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Evolução da Bíblia

Guião

Secs. IV - XVSec. XVISecs XVII - XVIIISecs. XIX - XXSec. XXI 


Século IV-XV

A palavra Bíblia, no plural, deriva do grego bíblion (βίβλιον), que significa "rolo" ou "livro". A Bíblia, de longe o livro mais traduzido e divulgado de sempre, serve-nos nesta exposição apenas como exemplo para mostrar a evolução de todos os livros.

Na época medieval, as bíblias eram copiadas nos “scriptoria” dos conventos e das catedrais, para o uso das respectivas comunidades.

Devido ao tamanho da letra escrita à mão, dificilmente se podiam fazer Bíblias inteiras num só volume. Pertencente estilisticamente ainda ao ciclo românico (Séc. XII), a Biblioteca Geral tem uma das mais completas das chamadas “bíblias atlânticas” em Portugal, de que se mostra aqui o volume I, dos quatro que a compunham.

No período gótico (Séc. XIII), o tamanho da letra foi reduzido e o uso intenso das abreviaturas e do velino fino contribuíram para a compactação dos códices. Mesmo assim, raramente pesavam menos de cinco quilos. Os muito, muito ricos podiam oferecer-se cópias manuscritas destas grandes bíblias de aparato, mas contentavam-se a maior parte das vezes com os excertos escolhidos para os seus livrinhos pessoais de devoção chamados “livros de horas”, alguns belamente ilustrados. No livro, a grande novidade humanista do século de Quatrocentos é a leitura individual.

A primeira grande aventura comercial na história da imprensa ocidental foi a produção de uma Bíblia completa, concluída por Gutenberg em 1454 ou 1455. A Biblioteca Geral não tem nenhuma Bíblia de Gutenberg, mas possui uma ainda mais rara, um excelente exemplar em papel da Bíblia dada à estampa pelos seus sócios, Johannes Fust e Petrus Schoeffer, a primeira a conter uma data, local e nome dos impressores. É a chamada Bíblia das 48 linhas e também o primeiro livro na história da imprensa ocidental a conter um “colophon” com uma marca de impressor. Note-se a semelhança (imitação deliberada para não desvendar a sua origem mecânica) entre este incunábulo e os produtos manuscritos, até aí dominantes.

Século XVI

A imprensa desenvolveu-se rapidamente, produzindo em poucos anos “cimélios” de grande beleza e complexidade tipográfica, como a Bíblia poliglota complutense (de Alcalá de Henares), ainda hoje fonte de inspiração pela excelência dos seus tipos gregos, desenhados por Arnaldo Guillén de Brocar. Só veio a ser superada pela poliglota que o orientalista Benedito Árias Montano reviu e Filipe II patrocinou, impressa em Antuérpia pelo famoso Christophe Plantin. Para esta obra, Plantino empenhou a sua fortuna pessoal para comprar o melhor papel e mandou gravar os caracteres a Robert Granjon e Guillaume Le Bé, em Paris. Para o texto hebraico, recorreu aos caracteres já usados na Bíblia de Bomberg. A BGUC possui dois exemplares desta rara Bíblia (imprimiram-se apenas 500 e a maior parte naufragou na viagem para Espanha), que é ainda hoje um trabalho quase insuperável pela complexidade da sua paginação. Em cada página, as várias línguas disponíveis apresentam exactamente a mesma parte dos textos.

A invenção ocidental da imprensa de tipos móveis refundou a história da leitura e estima-se que, em cinquenta anos, tenha multiplicado por cem o número dos livros em circulação.

O século XVI será, sobretudo, o tempo das primeiras versões críticas do texto sagrado e das primeiras traduções do Latim para as “línguas vulgares”. Em 1516, Erasmo de Roterdão publicou uma edição crítica do Novo Testamento grego intitulada Novum Instrumentum omne, diligenter ab Erasmo Rot. Recognitum et Emendatum. Na segunda edição do texto, que ficará conhecido como o textus receptus, Erasmo usará no título o termo mais familiar "Testamentum", em vez de "Instrumentum". As traduções de Lutero, em alemão (N.T. 1522; A.T. 1534), de Jacques Lefevre d’Étaples, em francês (1528), de Casidoro de Reina, em espanhol (1569) e a tradução por um conjunto de 47 teólogos, conhecida como do Rei James (King James), em inglês (1611), inscrevem-se na profunda aspiração protestante de tornar o texto acessível ao "rapaz que maneja o arado" (William Tyndale) e de colocar uma Bíblia em cada casa. Foram estas traduções da Bíblia as obras que maior influência tiveram na fixação das respectivas línguas literárias, sejam elas o alemão, o inglês ou o checo.

