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CLP

Centro de Literatura Portuguesa

Plano Estratégico

Prioridades estratégicas (2013-2020)



1. Enquadramento e identificação

    O Centro de Literatura Portuguesa (CLP) da Universidade de Coimbra é uma unidade de investigação com  experiência acumulada, em particular desde a sua refundação em 2003. Dotado de recursos materiais e de espaço próprio, o CLP congrega um conjunto de várias dezenas de investigadores, em grande parte especialistas em literatura portuguesa, mas conta com outras valências em matéria de investigação. Na sua esmagadora maioria, os investigadores  (que se encontram em diferentes situações de integração no CLP) são professores do ensino universitário.
    O documento que agora se apresenta traduz alguma coisa dos condicionamentos mencionados, bem como o capital de investigação conseguido nos últimos anos. Mas ele traz consigo também a necessidade de clarificações e de reajustamentos vários, tendo que ver em geral com a conveniência de se traçar uma orientação estratégica  fundamentada e de médio prazo. Trata-se, assim, de assegurar a coerência e a articulação de esforços que devem presidir a uma unidade de I&D; ao mesmo tempo, procura-se contemplar as já esboçadas e previsíveis diretrizes que enformarão a avaliação das unidades de I&D. Nesse sentido, valoriza-se o conceito de projeto estratégico, os projetos específicos e as atividades que contribuem, num determinado calendário, para a sua concretização. 
    Em muito do que se segue está implícito o que se conhece  quanto a política de investigação científica, tanto à escala nacional como  no quadro da União Europeia. Para além disso, importa lembrar que este documento se segue àquele que oportunamente foi discutido (“Centro de Literatura Portuguesa: para uma estratégia organizacional”) e incorpora contributos que essa discussão suscitou.

 

2. Missão e prioridades estratégicas

    Conforme a sua designação indica, o CLP adota como área de investigação a literatura portuguesa. Configura-se assim uma missão: promover o estudo, a preservação, o conhecimento e de um modo geral a valorização da literatura portuguesa enquanto património e enquanto realidade viva, com acentuação da chamada investigação fundamental. Para cumprir a sua missão, o CLP recorre complementarmente ao contributo de matérias, de instrumentos, de métodos e de teorias que possam ser associados à investigação em literatura portuguesa; compreende-se neste alargamento  estrategicamente orientado o eventual contributo,  em termos comparatistas,  do conhecimento especializado de outras literaturas, com destaque para as chamadas literaturas de língua portuguesa,  bem como o de outras práticas artísticas e de discursos mediáticos. O cumprimento da missão do CLP envolve ainda  o intercâmbio  com instituições congéneres nacionais e internacionais.
    As  quatro prioridades estratégicas  a seguir enunciadas procuram ajustar-se  à missão do CLP, enquanto unidade de I&D; para os feitos deste documento, as prioridades estratégicas desenvolvem-se em programas temáticos que incorporam as ações de investigação a levar a cabo. Serão essas ações com motivação estratégica que hão de confirmar as prioridades estabelecidas, o que demanda a designação de responsáveis pelos programas, bem como  procedimentos de  avaliação interna de resultados.
    Assim:

