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Joaquim Delgado

Pelo motivo de ter que ser sucinto num tema tão vasto vou, de entre as dezenas de memórias que de imediato me ocorrem, descrever situações em dois ou três contextos que me marcaram de forma extraordinária e que me fizeram sentir sempre um privilegiado.

Talvez constitua um sentimento partilhado pela maioria dos que viveram Coimbra – com o coração – em sucessivas gerações, mas sempre que o meu pensamento regressa até esse período, o que ocorre com muita frequência, sou invadido por uma grande nostalgia. Sinto também a força física da juventude onde abundavam o entusiasmo, o sonho, a utopia, a amizade, o prazer em contribuir para fazer o outro sentir-se feliz e também alguma ingenuidade; e onde, como que por magia, os recursos que eram tão parcos chegavam para tudo e ainda para partilhar umas moeditas com o resmungão do Teixeira.

Os lugares “sagrados”

Atrevo-me a adiantar que, talvez em comum com a maioria dos que estiverem a ler estas palavras, o que ficou melhor gravado na minha memória não foram os eventos relacionados com a lides académicas e os períodos duros de estudo, que também os houve, mas sim as grandes festas, os convívios, as serenatas e as aventuras mais intensas nos cantinhos de amor sagrados. A cidade hoje está diferente. Cresceu, modernizou-se e a população universitária aumentou, o “novo” hospital e os Pólos Universitários desagregaram a família académica; não existindo actualmente, por força dessas circunstâncias, e nos espaços que foram até à década de 80 os pontos de encontro quase obrigatórios, um convívio com a mesma pluralidade e intensidade. Mas, revisitando esses lugares (e faço-o sempre que posso) constato que, à parte da cedência de alguns à voracidade mercantilista, na sua maioria estão lá ainda com o encanto de sempre. Refiro-me ao Jardim Botânico, à Associação Académica e sua envolvente, à Praça da República, ao Parque da Cidade, ao Penedo da Saudade, ao Penedo da Meditação, ao Choupal, às cantinas gerais (locais inevitáveis de bons encontros e de “contemplação”…), etc. A maioria desses espaços conservam os seus recantos quase intactos, os mesmos bancos em pedra ou madeira, as mesmas árvores centenárias, só que com mais umas décadas, e cada vez guardiães de mais segredos…

