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UC.PT

Herbário da Universidade de Coimbra

Carl Linnaeus: Tantus Amor Florum

23 de Maio, 1707 (Råshult) – 10 de Janeiro, 1778 (Uppsala)

Tão grande amor pelas plantas
divisa de Linnaeus

Fátima Sales, FLS
Joaquim Santos
(2007)

lineu busto

    Durante gerações a família de Linnaeus foi de agricultores e ministros luteranos, estes mais letrados. Carl Linnaeus quebrou esta tradição. O pai, Nils Ingmarsson, filho de agricultor, dedicou-se ao apostolado. Quando Nils foi estudar para a universidade, foi-lhe pedido, de acordo com o costume da época, que adicionasse um apelido ao seu nome. Nils inspirou-se, como outros tinham feito na sua família, na tília (“lin”, no dialecto sueco da região onde nascera) centenária da sua propriedade para criar o nome Linnaeus. Foi uma escolha mágica para a carreira do seu primeiro filho, Carl! Nils era botânico amador e ensinou ao seu filho tudo o que sabia de botânica, embora o seu desejo fosse que o jovem seguisse os seus passos numa segura carreira eclesiástica.

Linnaeus acabou por tirar um curso de medicina, durante o qual pode exercitar a seu belo prazer a arte da botânica, já que na época era das plantas que se extraíam os medicamentos. Mas a medicina foi sempre para Linnaeus uma actividade secundária! Da Universidade de Lund (1727) passou para a de Uppsala. Aqui atraiu a atenção do teólogo e famoso botânico amador Olof Celsius (tio de A. Celsius), o qual, percebendo as suas qualidades, o acolheu e ajudou. É a Celsius que Linnaeus entregou aos 22 anos a sua primeira obra em botânica, o esboço do seu sistema sexual de classificação das plantas (Praeludia Sponsaliarum Plantarum, 1729). O professor Olof Rudbeck gostou da obra e convidou Linnaeus para o que foi o seu primeiro emprego, ainda antes de acabar o curso, como demonstrador de aulas práticas de Botânica no Jardim Botânico da Universidade. Foi por esta altura que Linnaeus encontrou Peter Artedi, também ele estudante do mesmo ofício e já com fama em Uppsala. O que Linnaeus tinha de impetuoso, tinha Artedi de comedido, completando-se as duas personalidades na mesma paixão por história natural. A sua amizade tornou-se profunda e estabeleceram um plano magnífico em que juntos iriam trabalhar na organização de todas as criaturas conhecidas de modo que a sua identificação fosse possível, ocupando-se os dois de grupos diferentes. Cada um prometeu acabar o trabalho do outro caso a morte se interpusesse na realização da tarefa. Artedi morreu afogado num acidente infeliz quando os dois já estavam na Holanda. Linnaeus cumpriu a promessa.

livro

Os anos de formação de Linnaeus foram divididos entre trabalho de campo, investigação de algumas colecções famosas na Europa e discussões com vários especialistas europeus, tendo mantido correspondência – e amizade – com alguns durante toda a sua vida. A expedição de cinco meses ao território inóspito da Lapónia (Florula Lapponica, 1732, e Flora Lapponica, 1737) foi um marco importante na sua percepção do mundo natural e, o material então colhido, permitiu-lhe aperfeiçoar o seu sistema de classificação hierárquico das espécies animais e vegetais (Systema Naturae, 1735). Na Holanda fez o exame final de medicina na Universidade de Harderwijk, estudou o material do herbário do abastado bancário George Clifford e as plantas cultivadas na sua propriedade de Hartekamp (Hortus Cliffortianus, 1738) e publicou 9 livros. Nesta viagem pela Europa esteve ainda na Alemanha, França e Inglaterra onde divulgou o seu trabalho nos meios académicos da época.

