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Colégio das Artes

Investigação

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Linha de Investigação - ARTE E PRÁTICA CONCEPTUAL

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A investigação realizada no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, Unidade Orgânica de Ensino e Investigação tem um âmbito interdisciplinar que é proporcionado pela relação entre o sistema de crenças e práticas materiais culturalmente identificadas como Arte e o que designaremos como Prática Conceptual, isto é a produção de um conhecimento reflexivo e auto-reflexivo da experiência humana e das suas interações com o mundo natural, social, cultural e ideológico.

Arte é aqui entendida como o incremento poético “do que se pensa e de como se pensa“, concretizando-se no conflito entre experiência comprovada e a  sua crítica, no conflito entre totalidade e quotidiano.  Prática Conceptual surge por seu lado, como a massa crítica de conhecimento proporcionado não somente pelo método científico mas também por outras aproximações críticas e hermenêuticas do mundo.

A relação entre estas duas realidades empíricas será certamente esclarecedora do espaço que um Doutoramento em Arte Contemporânea quer construir enquanto investigação em Arte para conseguir problematizar e, em alguns casos, lograr superar as contingências disciplinares que separam a Teoria da Prática e que por diversas vezes as tornam mutuamente exclusivas.

A investigação desenvolvida no Colégio das Artes reconhece a dimensão oficinal nos processos de conceptualização, e nos próprios processos da escrita e, sobretudo, encara as Práticas Artísticas na sua complexidade e heterodoxia como um espaço onde o conhecimento se produz também através da assunção de que em Arte o princípio do não contraditório não domina em absoluto as relações entre conhecimento e verdade, entre pensamento e ação. Assumimos como essencial que a produção de pensamento se concretiza na articulação entre distanciamento crítico e imersão empírica.

O sujeito e o objeto desta investigação é, concluindo, a condição artística na contemporaneidade, as suas reformulações geopolíticas e antropológicas e a sua expressão concreta no fazer artístico contemporâneo. Queremos com isto afirmar que a crise da hegemonia norte-atlântica na definição do valor artístico e de um horizonte teleológico para o ser da Arte; que os efeitos deferidos da tradição clássica, do essencialismo moderno e das suas aporias e hesitações; que o desenvolvimento desigual da modernidade e das descontinuidades da sua história da arte e da sua história política são alavancas na caracterização da ideia de contemporâneo que conforma a nossa abordagem epistemológica.

Este posicionamento traduz-se na forma como as exposições e os textos do trabalho editorial que delas resultam refletem um espaço de permanente questionamento e de reflexão dos contextos conceptuais em que trabalham os artistas que nelas participam. Pela sua dupla condição de realidade curatorial e de espaço académico, o conteúdo expositivo torna premente a questão de se perceber se a aceitação sociológica do Mundo da Arte e das suas dinâmicas sócio-económicas compacta todas as possibilidades reais da arte existir e afirmar-se na contemporaneidade. Em exposições como “Homeless Monalisa”, “Liberdade”, ou nas exposições “Motel Coimbra” (que se concretiza com a contribuição dos Doutorandos em Arte Contemporânea nos espaços expositivos do CA e também na sua versão nómada, na possibilidade de levar a produção artística produzida em contexto académico a outros lugares); e na relação com novas geometrias do espaço expositivo como nas experiências curatoriais realizadas no espaço circular do “Quarto 22”, ou nas exposições realizadas no âmbito do Laboratório de Curadoria (prolongamento prático do Mestrado em Curadoria).

O espaço expositivo é um lugar da maior importância, nesta linha de investigação, para o desenvolvimento de pesquisa em estreita ligação entre o fazer e a sua dimensão especulativa. Os artistas não organizam o seu trabalho no espaço expositivo apenas na expectativa de consumarem um ciclo produtivo em que a exposição lhes proporciona uma posteridade mas de verificarem a qualidade e a eficácia das suas propostas, de revitalizarem e reinterpretarem a análise que fazem da sua produção e, se necessário, reverem as premissas dessa experiência. Há outra dimensão que acentua o facto de nem o atelier nem o espaço de exposição poderem, na nossa época digital, ser aferidos como tipologias autónomas e antagonistas.Com efeito o nomadismo e portabilidade do Atelier implica que este possa domiciliar-se em experiências expositivas.