A chegada

Sou um dos portugueses que deve a frequência do ensino superior ao ciclo político iniciado com Abril de 1974, que permitiu a maior facilidade de acesso e de apoios aos que provinham de meios com menores capacidades económicas. Nasci e cresci no interior rural profundo e no seio de uma família numerosa. Pus um pé pela primeira vez em solo de Coimbra, como caloiro e indo sozinho, no dia 17 de Outubro de 1982. Tinha sido matriculado por amigos a quem havia deixado uma procuração, pois que, após a fase de candidatura, nas férias desse ano e antevendo a probabilidade de necessidades financeiras acrescidas, tinha ido ganhar um cacauzito o para o estrangeiro, de onde regressei apenas porque tinha sido colocado no curso de que gostava (Eng. Electrotécnica). Nesse grande dia e após uma viagem de quatro horas e meia, apeei no Largo da Portagem por volta das 10:30. Interroguei a primeira pessoa que vi sobre – para que direcção ficava a Universidade? –; resposta que me foi dada por alguém com ar de quem estava a ser gozado, e toca a iniciar a subida da Couraça de Lisboa. Após palmilhar uns metros desse percurso vislumbrei a placa de uma rua com um nome que me despertou um sentimento simultâneo de surpresa e contentamento, a Rua da Alegria; que passados uns dias me havia de vir a marcar para sempre. Ao chegar ao cimo da Couraça de Lisboa a imagem com que me deparo, e que hoje retenho bem viva na memória, foi a da imponente esquina do edifício da Física. Só podia ser aquele edifício a Universidade. Mais umas perguntas e passados uns instantes estava em frente à estátua de D. Dinis e depois no edifício das Matemáticas, a contemplar os painéis do Almada Negreiros, e logo a seguir a passar os horários de algumas das disciplinas que iria frequentar. Nos espaços do edifício das Matemáticas dão-se os primeiros encontros mágicos, entre essa espécie a quem ainda hoje denominam de caloiros, que comungam na sua maioria de um sentimento de orfandade e que por isso se deixam adoptar facilmente. Formou-se nesses instantes e meramente por acaso um grupo constituído por um beirão, dois transmontanos e um minhoto que ainda hoje mantém laços fortes. Foram depois almoçar às cantinas gerais. E após esse almoço ainda ninguém desse grupo tinha lugar para pernoitar e vai de procurar quarto. Com nesse dia as coisas não correram lá muito bem, decidiram ficar todos (sim todos!) num quarto na Pensão Santa Cruz (ainda hoje existente junto da Rotunda João Paulo II) onde foram gentilmente instalados dois beliches. Ai começou uma grande epopeia. Dormitório a dois passos da Universidade, das cantinas e da sala de estudo da AAC; constituindo uma magnífica base para o reconhecimento gradual da cidade e a busca de alternativas. As histórias e anedotas fluíam até às quatro ou cinco da manhã num ambiente de constante descoberta e de farta gargalhada. Apesar da elevada densidade populacional o ambiente foi sempre de tolerância e compreensão. O maior problema era um inimigo chamado sono, pois que os caloiros, apesar de jovens e fortes, também precisam de dormir e as aulas nas Matemáticas começavam às 8:15. Alguns compensavam com umas cestas e faltas às aulas da manhã, método que se viría a revelar nefasto para “fazer cadeiras”. A gerência da Pensão e a vizinhança começavam a acusar algum cansaço. Mas a situação persistiu até ao Natal; não por falta de alternativas, mas porque sem que ninguém o exteriorizasse o grupo não deseja desmembrar-se.

Os reais Paços da Alegria

Com as férias de Natal de 1982, foram um pouco atenuadas as saudades da família e tive o privilégio de ser contemplado com uma bolsa de estudo facultada pelos Serviços Sociais e um lugar na Residência da Alegria, situada no nº 4 da rua que nos primeiros instantes de contacto com a cidade me havia surpreendido. Foi a continuação de uma relação muito bonita. O ambiente na residência era de uma diversidade e riqueza difíceis de qualificar, com géneros para todos os gostos. Num total de 52 residentes distribuídos por 15 quartos duplos e 22 individuais alojavam-se uma maioria de estudantes de direito provenientes sobretudo do Norte. Depois em minoria estudantes de engenharia, de medicina e de outras licenciaturas dispersas pelas Faculdades de Letras, Farmácia, Economia, etc. Esse ambiente onde, pela diversidade intrínseca, eram antagónicos os hábitos de estudo, criava uma situação de permanente conflito entre os que tinham que ir às aulas matinais e os que por sistema se deitavam às seis ou sete horas da manhã (e que estavam em maioria); obrigando a negociações complexas para conseguir equilíbrios razoáveis. Os jogos de cartas – a doer – tinham início na sexta feira à noite e só terminavam na madrugada de segunda. Os perdedores exaltavam-se e as discussões eram inevitáveis gerando ondas de contestação pelos que pretendiam dormir. No coração da casa – a sala de convívio – repousavam jornais com relatos de um mundo diferente e debatiam-se, até ao limite dos argumentos, as mais deliciosas futilidades e paixões desportivas. Ironizava-se tudo, nenhum tema escapava à força indomada da irreverência. Os estudantes dos últimos anos de direito usavam-nos subtilmente como cobaias, lançando hábeis provocações, para o exercício retórico da defesa das suas causas e dos Direitos Reais, que tanto os atormentavam. Enquanto na casa se vivia cada segundo com intensidade, ali mesmo ao lado o Bazófias corria serenamente. Na cozinha faziam-se ao fim de semana memoriáveis repastos, sobretudo a feijoada, dos quais resultavam acrobáticas pilhas de loiça ficando muitas vezes a aguardar que a erosão e o tempo fizessem de esfregão; nada que uns dias mais tarde uma das funcionárias não resolvesse, convencida com uns escuditos. A nossa guardiã D. Céu, residente na sub-cave, era a nossa segunda mãe. Era expressamente “proibida” a entrada de meninas na casa mas não raras vezes a população residente não andaria muito longe da centena. Havia um “cromo” que perante a interpelação de uma assistente social sobre o seu abuso neste domínio assegurou – pela sua palavra de honra – de que a sua namorada era um rapaz (travesti) que se vestia de rapariga. Ficou logo sanado o problema legal.

