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Património Histórico-Farmacêutico

História da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra e a origem do seu Património Histórico-Farmacêutico

Do século XVI a 1772


Foi no reinado de D. Sebastião que o ensino farmacêutico começou a ser leccionado na Universidade de Coimbra, a única Universidade então existente em Portugal. O curso que foi instituído seria semelhante ao que consta do Regimento dos Médicos e Boticários Cristãos-Velhos, datado de 1604. O ensino constava de dois anos de aprendizagem de latim (fundamental para a leitura de livros científicos e técnicos) e quatro anos de prática numa botica de reconhecidos méritos, onde o aluno aprendia a arte de botica com o Mestre boticário proprietário da botica. Depois dessa prática os candidatos realizavam um exame na Universidade perante um júri composto por professores da Universidade (Faculdade de Medicina) e por boticários de reconhecida competência da cidade de Coimbra. Os que fossem considerados aptos poderiam abrir botica em qualquer parte do país.

De forma a estimular a frequência deste curso foram abertos vinte partidos na Universidade. O partido era uma bolsa, atribuída aos candidatos a boticários, que se destinava a pagar as despesas de alojamento e alimentação ao Mestre boticário que recebia o aluno, sendo este regime destinado a cristãos-velhos. Deste modo pode considerar-se o ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra o mais antigo do país e também pioneiro a nível europeu.

Da reforma pombalina da Universidade (1772) à reforma de Passos Manuel (1836)

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Esta situação manteve-se até 1772, data da publicação dos novos Estatutos da Universidade de Coimbra, sob tutela do Marquês de Pombal. A reforma pombalina da Universidade é considerada a mais marcante da história da Universidade. Os novos Estatutos pretendiam acompanhar os movimentos científicos internacionais, através da fundação de um conjunto de estabelecimentos destinados ao ensino e à investigação. Foram fundadas duas novas Faculdades (Filosofia e Matemática) e vários estabelecimentos de ensino experimental, nos quais se incluem o Hospital Escolar, o Teatro Anatómico, o Dispensatório Farmacêutico (botica do Hospital Escolar), o Jardim Botânico, o Laboratório Químico, o Gabinete de Física, o Gabinete de História Natural e o Observatório Astronómico.

O curso farmacêutico tinha então a duração de quatro anos: nos primeiros dois anos os alunos aprendiam química no Laboratório Químico, sendo que nos últimos dois era ensinada a arte farmacêutica no Dispensatório Farmacêutico. O ensino era essencialmente prático e o curso não conduzia a qualquer grau académico. Ao que se sabe a frequência do curso era reduzida pois os candidatos a boticários optavam pela obtenção do estatuto profissional através da via do Físico-Mor do Reino, existente desde 1521.

A Escola de Farmácia (1836)


Em 1836 foi fundada a Escola de Farmácia da Universidade de Coimbra à semelhança do que aconteceu em Lisboa e no Porto. As Escolas de Farmácia funcionavam em anexo à Faculdade de Medicina (Coimbra) e às Escolas Médico-Cirúrgicas (Lisboa e Porto). Também no mesmo ano terminou a via de acesso à profissão Farmacêutica pela via do Físico-Mor. Na Escola de Coimbra ao regime escolar existente, foi adicionado uma componente lectiva que integrava diversas cadeiras preparatórias, tais como a botânica, a zoologia, a mineralogia e a física. O principal objectivo era o de fornecer um conjunto de conhecimentos essenciais para o futuro farmacêutico. Todas estas reformas do ensino farmacêutico enquadraram-se numa reforma mais vasta do ensino, dinamizada pelo Ministro do Reino, Passos Manuel. Surgiu, contudo, uma via alternativa, e mais popular, para obtenção do título profissional, tutelada pela Escola, mas onde não se exigia a frequência do curso. Bastava a matrícula na Escola, a aprendizagem numa botica e, no final, a realização de um exame na Escola. Nenhuma das vias era conducente a qualquer grau académico. Entre 1836 e 1902 o ensino farmacêutico manteve-se em moldes semelhantes.