De regresso à sua Suécia natal, Linnaeus estabeleceu um consultório em Estocolmo e casou com Sara Elisabeth Moraea em 1739. Diriam vários dos seus alunos tratar-se de uma mulher pouco refinada e dura. A estadia em Estocolmo foi breve, cerca de três anos, mas não tão breve quanto Linnaeus gostaria… Aceitou mesmo a função de médico oficial da Armada Sueca. Nos primeiros meses, como não tinha carreira como médico, ninguém lhe confiava a sua saúde; após aplicar com grande sucesso alguns medicamentos no tratamento de gonorreia atendia, até à exaustão, os 40-60 pacientes diários cuja única vantagem era proporcionarem-lhe, finalmente, a tão ambicionada paz de espírito financeira.

Linnaeus não escondeu a sua satisfação quando, finalmente, em 27 de Outubro de 1741 deu a sua aula inaugural como professor de medicina e botânica em Uppsala. Escreveu a Jussieu, outro gigante da botânica, “O rei nomeou-me professor de medicina e botânica da universidade de Uppsala, devolvendo-me, assim, à botânica da qual tenho estado afastado estes longos três anos durante os quais me ocupei dos doentes de Estocolmo. Tenha eu vida e saúde e ver-me-á, espero, conseguir alguma coisa em botânica”.

Durante os 36 anos seguintes em Uppsala (22 dos quais como reitor), Linnaeus pôs em prática os seus conceitos sobre as várias vertentes da História Natural. A sua obra foi reconhecida no país (foi feito cavaleiro da Ordem da Estrela Polar em 1753 e feito nobre, Carl von Linné, a partir de 1757) e viu a sua metodologia ser aplicada por todo o mundo. Após um período de descanso forçado por razões de saúde, escreveu de um só folgo as suas obras mais marcantes para a taxonomia das plantas (Species Plantarum em 1753 e a 5ª ed. de Genera Plantarum em 1754) e dos animais (a 10ª ed. de Systema Naturae em 1758).

livros

Em Species Plantarum e Genera Plantarum aplicou o seu já conhecido sistema de classificação hierárquico das plantas baseado nos órgãos sexuais, o qual vinha a escandalizar as mentes puritanas da época. Mas, a grande novidade foi a aplicação consistente da nomenclatura binomial (ex. Olea europaea, a oliveira). Considerando que o mais importante da botânica já estava feito, Linnaeus dedicou-se, então, à zoologia. Também na 10ª edição de Systema Naturae, que desde a primeira publicação tinha engrossado substancialmente em ideias e páginas, utilizou sempre nomenclatura binomial (Ex. Homo sapiens) tornando-se esta obra o marco para a atribuição de nomes científicos em zoologia.

As suas aulas eram famosas na época. Excelentemente organizadas (ou não fosse Linnaeus um mestre em organização!), versavam botânica, zoologia, farmácia, dietética e mineralogia. Eram frequentadas por estudantes que vinham de todo o mundo atraídos pelo seu entusiasmo e empenho na sua aprendizagem. Amoenitates academicae (1749-90) são uma série de publicações das teses dos 186 alunos que se especializaram com Linnaeus (na época era ao orientador que cabia escrever a maioria, se não mesmo toda a tese…!). Estes alunos, por sua vez, davam conta e aplicavam o seu sistema de classificação e nomenclatura ao regressar às suas terras natais. Em 1750, ano em que foi nomeado reitor da Universidade, Linnaeus pôs em prática um projecto ambicioso, enviou os seus melhores alunos em expedições por todo o mundo com a missão de colherem material novo para a ciência e divulgar ainda mais o novo sistema de classificação. Ele próprio os designou “apóstolos” e, nessa empresa, alguns perderam mesmo a vida, A. Berlin (1773), P. Forsskål (1768), F. Hasselqvist (1752), P. Löfling (1756); C. Tärnström já tinha falecido em 1746. Linnaeus tinha um carinho muito especial e orgulho nos seus discípulos – e também pelas colecções que eles lhe enviavam de todo o mundo! Recordar-se-ia das suas próprias palavras sobre os perigos corridos por tantos, “Meus Deus! Quando constato o destino de tantos botânicos, juro que hesito em os considerar sãos ou loucos na sua devoção pelas plantas!”. Estes discípulos compensaram-no do seu enorme desapontamento sobre as modestas qualidades intelectuais do seu filho mais velho, também ele Carl, o qual protegeu e educou na área da botânica.

