a carregar...

FLUC

Faculdade de Letras

Convite à apresentação de artigos

Convite à apresentação de artigos para o n.º 4, 3.ª série, de Biblos. Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Refúgios

Um refúgio alia à fuga a procura de segurança. Essa fuga decorre de uma ameaça iminente, seja ela física, moral ou intelectual. Instiga a demanda e com esse ato a reconstrução de um outro tempo e de um outro lugar. Desta feita, decorre de uma alteridade ameaçadora e requer uma outra que possa oferecer acolhimento e abrigo. O anseio de obter proteção não apaga, porém, as motivações e as condições que levaram a um corte, nem tão pouco sana marcas e vestígios da rutura que instigou a separação, o abandono, o sentimento de perda ou a deslocalização.

A pluralidade destas implicações, na sua reciprocidade, ao mesmo tempo que repele qualquer tipo de conceção dicotómica, dota o conceito de uma extraordinária complexidade. Confere-lhe a fulgência de um diamante, a sobressair na pluralidade das suas arestas, vértices e facetas, em reflexos mútuos.

Refúgios no plural: exteriores ou interiores, políticos ou existenciais, psicológicos ou artísticos, individuais ou coletivos, os refúgios carregam a marca do contingente e do interino. O/A deslocalizado/a leva consigo a chave da sua habitação ou, se não tem uma casa, leva dentro de si o sonho de regressar à origem para reconstruir o mundo que foi forçado/a a abandonar. Por conseguinte, o conceito associa-se de perto à história da cidadania e da vinculação territorial, bem como à viagem, à transposição e ao questionamento de fronteiras, quanto àquilo que é deixado para trás, perpetuado ou desbravado, numa problematização incisiva do sentimento de pertença e da relação entre local e global, entre exclusão e inclusão, entre violência e sobrevivência.

Os refúgios coincidem muitas vezes com espaços delimitados em termos materiais. A cabana de montanha oferece abrigo das intempéries, a zona de repouso de uma estrada proporciona uma pausa reconfortante, a trincheira defende do inimigo, o bunker protege de ataques aéreos e atómicos, a catacumba é reduto da resistência à intolerância.

Não obstante, qualquer refúgio existe em função dos territórios que estão aquém e além dele. O campo de refugiados é o anteparo de quem foi forçado a abandonar a sua terra, numa conjuntura de crise económica, ambiental, política ou ideológica, aspirando porém ao espaço aberto. O santuário de peregrinação consubstancia a vontade de remissão do crente que almeja a Eternidade. De resto, também o sistema de valores se pode inverter, quando os refúgios são o covil ou o alcouce. Nesse sentido, enquanto espaço que está ligado a todos os espaços através de relações que tanto podem ser de espelho como de reflexo invertido, e que implicam desassossego, qualquer refúgio em si mesmo partilha de uma condição de «heterotopia».

No plano da abstracção, a esfera da interioridade apresenta-se por si como reduto que não requer uma deslocação efetiva. Ao implicar um projeto de mudança, apostado em melhorar ou modificar as adversidades do presente, ganha um valor futurante, voltado para a sua concretização num espaço pleno. Sem esse componente, desemboca muitas vezes na evasão. À margem de um espaço e de um tempo históricos, transmuta-se em utopia.

No campo do imaginário artístico, o refúgio pode-se erigir quer em fulcro da criação de mundos necessariamente alternativos, quer em tema que, na actualidade, tem vindo a adquirir particular acutilância. Por um lado, se a arte, através dos seus vários suportes e nas suas diversas modalidades de expressão, é um mundo de ficção, a sua inscrição metafórica e simbólica, ao transmutar o real, funda sucessivas ausências a serem recuperadas. Por outro lado, se a narrativa dos refúgios tem vindo a ganhar uma densidade cada vez mais aguda, a sua especificidade é bem traduzida pelas formas de escrita que privilegia — a escrita íntima, o diário e a carta.

O próximo número da revista Biblos, o n.º 4 da 3.ª série, será dedicado a um tema, Refúgios, que tem vindo a ocupar um lugar central no domínio dos saberes e que será considerado à luz de diversas perspetivas disciplinares, no âmbito de várias temporalidades históricas.

Até 30 de setembro de 2017, a Coordenação de Biblos. Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra receberá artigos, a enviar por correio eletrónico para o endereço biblos.fluc@fl.uc.pt

Todos os artigos devem seguir as normas redatoriais da revista (Normas para autores http://www.uc.pt/fluc/investigacao/biblos/normas_autores/index ) e serão submetidos à arbitragem científica de uma comissão formada por especialistas.

A atividade editorial da revista segue o Código de ética. Guia de boas práticas para editores de revistas da Universidade de Coimbra (Políticas editoriais http://www.uc.pt/fluc/investigacao/biblos/politicas_editoriais/index).

http://www.uc.pt/fluc/investigacao/biblos