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UC.PT

Herbário da Universidade de Coimbra

Livro famoso da Botânica Portuguesa sobre Callicoca ipecacuanha, de Brotero (1802)

Avellar Brotero

Fátima Sales, FLS (2008)

Brotero, Felix de Avellar (1802). Description of Callicoca ipecacuanha. Transactions of the Linnean Society 6: 137-141 [na Biblioteca da Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra]

Felix de Avellar Brotero (1744-1828), Cavaleiro da Ordem de São Bento, deputado às Cortes Constituintes de 1821, membro de várias sociedades científicas nacionais e estrangeiras. Foi um dos maiores vultos do Iluminismo em Portugal dentro do campo da Botânica.

Depois de uma juventude infeliz mas de sólida formação, emigrou para França aos 34 anos, receoso pela sua aderência as novas ideias do Iluminismo. Aí viveu 12 anos e estudou com alguns dos melhores botânicos da época, doutorando-se em Medicina pela Universidade de Reims. De regresso a Portugal, as suas qualidades e conhecimentos são reconhecidas pela Universidade de Coimbra onde foi nomeado regente da Cadeira de Botânica e Agricultura. As suas publicações sobre Callicoca ipecacuanha datam desta altura em que também se encontrava, profundamente envolvido na preparação da primeira Flora de Portugal, Flora lusitanica, publicada pouco depois em 1804. Em 1811 foi jubilado da Universidade de Coimbra e passou a dirigir o Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda em Lisboa. O artigo, em latim, foi aceite para publicação a 3 de Fevereiro de 1801 mas apenas publicado no ano seguinte. É o décimo artigo publicado num total de vinte e cinco artigos, de vários autores. É interessante notar que é precisamente nesta obra, artigo décimo terceiro, de autoria de Sprengel, professor da Universidade de Halle, que o género Brotera K. Sprengel, dedicado a Brotero, é publicado.

A primeira publicação de Brotero sobre Callicocca ipecacuanha data de 1800 e foi impressa no fim da obra ‘Memória sobre a Ipecacuanha fusca do Brasil, ou cipó das nossas boticas. Lisboa. Off. do Arco do Cego. 1801’ pelo médico Dr. Bernardino António Gomes.

Neste segundo artigo, Brotero publicou formalmente Callicocca ipecacuanha Brot. O artigo contém: uma breve descrição ou diagnose, sinonimia, nomes vulgares, usos medicinais, descrição detalhada, habitat e distribuição geográfica, agradecimentos e ainda uma estampa desdobrável (Tab. 11) da espécie. Os nomes vulgares citados são Ipecacuanha (no Brasil em geral), Poaia do Mato (no sul do Brasil) e Cipó (em Portugal). Brotero refere que as raízes têm propriedades anti-desentéricas bem conhecidas. A espécie cresce em matas sombrias e húmidas em Pernambuco, Baia, Rio de Janeiro, São Paulo e província de Brasília; floresce de Novembro a Janeiro e o fruto amadurece em Maio. Brotero refere ainda que o seu trabalho se baseia no estudo de plantas secas e que este confirma as várias observações em plantas vivas feitas em Brasília por “D. Bernard. Bnt. Gomes, deligente Médico Botânico e meu amável correspondente”. A gravura, de J. Quinn, e datada de 1800. É a preto e branco, detalhada, tem traço delicado e pormenorizado.

O Dr Bernardino António Gomes parece ter ficado, inicialmente, magoado pelo facto de Brotero se ter servido dos apontamentos e notícias que lhe fornecera, bem como da estampa que mandara gravar em Lisboa e que oferecera a Brotero. Há que notar que no seu artigo, Brotero, se declara claramente devedor de Bernardino Gomes e que este último, como botânico amador que era, não estaria, provavelmente, em posição de fazer a publicação científica da espécie.

A espécie referida neste artigo é hoje designada por Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stokes e pertence à família Rubiaceae. É nativa na América Central e do Sul incluindo o Brasil. Das suas raízes extrai-se a droga ipecacuanha, um poderoso expectorante possuindo, ainda, cerca de 2% do alcalóide emetina, valioso anti-desentérico. A maior parte da produção mundial desta planta era proveniente do Brasil mas restrições ao seu comércio levaram à exploração de variedades da América Central.

BIBLIOGRAFIA

Fernandes, A. (1986). História da botânica em Portugal até finais do século XIX. Publicações comemorativas do II centenário da Academia das Ciências de Lisboa. História e Desenvolvimento da ciência em Portugal. 2º vol. Barbosa & Xavier: Braga.

Maberley, D.J. (1993). The plant book. Cambridge University Press: Cambridge.

Silva, I. F. da (1858-1923). Diccionário bibliográfico portuguez. 22 vols. Imprensa Nacional: Lisboa.

Stafleu, F.A. & Cowan, R.S. (1976-1988). Taxonomic Literature. 2ª ed. Bohn, Scheltema & Holkema: Antuérpia.