Os seus mais brilhantes discípulos foram Forsskål (Península Arábica), Tärnström (Cochim China, hoje Vietnam), Hasselqvist (Sudoeste Asiático), Osbeck (China), Löfling (passou por Lisboa na sua viagem para Espanha, falecendo na Venezuela), Solander (estabeleceu-se em Inglaterra e viajou com Joseph Banks na viagem de circum-navegação de James Cook – para sempre Linnaeus se queixou de ingratidão…), Sparrman (China, África do Sul e também viajou com Joseph Banks a bordo do Endeavour) e Thunberg (África do Sul, Java e Japão). Após a morte do mestre e a curta liderança de 2 anos do seu filho, Thunberg foi o excelente sucessor de Linnaeus em Uppsala.

Na totalidade, Linnaeus descreveu cerca de 4.400 espécies de animais e 7.700 espécies de plantas, escreveu para cima de 6.000 cartas, 186 dissertações, 80 livros e 7 fascículos de Amoenitates academicae. Estas obras podem parecer secas e destiladas de entusiasmo aos não especialistas, mas os seus relatos de viagens foram populares e atraíram, de uma forma muito moderna, o interesse das pessoas comuns para o trabalho daquele homem tão peculiar que no regresso das suas aulas de campo se fazia acompanhar de um longo cortejo de alunos – e uma banda de música!!

linnaea borealis

Linnaeus foi o último dos grandes enciclopedistas – a partir dele não foi mais possível uma só pessoa abarcar conhecimento em tantas áreas distintas. A tarefa foi pesada, nunca teve segurança financeira (o que sobejamente o preocupava pois teve dois filhos e quatro filhas para manter) e o trabalho árduo fragilizou a sua saúde.

Vários são os locais de romagem da obra Linneana. Da Linnean Society (a mais antiga Sociedade biológica da mundo) em Londres, onde se encontra grande parte do seu espólio

Tel: 00 44 (0)20 7434 4479
Fax: 00 44 (0)20 7287 9364
The Linnean Society of London
Burlington House, Piccadilly
London W1J 0BF
United Kingdom

até à sua casa em Hammarby, perto de Uppsala, com as suas paredes forradas com desenhos de plantas feitas por ilustradores famosos da época

Linnaeus' Hammarby
SE-755 98
Uppsala
Suécia
Tel/Fax: 00 46 18 471 28 38

Sobre a vida de Carl Linnaeus leia a re-edição de 2001 de The Compleat Naturalist: A Life of Linnaeus da obra de Wilfrid Blunt (1971) com introdução e texto final de William T. Stern editada por Frances Lincoln Ltd (ISBN 0 7112 1841 2).


Celebrações do Tricentenário do nascimento de Carl Linnaeus:

da Sociedade Linneana Sueca
http://www.linnaeus.se/english/index.htm

da Sociedade Linneana de Londres
http://www.linnean.org/

da Câmara Municipal de Uppsala
http://www.uppsala.se/uppsala/templates/StandardPage____30463.aspx
http://www.linneuppsala.se/english

da Universidade de Uppsala
http://www.uu.se/linne2007/index.php?lang=en
http://www.linnaeus.uu.se/online/index-en.html

na Suécia
http://www.linnaeus2007.se

Os 3 Jardins Botânicos históricos da Suécia (incluindo Hammarby)
http://www.botan.uu.se/Engindex.html

Paisagens históricas de Linnaeus
http://www.linnaeanlandscapes.org/