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Património Histórico-Farmacêutico

Âmbito

 O ensino farmacêutico ma Universidade de Coimbra é multissecular. Existe desde finais do século XVI. A Escola de Farmácia foi fundada em 1836 e a Faculdade de Farmácia em 1921.

Os estudos histórico científicos e histórico-farmacêuticos, bem como no campo da deontologia e legislação farmacêutica têm na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra um rasto histórico muito importante. O espólio de interesse museológico tem, também, grande interesse.

Neste sítio aborda-se todo esse patimónio histórico-farmacêutico da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra de enorme valor cultural, social e científico.

Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra: 450 anos de história

 Do século XVI à reforma pombalina da Universidade (1772)

Foi nos finais do século XVI, no reinado de D. Sebastião, que se inaugurou o ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra. Esta Universidade era então a única existente em Portugal. O curso que foi instituído seria semelhante ao que consta do Regimento dos Médicos e Boticários Cristãos-Velhos, datado de 1604. Foi por isso um curso pioneiro na Europa, embora fosse um curso essencialmente prático e essa prática era feita fora dos muros da Universidade. Nos primeiros dois anos os alunos aprendim latim (fundamental para a leitura de livros científicos e técnicos) e depois tinham quatro anos de prática numa botica, onde o aluno aprendia a arte de botica com o Mestre boticário. Este era o proprietário da botica e responsável pela formação do aluno. Depois desse período os candidatos a boticários realizavam um exame na Universidade. Os examinadores eram professores da Universidade (Faculdade de Medicina) e boticários da cidade de Coimbra. Os alunos que ficassem aprovados eram considerados boticários e assim podiam abrir botica em qualquer local do país. Em Portugal, desde 1521, que havia a possibilidade de se obter acesso à profissão através da via do físico-mor, sendo concorrente este processo com a via da Universidade. Para estimular a vinda de alunos para a Universidade foram abertos vinte partidos, isto é bolsas de estudo, na Universidade, destinadas a cristãos-velhos. Esta bolsa era para pagar despesas de alojamento e alimentação ao Mestre boticário que na sua botica recebia o aluno. Este regime de formação manteve-se em moldes semelhantes até 1772.

Da reforma pombalina da Universidade (1772) à reforma de Passos Manuel (1836)

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Em 1772 a Universidade de Coimbra no reinado de D. José, como se sabe profundamente marcado pelas políticas reformistas do seu Secretário de Estado, o Marquês de Pombal, teve novos Estatutos, justmente estimulados e promulgados pelo Marquês de Pombal. Foi reitor reformador D. Francisco de Lemos. A reforma da Universidade de 1772 é considerada por muitos historiadores da Universidade a mais profunda da sua história. Com os Estatutos de 1772 foi estimulado na Universidade o ensino experimental à semelhança do que existia em vários países europeus. Foram solicitados pareceres a diversos especialistas portugueses para a modernização na Universidade, como foi o caso de Ribeiro Sanches para a Faculdade de Medicina onde se incluiam os estudos farmacêuticos. Com os Estatutos de 1772 foram fundadas duas novas Faculdades: de Filosofia e de Matemática. Foram fundados, também, vários estabelecimentos de ensino experimental para ensino e investigação pois pretendia-se dinamizar o ensino experimental na Universidade. Assim, foram fundados o Hospital Escolar, o Teatro Anatómico, o Dispensatório Farmacêutico (botica do Hospital Escolar), o Jardim Botânico, o Laboratório Químico, o Gabinete de Física, o Gabinete de História Natural e o Observatório Astronómico. Os três primeiros dependiam da Faculdade de Medicina. Na Faculdade de Medicina foram de grande importância os conselhos dados por Ribeiro Sanches a quem o Marquês de Pombal solicitou parecer para modernizar a Universidade e em particular a Faculdade de Medicina,tendo sido capitais as influências que Ribeiro Sanches teve de Hermann Boerhaave. O curso de boticários fundado pela reforma pombalina estava integrado na Faculdade de Médicina, dependia da disciplina de Matéria Médica e Arte Farmacêutica do curso de medicina e era um curso de quatro anos repartidos do seguinte modo:: dois anos de aprendizagem de química no Laboratório Químico e dois anos de aprendizagem de arte farmacêutica no Dispensatório Farmacêutico. O ensino era essencialmente prático. O curso não era conducente a qualquer grau académico. Pela primeira vez o ensino farmacêutico universitário era lecionado dentro do espaço da Universidade e os alunos boticários tinham formação em química que na época era fundamental para a preparação medicamentosa. A via do físico-mor do reino, existente desde 1521, continuava a vigorar sendo uma forte concorrente desta via da Universidade. É neste período que se escreveu a primeira farmacopeia oficial portuguesa