O impressor francês Robert Estienne (1503-1559) foi o primeiro a imprimir (na sua quarta edição do Novo Testamento) a numeração dos versículos da Bíblia, como depois se tornaria habitual. A Biblioteca Geral não tem essa raríssima edição de 1551, mas do mesmo editor podemos mostrar duas Bíblias, sem (1545) e com (1557) a numeração dos versículos, por onde é fácil de avaliar a conveniência da “novidade”. Diz a lenda que o erudito impressor teria numerado os versículos da sua Bíblia durante uma viagem a cavalo entre Paris e Lyon, mas trata-se de uma fantasia, que não considera os trabalhos anteriores, por exemplo de Lefevre e de Panini.

No mundo de língua inglesa, a versão do Rei James (KJV), também com numeração dos versículos e impressa num formato portátil, será a Bíblia mais popular e ainda hoje continua a ser reeditada. Nesta exposição mostra-se um exemplar seiscentista, com vários pertences de família, manuscritos.

Séculos XVII-XVIII

O Livro massifica-se e torna-se mais acessível porque passa a estar escrito em línguas que as pessoas conhecem.

A primeira tradução para a língua portuguesa (feita a partir das línguas originais) é tardia, foi feita em Batávia (Jacarta) por João Ferreira Annes d'Almeida (1628-1691) e publicada em Amsterdam, em 1681 (N.T.) e em Batávia, em 1748 e 1753 (A.T.), esta última terminada já após a sua morte (1691) por Op den Akker. Baseada no texto grego, a versão de Almeida discorda quase sempre da “Vulgata”. Tanto bastava para que o tribunal da Inquisição, não tendo podido queimá-lo vivo, o tivesse queimado em estátua, em Goa. A Biblioteca Geral não possui exemplares destas raras edições, mas possui a primeira, princeps, num só volume, feita em Londres, em 1819.

A segunda tradução do Antigo e do Novo Testamento, num português se não melhor pelo menos mais actual, baseia-se na “Vulgata” e consumiu 18 anos de trabalho ao Padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797). Esta tradução só foi possível graças ao enfraquecimento da Inquisição em Portugal no século XVIII. A versão em sete volumes (Edição Nova), que é considerada padrão, foi publicada entre 1794 e 1819, e veio a ser condensada num único volume em 1821.

A compactação extrema de grandes livros como a Bíblia só no século XIX se tornou possível, com a invenção de papéis extremamente finos (como o chamado exactamente “papel-bíblia”) produzidos mecanicamente, em contínuo e calandrados para permitir a impressão nítida de pequenos caracteres.

Séculos XIX-XX

Os séculos XIX e XX são o período do chamado “Livro Moderno”, em que o objecto-livro irá atingir a estrutura e as características estilísticas e formais que hoje conhecemos. Passa a ser um produto industrial com a mecanização e explosão de novos impressos (revistas e jornais), traduções para línguas exóticas, edições ilustradas, livros para crianças e a interminável multiplicação das tiragens. Só as sociedades missionárias americanas distribuem por ano mais de 500 milhões de Bíblias.

Em 1803, Roque Ferreira Lobo publica em Lisboa uma adaptação da história sagrada em verso, destinada a meninas “na primeira idade”. O resumo em prosa do francês Martinho de Noirlieu teve entre nós tanta aceitação – numa época tão carecida de livros concebidos especialmente para a infância – que se conhecem, pelo menos, 6 edições em português, até 1898.

Podem acrescentar-se a esta lista a Historia sagrada (1850) de José Inácio Roquete e o Mimo à infância (de 1859) do diplomata e pedagogo Aquiles Monteverde, já ilustrado com 50 estampas. A mais conhecida adaptação em diálogos feita pela Condessa de Ségur (La Bible d’une grand-mère,) só saiu na Hachette, ilustrada com 30 gravuras de Carosfeld, em 1869.

Note-se que a primeira revista criada para o público infantil, O amigo da Infância, editada no Porto a partir de 1873, era especialmente dedicada à divulgação bíblica.

