FCTUC estuda a Evolução das características da violência infantil em Portugal
Publication date: 21-01-2009 11:05

A violência infantil em ambiente familiar é proporcionalmente mais frequente em famílias reconstruídas do que em famílias nucleares, o agressor tende a ser do sexo masculino e a forma de violência mais praticada é a violência sexual. Na amostra considerada, a violência atinge crianças de todas as idades e sexos, sendo mais frequente o abuso sexual em raparigas com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos. São as principais conclusões do estudo “Cinderela”: do conto de fadas à realidade. Perspectiva sobre os maus-tratos infantis”, realizado por uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra FCTUC.
Coordenado pelo investigador Paulo Gama Mota, a pesquisa teve por objectivo fazer uma abordagem da violência infantil testando modelos evolutivos para explicar algumas características dos maus-tratos infantis em Portugal.
Sendo a violência infantil um fenómeno social dramático, o investigador da FCTUC, co-autor do estudo com Dora Simões e Eugénia Loureiro, afirma que “apesar das vertentes psicológicas, sociológicas e económicas conhecidas, o fenómeno é difícil de caracterizar. Uma abordagem evolutiva oferece um novo quadro conceptual que permite explicar algumas características dos maus-tratos infantis”.
A amostra incluiu 100 crianças maltratadas, diagnosticadas no Instituto de Medicina Legal de Coimbra, nos anos de 2002 e 2003, com idades compreendidas entre os 0 e os 16 anos, oriundas da região centro do país.
A investigação incidiu sobre quatro domínios para contextualizar e caracterizar os maus-tratos: Grupo doméstico de pertença da criança, Perfil do agressor (incluindo dados sóciobiográficos), que permitissem perceber a presença de alguma relação de parentesco com a criança, se era portador de “handicap” físico ou mental e, finalmente, se consumia substâncias ilícitas, Perfil da criança e Gravidade do mau-trato (tipo de mau-trato praticado e sua gravidade com base na classificação proposta por Canha (2003).
O estudo conclui ainda que “a explicação mais plausível para a maior ocorrência de maus-tratos sobre as crianças, em famílias reconstruídas, parece residir num efeito colateral relacionado com a ausência de laços de vinculação estabelecidos desde o nascimento que deveriam induzir a fenómenos de inibição da agressão relativamente à descendência”.
“O que nós afirmamos é que há um risco acrescido de maus-tratos em famílias reconstruídas, possivelmente pela ausência de vinculação biológica de um dos adultos. Isso não quer dizer que não se possa desenvolver afecto nestas condições, mas apenas que o risco é maior de que não se desenvolva”, completa o investigador da FCTUC.
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