A fundação da Escola de Farmácia em 1836 no âmbito das reformas liberais


Em 1836 foi, no âmbito das reformas de ensino do Ministro do Reino Passos Manuel foi fundada a Escola de Farmácia de Paasos Manuel. Também no âmbito da mesma reforma do ensino no espírito das reformas da instrução pública liberais vintistas foram fundadas no mesmo ano as Escolas de Farmácia de Lisboa e do Porto. Nestas duas cidades Escolas de Farmácia funcionavam em anexo às Escolas Médico-Cirúrgicas e na Universidade de Coimbra em anexo à Faculdade de Medicina. Na Escola de Farmácia da Universidade de Coimbra o curso existente modernizou o curso de boticários a ser lecionado no Dispensatório Farmacêutico e introduziu uma série de cadeiras mais abrangentes do ponto de vista teórico, tais como a botânica, a zoologia, a mineralogia e a física. Em 1836 a via do Físico-Mor de acesso à profissão foi extinta. Surgiu, contudo, uma outra via alternativa para obtenção do título profissional. Era uma via que não se exigia a frequência da parte escolar do curso. Era necessária matrícula na Escola, aprendizagem da arte numa botica e a realização de um exame na Escola. Estes eram farmacêuticos de 2ª classe e os outros farmacêuticos de 1ª classe. Não havia atribuição de qualquer grau académico em nenhuma destas vias e ambos os farmacêuticos podiam exercer a mesma profissão. O ensino farmacêutico manteve-se em moldes semelhantes até1902.

Da reforma da Escola de 1902 à fundação da Faculdade de Farmácia (1921)

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Em 1902 as reformas do presidente do conselho Hintze Ribeiro (1849-1907) contemplaram, também, e ensino farmacêutico e que mexeram igualmente com o meio profissional. Uma importante inovação foi a elevação do curso à categoria de superior. Passou a ser um curso de dois anos com quatro cadeiras bastante extensas. No primeiro ano: 1ª cadeira - História Natural das Drogas. Posologia; 2ª cadeira – Farmácia Química, Análises Microscópicas e Químicas Aplicadas à Medicina e à Farmácia. No segundo ano: 3ª cadeira - Farmacotecnia e Esterilização; 4ª cadeira – Análises Toxicológicas, Química Legal, Alterações e Falsificações de Medicamentos. Em 1915, pela primeira vez, na Universidade de Coimbra passou a existir um edifício específico para ensino farmacêutico — a Casa dos Melos — que havia sido atribuída à Escola de Farmácia em 1912. Em 1911 o ensino farmacêutico passou a ser autónomo relativamente à Faculdade de Medicina. Em 1918 a Escola passou a designar-se por Escola Superior de Farmácia. As reformas de 1911 e de 1918 não foram apenas reformas institucionais. Foram reformas do plano de estudos que, face à evolução das ciências farmacêuticas mantiveram muito atualizada a formação dos alunos de farmácia. Em 1921, as Escolas passaram ao estatuto de Faculdades respondendo a uma antiga aspiração dos farmacêuticos portugueses. Deve recordar-se que este período dos primeiros anos do século XX são de significativa importância para a história da farmácia. Desde logo pelo alargamento do arsenal terapêutico, depois pelas inovações científicas que iam surgindo (caso das inovações no campo da microbiologia e do controlo analítico) depois, pela expansão da indústria farmacêutica e pelas transformações que esta comportava, desde logo no plano jurídico.

O retorno à Escola de Farmácia (1928-1968)

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A política de contenção económica do Estado Novo atingiu também o ensino universitário e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra. A Faculdade de Farmácia foi extinta em 1928, continuando a funcionar até 1932. Neste ano passou novamente ao estatuto de Escola. E foi neste mesmo ano que a Faculdade de Farmácia de Lisboa passou também ao Estatuto de Escola. Ficou apenas como Faculdade a congénere do Porto. O curso nas Escolas passou a ser apenas de três anos e era conducente a um curso profissional com o estatuto de bacharelato. A licenciatura, que havia sido introduzida em 1919, podia ser obtida unicamente na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto. Entre 1932 e 1968 o plano de estudo farmacêuticos manteve-se semelhante nas suas linhas mais gerais. É importante sublinhar que entre 1932 e 1968 a Escola de Farmácia de Coimbra passou por um período de significativa produtividade científica que lhe proporcionou voltar em 1968, e face ao empenhamento dos seus professores, investigadores (que em diversos domínios científicos faziam investigação de prestígio nacional e internacional) e diretores, ao estatuto de Escola. A vida científica e institucional da Escola encontra-se bem retratada na revista da instituição, fundada em 1934 – o Notícias Farmacêuticas. Esta publicação tinha orientação científica e socioprofissional e era um periódico relevante na litertura científica portuguesa.