  •  2.1: Património literário. Entendendo-se a literatura portuguesa como efeito sedimentado de um conjunto de manifestações literárias inscritas num tempo muito alargado, entende-se também que é prioritário salvaguardar, no plano da investigação, a feição patrimonial dessas manifestações. Elas devem ser encaradas como parte da nossa memória ou como um ativo simbólico, cuja preservação, estudo e abordagem hermenêutica contribuem decisivamente para o nosso autoconhecimento e  autoidentificação, com óbvias consequências na formação educativa do presente e do futuro. Nesse sentido, os atos de leitura que favorecem a interpretação ou a reinterpretação dos textos ajudam a manter viva aquela feição patrimonial. Para além disso, enquanto manifestações artísticas com componente material (plasmada em livros, manuscritos, coletâneas, objetos e modos de escrita), as práticas literárias carecem de cuidados e de ações de salvaguarda, em especial em dois domínios correlatos: o das edições e o das transferências de suportes. Como parece óbvio, é esta a área estratégica que mais expressivamente distingue o CLP, também tendo em conta o trabalho já realizado ao longo dos anos.
  • 2.2: Língua portuguesa. Postula-se a língua portuguesa como prioridade estratégica, tendo-se em conta a  sua implicação na expressão, na evolução e na configuração histórica e cultural da literatura portuguesa. Sem se confundir com os propósitos nem com as metodologias  próprias dos estudos linguísticos (e em particular dos estudos de linguística aplicada), a opção estratégica pela língua portuguesa conduz, de forma indireta mas consequente, a uma sua valorização, nos planos funcional, simbólico e político, induzida pela investigação em literatura portuguesa. Para além disso, quando se privilegia a língua portuguesa como prioridade, pensa-se ainda em dois campos que lhe estão associados: o campo do ensino, sendo hoje consensual que uma pedagogia da língua equilibrada e aberta às várias dimensões que a comunicação linguística comporta não dispensa o estudo dos textos literários; o campo global da língua portuguesa, também  chamado da lusofonia, uma vez que, para além da literatura nacional (conceito desgastado por pressupostos ideológicos que no passado foram dominantes), a língua portuguesa modula-se e enriquece-se noutros países em que ela é idioma oficial.
  • 2.3: Teoria da literatura. Sendo sabido que, em particular no plano do ensino, o lugar da teoria não corresponde hoje àquele que conheceu durante grande parte da segunda metade do século XX,  é igualmente certo que ela constitui uma matéria de investigação que não pode ser descurada. Obedecendo sobretudo a uma lógica de investigação fundamental, a sua condição de domínio vocacionado para a indagação conceptual, para a problematização epistemológica e para a correlacionação interdisciplinar (para além de outros aspetos que não cabe agora discriminar) confere-lhe um lugar destacado em múltiplas áreas de investigação aplicada. Num centro de investigação em literatura portuguesa, a interação aqui implícita  determina o entendimento da teoria como prioridade estratégica.
  • 2.4: Digital. O advento das tecnologias da informação e da comunicação, bem como a disseminação de ferramentas e de linguagens de processamento digital geraram expectativas e procedimentos  com incidência inevitável na investigação literária e em territórios de pesquisa  lhe estão ligados. Juntam-se a estes desenvolvimentos outros ainda, tendo que ver com dinâmicas de investigação acentuadamente colaborativas, deduzidas das potencialidades da Web 2.0 e do trabalho em rede e dotadas da agilidade própria de dispositivos de armazenamento e de difusão da informação com elevado índice de portabilidade e de mobilidade. O digital (designação aqui abrangente, como é evidente)  orientado para as Humanidades contribui decisivamente para o aprofundamento, para a diversificação e para a projeção societal da investigação em literatura portuguesa,  por exemplo em regime de portal de acesso aberto. As edições de textos, as migrações de dados, as transferências de suportes, a disponibilização da informação em rede, a indagação em torno da chamada literatura digital, a problematização da escrita e da leitura em ambiente eletrónico são alguns dos temas  convocados pela emergência do digital; deduzem-se dessa emergência não só consequências da ordem da materialidade textual e informacional, mas também no que toca a derivados efeitos cognitivos e  reformulações axiológicas. Em qualquer caso, o digital cruza-se com preocupações de natureza patrimonial, com processos e regimes de arquivo, com desenvolvimentos pedagógicos (ensino da língua e da literatura) e, mais alargadamente, com opções de política cultural e linguística, sendo denominador comum a todas estas hipóteses de trabalho um impulso de transferência de conhecimentos para a comunidade.

 

3. Objetivos e ações

    As quatro prioridades estratégicas que foram descritas deverão estar explícita ou implicitamente presentes nas ações a realizar. Tais ações poderão revestir dois formatos distintos, com requisitos e com operações próprias: o projeto e a atividade, não devendo obviamente confundir-se o primeiro com o conceito englobante de projeto estratégico já referido. Procede-se de seguida a uma caracterização muito sumária de ambos.


