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Prefácio do CD Alleluya

CD Antigos Orfeonistas - Alleluya 1998

"O Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra apresentou, mesmo ao cair do ano findo, o seu mais recente trabalho discográfico. É a quarta obra gravada, deste singular coro masculino, que editoutrês trabalhos já na era do "compact-disc", entre 1994 e 1998.

No primeiro, aborda vários géneros musicais: desde a música popular portuguesa e brasileira, até às harmonizações quer da canção de Coimbra,quer de baladas de José Afonso, além de clássicos e excertos de óperas. O segundo trabalho segue já uma linha temática definida: música portuguesa, melodias ligadas a Coimbra. Intitulado "Em Cantos", apresenta-nos canções de José Afonso, de Adriano Correia de Oliveira, não esquecendo a "Balada de Despedida" e o "Coimbra" de José Galhardo e Raúl Ferrão, acompanhados (ou a acompanhar?) pel(a) Orquestra Filarmónica de Londres. Foi uma experiência fantástica, sobretudo para quem acompanhou de perto todas as fases do trabalho: a escolha dos temas,a orquestração (de José Calvário), as gravações de Orquestra em Londres, os arranjos corais (mês e meio apenas para harmonizar doze temas), os ensaios, as gravações do Coro e dos solistas, as misturas e os percalços.
Inesquecível.

Passados dois anos, era tempo de novo trabalho: Que opção fazer? Outro disco variado? Ou de música popular portuguesa? Ou de "coros de ópera"? Um disco de uma obra completa? Muitas as hipóteses, muitas as dúvidas. Mas recordámos que no primeiro disco tínhamos retirado, por falta de enquadramento,as músicas sacras. No segundo, não cabiam. E o Coro continuava a executá-las. Em 96 actuou na Praça e na Basílicade S. Pedro, em Roma. Tinha já cantado em grandes catedrais e pequenas igrejas (Catedral de S. Paulo, Brasil; Catedral de St. Sauveur, Aix-en-Provence; Igreja de Sto. António dos Portugueses, Roma; Igreja de Nª.Sª. de Fátima em Elisabeth, Newark, etc., etc....) e até numa Igreja metodista em Buenos Aires. Sem esquecer Fátima, e muitas outras igrejas portuguesas. Tinha participado em muitas cerimónias religiosas. O Coro tinha de gravar um disco de música sacra.

Escolhido o tema, faltava escolher o caminho.E este creio que foi a propósito: para quem tanto viaja no espaço geográfico do mundo, tinha de viajar também no tempo, e não esquecer a diversidade religiosa. Assim a viagem começa no Séc. XVI, com um tema de D. Pedro de Cristo, expoente máximo da Escola de Polifonia Sacra Renascentista da Igreja de Santa Cruz de Coimbra. Registámos um responsório de Natal; um inédito entre os muitos ainda não conhecidos, transcrito pelo Dr. Flávio Pinho. E seguimos,já no Séc. XVII, até Augsburgo; um "Regina Coeli"de Gregor Aichinger. E voltamos, agora no Séc. XVIII, à músicaportuguesa: de José Maurício, Lente de Música da Universidade de Coimbra, o seu "Aleluia" em forma de "rondó".

Detivemo-nos um pouco mais no Séc. XIX: Franz Schubert ("Psalm 23"), César Franck ("Panis Angelicus"),Anton Bruckner ("Ave Maria") e Giuseppe Verdi ("La Vergine degli Angeli")foram as nossas escolhas. E chegamos ao século vinte. Aí, partimos à procura de outras religiões, de outras músicas sacras: da liturgia anglicana inglesa ("Jerusalém", de H. Parry;"The Lord's Prayer" de Hay Malotte) à protestante ("Communion Alelluia") até ao "gospel" americano, cheio de ritmo ("Amazing Grace" e "Just a closer walk with Thee").

A viagem no tempo, foi acompanhada, na medida do possível, da sonoridade adequada: os temas "a capella"em ambiente acústico próprio, o grande órgão romântico moderno da Sé Catedral de Leiria para César Franck, Bruckner e Parry, o uso de piano, percussão e contrabaixo nos "gospel", o uso de instrumentos de sopro no "Communion Alelluia".
Quando me pediram estas linhas pensei que era a única pessoa que as não devia escrever: sou o responsável artístico do Coro, dirigi as gravações, e mais grave ainda, "concebi" e produzi o "Alleluya". Pelo que conheço de talforma o "interior" que a minha objectividade é quase obscena. Não me deixa falar nas imperfeições que detecto, nos timbres a mais ou menos, nos fraseados incompletos e até nos "acasos" de sorte. Mas creio que se desculpar á a paixão por um "amor" muito recente: há trabalho à vista, tem qualidade e foi realizado de uma forma muito honesta, sem truques. Concordarão ou não,depois de o ouvirem."

In "Informação Universitária",nº 2, Out-Nov-Dez 1998, Reitoria da Universidade de Coimbra

Augusto Mesquita

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