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Complexo Aira/Corynephorus

Gramíneas - Cervunais e Lagoachos - Inventário - Nardus -

Complexo Aira/Corynephorus - Grão de Polén - Orbículos


Os ecossistemas dominados por gramíneas (‘grasslands’) ocupam cerca de 20% das terras emersas do planeta e constituem uma parte substancial das suas pastagens. Uma das suas subcategorias mais raras é o cervunal. Cervunais são pastagens de zonas frias relativamente pobres em espécies, dominadas pelo cervum (Nardus stricta L.) (Fig. 1) e outras gramíneas perenes, densas e cespitosas, todas elas bem adaptadas ao frio e a solos pobres e ácidos, muitas vezes húmidos e até encharcados. A importância dos cervunais está patente no estatuto de conservação de várias das suas espécies, pelo refúgio que proporcionam a animais de pequenas dimensões, pela regulação que fazem dos níveis hídricos levada a acabo pelos sistemas coloidais a nível do solo e tensão superficial da água a nível dos caules e raízes, cujo volume é enorme (Fig. 1). Estes arrelvados, comuns no Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), são utilizados como zonas de pastagem tendo sido, por isso, sujeitos a dois tipos de pressão: herbivoria e fogo. Se por um lado o herbivorismo os mantém porque limita o crescimento das outras plantas (ex.: lenhosas tais como urzes e giestas), já o fogo pode ter um papel totalmente destrutivo. Queimadas, para produzir pastagens, que entram fora de controle e incêndios com origem fora do PNSE têm devastado todos os anos o Parque e têm destruído a matriz biológica do cervunal.

Nardus

Fig. 1. Cervum (Nardus stricta).Tufo de cervum com várias camadas de folhas secas (correspondentes aos vários anos de crescimento).

N.stricta Infl

Fig. 2. Cervum (Nardus stricta). Pormenor da inflorescência – espiga unilateral (púrpura na maturação).

O PNSE possui os únicos cervunais permanentes em Portugal; a estes estão associados sistemas de lagoachos. Estes habitats foram considerados de interesse comunitário prioritário (Directiva 92/43/CEE para o estabelecimento da Rede Natura 2000) e a sua preservação está regulamentada a nível nacional (Decreto-Lei nº 140/99 de 24 de Abril – Anexo B-1, 6230).

Na literatura, as espécies comummente descritas para os cervunais são: Nardus stricta, Festuca henriquesii, F. nigrescens, F. rothmaleri e Danthonia decumbens. No entanto, no decurso do projecto de investigação que temos vindo a desenvolver tem-se verificado que o levantamento florístico dos cervunais permanece incompleto e incorrecto. A caracterização rigorosa da flora deste ecossistema é essencial para o seu conhecimento profundo e preservação. Um dos grupos de gramíneas de grande interesse nos cervunais pertence ao complexo Aira/Corynephorus. Este é um grupo de géneros relacionados (Fig. 3), cuja unidade é conferida pelas suas espiguetas com duas flores extremamente pequenas e de distribuição essencialmente em torno da região do Mediterrâneo. Dos 6 géneros que constituem este complexo, num total de cerca de 25 espécies, 5 existem no PNSE: 3 nos cervunais (Aira, Holcus e Periballia), 1 nos lagoachos associados aos cervunais (Antinoria) e 1 nas zonas de altitude de solo seco (Corynephorus).

Fig2

Fig. 3. Relações filogenéticas dos géneros pertencentes ao complexo Aira/Corynephorus (adaptado de Clayton & Renvoize, 1986).


O género Antinoria Parl. tem 2 espécies. A única que existe em Portugal, A. agrostidea (DC.) Parl., é exclusiva dos lagoachos do PNSE (Fig. 4 e 5) cobrindo muitas vezes a superfície da água com uma cor violácea.

Antinoria em lagoacho permanente

Fig. 4. Lagoachos onde é abundante a gramínea Antinoria agrostidea. Antinoria em lagoacho permanente.

   Lagoacho temporário

Fig. 5. lagoacho temporário com a Antinoria a tomar um tom avermelhado.



Corynephorus canescens (L.) P.Beauv. é uma espécie das dunas litorais (por exemplo no Parque Natural da Ria Formosa) que surpreendentemente se encontra também nas grandes altitudes secas do PNSE (Fig.6). Em Corynephorus os nós existentes no caule apresentam uma tonalidade arroxeada, e a forma de arista é única nas gramíneas, com um anel de pêlos na parte mediana e a parte apical alargada.

Corynephorus

Fig. 6. Corynephorus em flor. Tufo com sistema radicular extremamente desenvolvido.

 Arista

Fig. 7. Pormenor da arista numa flor (adaptado de Aparicio et al., 1987).

Em Periballia Trin. as panículas são tão delicadas que se assemelham a pequenas ‘nuvens de spray’. P. laevis (Brot.) Asch. et Graebn. forma extensos arrelvados, amarelados no final da estação (a partir de Julho). Vastas áreas do PNSE são cobertas por esta espécie; pode ser confundida com Agrostis truncatula Parl. que, no entanto, forma arrelvados avermelhados e é ligeiramente maior (Fig. 8). No PNSE, para além de P. laevis existe P. involucrata (Cav.) Janka que tem uma panícula com os ramos inferiores curiosamente desprovidos de espiguetas (Fig.10).

Peribalia

Fig. 8. Arrelvado de Periballia laevis, apresentando uma tonalidade amarelada, devido ser uma espécie anual que após frutificação acaba por secar totalmente.

 Agrostis

Fig. 9. Tufos de Agrostis truncatula com cor avermelhada.

Peribalia involucrata

Fig. 10. Panícula de Periballia involucrata com os ramos inferiores curiosamente desprovidos de espiguetas.


Existem 3 espécies de Holcus L. no PNSE. A espécie mais comum, H. lanatus L. (Fig. 11) apresenta panículas aveludadas e de um tom rosa quase branco. Os caules desta espécie apresentam muitos pêlos os quais lembram lã, daí o nome H. lanatus.

Holcus

Fig. 11. Holcus lanatus, com as panículas rosa quase branco.

O género Aira L. é representado do PNSE, por duas espécies A. praecox L. (muitas das vezes associada a P. laevis) e A. caryophyllea L. que apresenta uma inflorescência muito delicada e que pode ser utilizada em arranjos secos (Fig. 12).

Aira

Fig. 12. Aira caryophyllea, com as panículas delicadas e que podem ser utilizadas m arranjos secos (adaptado de Darke & Griffiths, 1994).

Estes 5 géneros estão relacionados e o esclarecimento dos processos evolutivos que estiveram na sua origem poderá desvendar aspectos misteriosos da capacidade das gramíneas para colonizar grandes áreas.

(texto de Mara Cristina & Prof. Dra Fátima Sales, Universidade de Coimbra)

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