Existe já um universo consolidado de experiências, desde o ICA de Londres, ao laboratório/galeria do Palais de Tokyo, experiência iniciada por Nicholas Bourriaud, aos múltiplos coletivos de artistas, de residências artísticas e de colaborações intercontinentais entre grupos e indivíduos de diferentes campos disciplinares, ou mais próximo de nós temos exemplos alternativos no papel intermediário que o CAPC dos anos 70 teve para a arte avançada portuguesa  ou na Galeria Zé dos Bois ativa desde os anos 90 no apoio e divulgação das experiências artísticas das novas gerações. Esse nomadismo que referimos implica também que o “atelier” possa ressurgir em plataformas virtuais que miniaturizaram e condensaram a escala do “atelier” mas ampliaram a sua geografia. Neste sentido, as plataformas “Motel Coimbra” e “Homeless Monalisa” antecipando e, ao mesmo tempo, prolongando a latitude das exposições que delas tomaram o nome, são espaços de problematização mas também de expressão e de afirmação da dimensão plástica do pensamento.

As publicações (onde se incluem também as originadas pela atividade expositiva) constituem já lugar de expressão da investigação desenvolvida, mas também se constituirão elas próprias como reptos, ao criarem novos desafios conceptuais: Nas diferentes formas como as publicações se manifestam enquanto lugar para a própria criação (em publicações como as da coleção “Infravioleta” em que a criação surge dos cruzamentos interdisciplinares) ou nas publicações que resultam das relações que se estabelecem com diferentes saberes nas conferências realizadas no contexto deste doutoramento (coleção “As Artes do Colégio”).

Por outro lado, a recente criação de um espaço dedicado à investigação sobre o legado da Arte Russa, tendo como ponto de partida a criação de um Ramo Virtual do Museu Russo de São Petersburgo, permite (na porta que se abre através deste Museu que é possuidor da maior coleção de Arte Russa e Soviética) abrir possibilidades de investigação que estão para além da pesquisa histórica, na vitalidade da herança e influência das vanguardas russas e na sua forte presença nas práticas artísticas contemporâneas. Permitirá, também, reencontrar a arte como uma práxis plural e intrinsecamente revisionista e permitirá questionar os consensos narrativos e doutrinários que anularam a representação, o realismo mimético, e a figuração como parte da superestrutura da arte; consensos que na década de 70 foram enfraquecidos com o desenvolvimento da cultura videasta, da fotografia como disciplina artística, da arte da performance, da cultura do happening, da body art e da estética participativa.

É também a hipótese de se garantir maior presença a uma contemporaneidade que desconhecemos oferecendo-se assim um novo objeto de estudo pelas possibilidades que se abrem a uma história de arte sempre incompleta e em ressignificação cujo caminho se faz de muitos caminhos.

É sobretudo nas relações interdisciplinares, tendo a obra de arte como objeto e instrumento de estudo, que a investigação em Arte se desenvolve nesta Unidade Orgânica da UC, nas relações que se podem estabelecer entre Arte e Artes Plásticas, Arte e Artes Performativas, Arte e Arquitetura, Arte e Design, Arte e Literatura, Arte e Filosofia, Arte e Curadoria.

A palavra “Arte” surge como elemento agregador, cuja aparente redundância, quando associada a outra que já inclui o conceito de arte (com diferentes graus de especificidade), é sobretudo um fator catalisador da reflexão e da complexidade das relações quando se procura olhar a arte em diferentes escalas, onde o particular muitas vezes expressa sobretudo o seu carácter expansivo, a potencialidade de, em Arte, a especificidade nunca deixar de ser expressão do todo que faz da arte, arte.