3.1. Projeto. Cumpre definições e a etapas operatórias já mencionadas no documento “Centro de Literatura Portuguesa: para uma estratégia organizacional”, a saber:
•    Identificação e justificação;
•    Objetivos a atingir;
•    Metodologias a adotar;
•    Recursos humanos, técnicos e financeiros;
•    Calendário de execução.
Num quadro de investigação exigente, um projeto há de perspetivar resultados inovadores e não apenas propósitos de divulgação cultural. Para além disso,  um projeto resulta num produto com evidência pública e com desejável  potencial de resposta a carências, a solicitações ou a expectativas (uma edição crítica, um arquivo digital, uma coleção,  um portal, etc.). Conforme ficou implícito, o projeto, enquanto iniciativa de investigação específica, constitui um contributo parcelar mas decisivo para o desenvolvimento e concretização do projeto estratégico da unidade de I&D, no sentido abrangente que a expressão implica. Por fim, a dimensão de uma unidade de I&D como o CLP desaconselha a multiplicação de projetos, ao mesmo tempo que estimula a constituição de grupos de investigação (ou equipas de projeto), com coordenação autónoma. 


3.2: Atividade. Rege-se por princípios de flexibilidade e de relativa informalidade, que terão em atenção, contudo, as prioridades estratégicas que presidem à unidade de I&D. Ao mesmo tempo, é sempre desejável que uma atividade contribua para o avanço de um determinado projeto, subordinando-se a ele e obedecendo a critérios de oportunidade alinhados com os objetivos e com as metodologias desse projeto. Exemplos: um número temático de uma revista,  um workshop, um colóquio, uma conferência (ou um conjunto de conferências), um blogue temático, etc.
    Em qualquer caso (mas sobretudo na conceção, no planeamento e no desenvolvimento dos projetos), as ações com orientação estratégica requerem atitudes de responsabilização, de agregação e de pertença. Ou seja: há de existir sempre definição clara do responsável pelo projeto ou pela atividade, a sua concretização beneficiará se envolver um número  importante de investigadores e a integração destes em projetos assentará em motivações assumidas. O que indiretamente significa que a integração de um investigador no CLP implica a sua ativa participação em, pelo menos, um projeto (mas nunca em muitos projetos).

 

4. Considerações finais

    Quatro observações adicionais,  completando o  que fica dito. Em primeiro lugar: não se ignora que a situação atual da investigação científica, no domínio alargado das Humanidades e das Ciências Sociais, apresenta hoje dificuldades consideráveis, quanto ao reconhecimento da sua pertinência social e, derivadamente, em termos de financiamento; a clarificação estratégica de  uma unidade de I&D como o CLP constitui um argumento forte para a superação daquelas dificuldades. Em segundo lugar: a ligação estreita da investigação ao ensino aponta no mesmo sentido, sendo de aprofundar o que já foi encetado, no que toca à articulação da pesquisa e respetivos projetos com os estudos e com os estudantes de pós-graduação, por forma a que estes sejam, cada vez mais, investigadores em formação. Em terceiro lugar: a reflexão estratégica  deve constituir uma oportunidade privilegiada para repensarmos as Humanidades num mundo que estimula a abertura a instrumentos, a disciplinas e a áreas anteriormente ignoradas (o digital, os media, as ciências sociais, etc.), a par de atitudes epistemológicas correlatas (o diálogo  com outros campos do saber). Em quarto lugar: o estabelecimento de prioridades estratégicas só fará sentido se delas forem deduzidas atitudes que rompam com rotinas obsoletas, com o voluntarismo do trabalho isolado e com a recusa do diálogo crítico e autocrítico.
    Para concluir: o que aqui se procura estabelecer são prioridades para a investigação, que desejavelmente arrastarão consequências. Se tais prioridades forem aceites, a sua sequência natural será uma definição ou redefinição de projetos específicos e de atividades, com desapaixonada  ponderação do que foi feito e do que se deseja fazer. Caberá aos responsáveis por iniciativas havidas ou a haver levar a cabo uma análise rigorosa dos recursos disponíveis e da bondade estratégica das ditas iniciativas. 

Carlos Reis

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