Da reforma da Escola de 1902 à fundação da Faculdade de Farmácia (1921)

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Em 1902 é promovida uma profunda reestruturação do ensino farmacêutico pelo Ministro Hintze Ribeiro. Pela primeira vez o curso foi considerado superior e passou a ser de quatro anos, sendo que em cada ano se leccionavam duas cadeiras bastante extensas. No primeiro ano: 1ª cadeira - História Natural das Drogas. Posologia; 2ª cadeira – Farmácia Química, Análises Microscópicas e Químicas Aplicadas à Medicina e à Farmácia. No segundo ano: 3ª cadeira - Farmacotecnia e Esterilização; 4ª cadeira – Análises Toxicológicas, Química Legal, Alterações e Falsificações de Medicamentos. Esta reforma terminou com a existência de dois grupos de farmacêuticos formados na Escola.

Pela primeira vez, na Universidade de Coimbra passou a existir um espaço específico para o ensino farmacêutico, a Casa dos Melos, cuja inauguração foi em 1915. Em 1911 o ensino farmacêutico passou a ter autonomia relativamente à Faculdade de Medicina e em 1918 a Escola passou a designar-se por Escola Superior de Farmácia. Em 1911 e 1918 houve alterações profundas do plano de estudos. Em 1921, as Escolas passaram ao estatuto de Faculdades.

Novamente Escola de Farmácia (1928-1968)

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Em 1928, na sequência de uma forte política de contenção económica, a Faculdade de Farmácia foi extinta, continuando a laborar até 1932, ano em que passou novamente ao estatuto de Escola, tal como passou a congénere de Lisboa. O curso passou a ser apenas de três anos e era conducente a um curso profissional com o estatuto de bacharel. A licenciatura, introduzida em 1919, apenas podia ser obtida na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto.

De 1932 a 1968 o plano de estudos terá mantido as mesmas linhas gerais. Durante estas quase quatro décadas a Escola de Farmácia de Coimbra passou por um período de significativa produtividade científica, estando esta bem espelhada na revista da instituição fundada em 1934 – o Notícias Farmacêuticas. A Escola era dotada de um conjunto de prestigiados professores e investigadores que em vários campos científicos realizavam investigação de relevância nacional e internacional.

Surgem durante este período os primeiros financiamentos para investigação, provenientes de instituições oficiais e de algumas instituições privadas. As então colónias Portuguesas constituíam um desafio científico importante, nomeadamente no campo da Farmacognosia.

A actualidade da Faculdade depois de 1968


Em 1968 a Escola de Farmácia da Universidade de Coimbra passou novamente ao estatuto de Faculdade. Esta passou a conceder os graus de bacharel e de licenciado. Ao longo do tempo a Casa dos Melos vinha-se mostrando insuficiente para o ensino farmacêutico, sendo por esse motivo algumas instalações transferidas para outros edifícios, nomeadamente, para o Colégio de Jesus, para a Casa dos Contadores contígua à Casa dos Melos e, mais tarde, para as instalações dos antigos serviços farmacêuticos dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Do mesmo modo, os recursos humanos da Faculdade foram igualmente alargados. Em 1978 uma nova reforma do plano de estudos pretendeu aproximar o ensino ao que mais avançado se fazia em alguns países Europeus. As reformas de ensino que se instituíram desde a década de 80 do século XX cumpriram as directivas comunitárias, cujo principal objectivo visa a preparação do farmacêutico para os desafios da actualidade.

Em 2009 a Faculdade de Farmácia transferiu-se para o Pólo III da Universidade, onde ocupou um edifício moderno construído propositadamente para a Faculdade. Tanto no plano institucional, como nos domínios do ensino e da pesquisa científica, a Faculdade de Farmácia continua a corresponder às exigências, realizando, tanto do ponto de vista pedagógico como da investigação, trabalho de mérito reconhecido nacional e internacionalmente.

A criação do Património Histórico-Farmacêutico da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (PHF-FFUC)

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A Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra dispõe de um valioso espólio museológico, bastante diversificado, de inegável interesse científico e com um valor acrescido para a história das ciências, da farmácia e do ensino farmacêutico.

O espólio existente é, na sua esmagadora maioria, proveniente da própria Faculdade, sobretudo após as instalações definitivas da Faculdade de Farmácia na Casa dos Melos, em 1915. Mas também existe, porque foi identificado, espólio proveniente da Escola de Farmácia anterior a 1915, que estaria dividido pelas instalações dispersas da Faculdade antes das instalações definitivas. Desta forma o espólio integra peças que remontam ao século XIX e também muitas outras peças (a sua maioria) da primeira metade do século XX. Estão identificadas peças nacionais e também de origem estrangeira. Os fundos de maior dimensão são provenientes dos antigos Laboratórios de Farmácia Galénica e Tecnologia Farmacêutica e de Farmacognosia.