Foram cinco anos das mais sã e rica camaradagem onde não havia nunca solidão, pois havia sempre a porta do lado com outra(s) alma(s) lá dentro. Por tudo isto, todos os que têm o privilégio de passar por essa residência ficam detentores da denominação perpétua de “Alegres”; reúnem-se uma vez por ano em jantar comemorativo com as várias gerações de residentes, recebem por cada participação o respectivo “Alegreto”, que coleccionamos com orgulho e têm hoje um sítio na Internet onde constam, entre dados e factos históricos, a lista de todos os ex-residentes e residentes.

Espreitar a cultura

Como a Residência da Alegria fica a dois passos do Largo da Portagem, muito cedo reconheci que o Dr. Adolfo Rocha, o nosso grande poeta Miguel Torga, tinha o seu consultório de Otorrinolaringologia (que utilizava também como local de escrita) mesmo sobre essa praça e que fazia todos os dias uma pausa, por volta das 17:00, para tomar um chá e encontrar-se com amigos no então café Arcádia (hoje convertido numa loja franchisada de roupas). Aí se juntavam com regularidade o Dr. Adolfo Rocha, o Prof. Doutor Orlando de Carvalho e outros intelectuais jubilados cujos nomes hoje já não me recordo e alguns que nunca soube, envolvendo-se quase sempre em acesas discussões político/ideológicas sobre os temas quentes do dia e/ou desse período, que constituíam um delícia escutar. Por conhecer esses hábitos, sempre que podia ia, sozinho ou com companhia, até ao Arcádia com algum material de estudo e ocupava uma mesa próxima, pedindo qualquer coisa para usufruir “na primeira fila” desses momentos únicos de cultura.

Pessoas muito especiais

Quando penso em Coimbra, sinto também num patamar acima do imediatismo sensorial, uma grande gratidão para com um grupo de pessoas que pelo seu profissionalismo, humanismo e exemplo me marcaram para sempre. Incluem-se neste grupo, como é óbvio, uma parte significativa dos meus Professores. Mas, desejo fazer aqui uma menção especial a duas pessoas de outra esfera. São elas o Dr. António Luzio Vaz, ainda hoje presidente dos Serviços Sociais da Universidade de Coimbra e o Prof. Doutor Murjão da Faculdade de Letras, na altura presidente da Sociedade Filantrópico da Universidade de Coimbra. Por inaptidão minha, não me atrevo a descrever as suas qualidades, mas simplesmente a deixar um manifesto de reconhecimento e uma referência explícita de que, já nos anos 80, tinham uma visão da missão das suas instituições e do papel do aluno – como ponto fulcral e cliente do sistema – antecipada em mais de 20 anos no tempo. O meu profundo bem-haja a ambos por compreenderem tão bem a natureza humana e todos aqueles que os procuravam.

Síntese

Ao ter-me sido solicitado para escrever umas palavras sobre – o que foi para mim Coimbra – senti que havia um desajuste verbal nesta expressão; pois que, para quem vive(u) Coimbra com o coração, o verbo ser não tem passado, e respondi sim a – o que é para mim Coimbra!

Joaquim Delgado

Engenharia Electrotécnica, FCTUC

Membro nº 38 da Rede UC