternamente ao luar

Rui Lopes
História, FLUC
Membro nº 105 da Rede UC