A imagem acompanhou desde sempre a história do livro: As bíblias latinas manuscritas (a Bíblia românica desta Exposição já é ilustrada) já tinham ilustrações ou pequenas letras capitais iluminadas.

Entre os impressos, depois do Apocalipse ilustrado por Dürer, a mais conhecida das bíblias ilustradas (e a primeira toda ilustrada pelo mesmo artista) será talvez a de Gustave Doré, publicada em 1865.

A imagem, com efeito, torna-se determinante, no século vinte, em todos os esforços de divulgação do texto sagrado para novos públicos, que passam pelas condensações ilustradas, por alguma aproximação à banda desenhada e pelos produtos multimédia.

O texto original da Bíblia foi escrito em hebraico e aramaico (Antigo Testamento) e em grego (Novo Testamento). A versão latina mais conhecida deve-se a S. Jerónimo, no século IV. É a chamada “Vulgata”.

Depois dos séculos de evolução que esta Exposição nos permitiu acompanhar, eis onde chegaram as várias civilizações do “Livro”: Sem entrar na questão histórica da definição dos cânones da Bíblia, mostram-se algumas versões diferentes, nas várias crenças e culturas servidas pelo livro: A latina (um incunábulo ilustrado, de 1493), a hebraica (uma edição veneziana do século XVI, acompanhada de uma Tora actual em português), um Novo Testamento grego (que tem a curiosidade de ter pertencido ao cardeal Mazzarino), uma ortodoxa (facsimile de original seiscentista) em caracteres cirílicos e latinos, a “Bíblia dos Capuchinhos” e outra tradução alegadamente “inter-confessional”. A quem estranhe a falta neste núcleo da “Nova Vulgata”, diga-se que ela pode ser consultada a seguir, em texto electrónico.

Estes volumes representam o culminar de uma história de séculos na fixação do texto e no aperfeiçoamento da forma da sua divulgação, desde os manuscritos até aos suportes digitais.

Século XXI

Com a invenção dos computadores e o início da Internet, o texto bíblico foi das primeiras obras a ser digitalizada e, assim, desmaterializada. Numa transcrição feita pelo próprio Michael Hart, a Bíblia fez parte do lote inicial do Projecto Gutenberg, e fará parte todos os sucessivos repositórios de obras no domínio público, nas suas várias formas. A explicação que o fundador do Projecto Gutenberg dá para a inclusão precoce da obra não deixa de ser curiosa: Estava-se em 1971 e foi por razões de espaço ocupado em disco que transcreveu “primeiro a Declaração da Independência dos EUA (apenas 5k). A isto seguiu-se a Carta de Direitos — e depois toda a Constituição dos EUA à medida que o espaço começava a ficar maior. Depois veio a Bíblia (já nos anos 80), uma vez que os livros individuais da Bíblia não eram muito grandes, depois Shakespeare (uma peça de cada vez), e Alice no país das Maravilhas”.

As bases de dados textuais e as técnicas de hipertexto vieram permitir novas visões sobre a Bíblia e novas “leituras” do seu texto. Toda a recente polémica sobre a existência de “códigos” escondidos seria impensável sem o recurso ao digital.

Os leitores de e-books (livros electrónicos) permitem-nos hoje transportar num aparelho portátil uma imensidade de livros, entre os quais – se o desejarmos – o texto bíblico. Ou transportar o som da sua leitura, num livro-audio …

Da grande diversidade de leitores disponíveis no mercado, mostram-se dois exemplos actualmente no mercado: o Papyre da empresa espanhola Grammata carregado com 500 obras integrais e um BeBook holandês que lê formatos diversos de texto e também de áudio.

No entanto, acreditamos que este livro electrónico não poderá revolucionar o livro e a leitura sem a prévia massificação do “papel electrónico” (e-paper, a evoluir para paper-e), flexível, dobrável e no qual se possa escrever, de que também apresentámos um protótipo português, feito especialmente para esta ocasião pela investigadora Elvira Fortunato. Só tecnologias deste género nos podem remeter de novo para as formas de utilização mais cómodas, conhecidas e estabelecidas ao longo de uma história milenar do livro como suporte da informação.

Independentemente dos suportes em que se apresentem, trata-se dos mesmos conteúdos pelo que, como Biblioteca, queremos continuar a conservá-los, sob qualquer das suas formas, durante os próximos 500 anos.