A Faculdade de Farmácia de 1968 à atualidade

Em 1968 a Escola de Farmácia da Universidade de Coimbra, à semelhança do que se passou com a congénere de Lisboa, passou novamente à condição de Faculdade. Assim, a renovada Faculdade passou a conceder os graus de bacharel, de licenciado e de doutor. No entender de muitos, tratou-se de repor justiça numa situação injusta e que molestava as ciências farmacêuticas em Portugal, bem como o exercício profissional farmacêutico.

A Casa dos Melos era o local destinado para o ensino farmacêutico. Contudo, com o avançar do tempo vinha-se mostrando insuficinte para o ensino farmacêutico cada vez mais exigente e com mais responsabilidades perante o meio profissional. Algumas instalações foram transferidas para outros edifícios, nomeadamente, para o Colégio de Jesus, para a Casa dos Contadores contígua à Casa dos Melos. Mais tarde, em 1996, as instalações prolongaram-se para os antigos serviços farmacêuticos dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

Os recursos humanos da Faculdade foram sendo gradualmente alargados. Em 1978 uma nova reforma do plano de estudos, comum a Lisboa e ao Porto, pretendeu aproximar o ensino ao que mais avançado se fazia em alguns países Europeus, dividindo o curso em três ramos. Um deles voltado para a farmácia de oficina e hospitalar, outro para a indústria farmacêutica e o terceiro ramo para as análises clínicas. Durante a década de oitenta do século XX houve ajustamento sda reforma surgiu uma nova reforma de estudos em 1988 que pretendiam formatar o farmacêutico português pelos padrões da Europa comunitária. O principal objectivo era a preparação do farmacêutico para os desafios da sociedade moderna e para os desafios científicos.

Em 2009 a Faculdade de Farmácia mudou de instalações. As instalações sediadas no Pólo I da Universidade de Coimbra, vulgarmente simbolizadas pela Casa dos Melos, deixaram de ser utilizadas pela Faculdade de Farmácia que passou a ocupar um moderno edifício construído de propósito para albergar a Faculdade de Farmácia. Foi em janeiro de 2009 que a Faculdade de Farmácia passou a ocupar as novas instalações. continua a corresponder às exigências, realizando, tanto do ponto de vista pedagógico como da investigação, trabalho de mérito reconhecido nacional e internacionalmente.

O espólio de interesse histórico-farmacêutico da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra

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O espólio de interesse museológico existente na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra é valioso e de relevância cultural e de investigações histórico-científicas. Esse espólio é o constituído essencialmente por utensílios, peças e equipamentos diversos em fase de continua catalogação. São peças com norme valor científico que foram utilizadas no ensino e na investigação. Esse espólio apresenta um valor acrescido para a história das ciências, da farmácia, do ensino farmacêutico e da saúde e provém, na sua esmagadora maioria, da própria Faculdade. Remonta na sua generalidade ao século XX à Escola de Farmácia, sobretudo após as instalações próprias, em 1915. Mas também existe, porque foi identificado, espólio anterior a 1915 e proveniente da Escola de Farmácia. Esse material estaria disperso pelas instalações da Faculdade antes das instalações definitivas. Assim, o acervo integra algumas peças do século XIX e também outras peças, na sua maioria, da primeira metade do século XX, de origem nacional e estrangeira. Ao longo dos anos diversas objetos da Faculdade foram solicitadas para diversas exposições. Os antigos Laboratórios de Farmácia Galénica e Tecnologia Farmacêutica e de Farmacognosia da Faculdade de Farmácia foram a origem do maior número de peças. Com a mudança de instalações da Casa dos Melos para a atuais instalações no Pólo III da Universidade de Coimbra em 2009, foram encontradas muitas novas peças e outro material de interesse museológico. Nestas instalações existe uma zona de exposição e de reserva. Nas novas instalações ainda em 2010 realizou-se a primeira exposição organizada com o espólio reunido da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

João Rui Pita
Professor Associado com Agregação
Faculdade de Farmácia
Universidade de Coimbra