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Herbário da Universidade de Coimbra

Linnaeus e Lusitania

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    A nomenclatura binomial foi utilizada de uma forma sistemática por Linnaeus a partir de Species Plantarum (1753) e Systema Naturae (1735), respectivamente para plantas e animais. Não foi, contudo, o primeiro a designar espécies utilizando apenas dois termos, nem foi esta a primeira obra em que os utilizou. Linnaeus aperfeiçoou gradualmente o seu sistema nomenclatural e as suas classificações dos organismos e nestas duas obras utilizou exclusivamente a nomenclatura binomial.

Vejamos, por exemplo, o caso da oliveira, Olea europaea L., Sp. pl., 8 (1753). A espécie tinha sido designada por um binome, Olea sativa, no século XVII por Bauhin. Qualquer um destes binomes é mais simples de utilizar e mais fácil de lembrar do que o polinome Olea sylvestris, folio duri subtus incano com que o próprio Bauhin a designou, sem se aperceber que as formas cultivadas e selvagens eram da mesma espécie. Contudo, qualquer dos dois binomes contêm uma quantidade inferior de informação do que o polinome. O binome de Bauhin é puramente acidental e, na época, as espécies podiam ter de um nome a muitos. Linnaeus alterou completamente esse estado de coisas, tendo no seu trabalho os binomes adquirido a propriedade de “etiquetas” com duas palavras. A primeira palavra, nome genérico, permite colocar ou localizar a espécie dentro de um grupo alargado (o género, neste caso Olea); a segunda palavra, o restritivo específico, permite particularizar a variante em questão (europaea). Este tipo de nomenclatura, embora pouco descritivo, constitui uma ferramenta linguística que permite a síntese da informação de forma a estabelecer grupos (géneros) ao mesmo tempo que permite a análise em tipos individuais (espécies). O estabelecimento nomenclatural das duas categorias, género e espécie, facilitou a designação de uma terceira, a variedade. Mais tarde surgiu o conceito de subespécie com as suas duas versões: subespécie como grupo de variedades e subespécie que se divide em variedades.

Gradualmente tornou-se óbvia a importância da referência precisa ao autor do nome. Os nomes dos autores, abreviados ou não, devem ser referidos como indicado em Brummitt, R. K. & Powell, C. E. eds (1992). Authors of plant names. Royal Botanic Gardens Kew. Linnaeus é abreviado para L.; o filho de Linnaeus, abreviado para L. f.

Uma referência completa a uma espécie inclui, ainda, a obra onde a mesma foi publicada pela primeira vez. Esta referência bibliográfica é indicada, de forma abreviada após o nome do autor e segue formatos estritos: no caso de um livro segue a obra Stafleu, F. A. & Cowan, R. S. (1976-88). Taxonomic literature. A selective guide to botanical publications and collections with dates, commentaries and types. Vols 1-7, + supl., ed 1, ed. 2. Bohn, Scheltema & Holkema: Utrecht. No caso de ser uma revista científica, segue as abreviaturas propostas pelo Botanical Periodicum Huntianum (http://huntbot.andrew.cmu.edu/HIBD/Publications/HI-Pubs/Pub-BPH-2.shtml).

Nomes de espécies e géneros devem ser justificados na altura da sua atribuição. Geralmente indicam alguma característica da planta, morfológica ou das suas propriedades; a sua proveniência, país ou região; ou celebram o nome de alguém, geralmente o nome do colector. Quando se escolhe o local da proveniência da espécie utilizam-se os nomes antigos, clássicos. Assim, no caso de Portugal o nome, desde há muito utilizado, é Lusitânia. Todos os restritivos específicos com este nome indicam espécies que foram descritas pela primeira vez de plantas colhidas em Portugal!

Segue-se a lista das 15 espécies de Linnaeus cujo restritivo específico se refere ao nosso país. Estas plantas podem ter sido enviadas a Linnaeus, directa ou indirectamente como tantas vezes acontecia, por algum botânico que colheu em Portugal. Num dos casos, pelo menos, tratou-se de uma espécie colhida por Pehr Löfling. Löfling foi o estudante favorito de Linnaeus e ter-lhe-ia sucedido depois da morte em Uppsala, não tivesse falecido na Venezuela durante uma expedição botânica. Löfling viajou para Madrid em 1751, via Lisboa. Daí os espanhóis convidaram-no a participar na viagem à América do Sul.

Na lista que se segue, pode ver uma imagem de um exemplar do Herbário de Coimbra (COI) e a página da obra onde a espécies foi publicada pela primeira vez. Esta primeira publicação designa-se “protologo” e estes foram retirados do da rica biblioteca do Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra.

Pode consultar Species Plantarum em http://www.gutenberg.org/etext/20771

Lista de espécies portuguesas descritas por Lineu:

Echium lusitanicum L., Sp. pl. 140 (1753)

Isatis lusitanica L., Sp. pl. 670 (1753)
= Isatis aleppica Scop.

Campanula lusitanica L., in Loefl., Iter Hispan. 111, 126 (1758)

Silene lusitanica L., Sp. pl. 416 (1753)
= Silene gallica L.

Drosera lusitanica L., Sp. pl. 282 (1753)
= Drosophyllum lusitanicum (L.) Link

Scilla lusitanica L., Syst. nat. ed. 12: 248
= Scilla ramburei Boiss.

Prunella lusitanica L., Sp. pl. 601 (1753)
= Cleonia lusitanica (L.) L.

Genista lusitanica L., Sp. pl. 711 (1753)
= Echinospartum lusitanicum (L.) Rothm.

Pinguicula lusitanica L., Sp. pl. 17 (1753)

Lavatera lusitanica L., Sp. pl. 691 (1753)
= Lavatera triloba L.

Ophioglossum lusitanicum L., Sp. pl. 1063 (1753)

Plantago lusitanica L., Sp. pl. ed. 2: 1667 (1763)
= Plantago lagopus L.

Polypodium lusitanicum L., Sp. pl. 1094 (1753)
= Davallia canariensis (L.) Sm.

Prunus lusitanica L., Sp. pl. 473 (1753)

Parietaria lusitanica L., Sp. pl. 1052 (1753)

Fátima Sales, FLS, e Paula Bicho (2007)