Resumo
Carlota Boto – O professor primário português como intelectual: "Eu ensino, logo existo"
O
presente trabalho apresenta-se como uma reflexão histórica acerca do
cariz intelectual impresso no ofício do professor primário. Formador de
mentes, de almas e de corações, o professor primário lida diretamente
com a transmissão - e talvez com a produção - de valores, de saberes,
de normas de conduta prescritas. O professor primário forma o indivíduo
para a civilidade e para o civismo. Sendo assim, ele situar-se-á, no
campo da estruturação do moderno modelo escolar, como o ator
privilegiado de fabricação de visões de mundo, que se deverão traduzir
como consensos para o homem comum. O texto aqui exposto aborda,
portanto, algumas representações acerca do lugar social ocupado pelo
professor primário português, basicamente no período que abrange a
segunda metade do século XIX e o primeiro decênio do século XX
(imediatamente anterior à Proclamação da República em Portugal).
Procurou-se tecer algumas considerações de ordem teórica e conceitual
acerca da própria acepção de intelectual e a documentação recolhida
traz à tona impasses e ambigüidades quanto à figura social do
profissional encarregado de oferecer à infância as normas do ler, do
escrever, do contar e do bom comportamento. Conclui-se que o professor
primário é, assim, o veículo de propagação intelectual dos valores
civilizatórios do Ocidente.