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Herbário da Universidade de Coimbra

História do Herbário da Universidade de Coimbra

herb0Embora sendo uma das primeiras Universidades europeias, a Universidade de Coimbra não incluiu no seu programa, durante quase 500 anos, o estudo da História Natural. Como parte das reformas de fundo da sociedade portuguesa, o Marquês de Pombal tomou, em 1772, uma série de medidas (Estatutos Pombalinos) destinadas a desenvolver a cultura e a ciência no país. Foi então criado em Coimbra um Gabinete de História Natural ao qual foi associado um Jardim Botânico, ambos instalados na Quinta de S. Bento, onde ainda hoje se encontra o Jardim Botânico.
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O primeiro director do Gabinete e Jardim foi o italiano Domingos Vandelli (1774-1790), nomeado professor de História Natural e de Química. Homem versado no então moderno método de classificação das plantas de Carl Linaeus, Vandelli foi também correspondente deste. As primeiras herborizações de plantas em Coimbra datam desta época, tendo Vandelli colhido e enviado colectores em expedições botânicas pelo país, como A. J. Ferreira, o qual explorou a Serra da Estrela. Contudo, Vandelli levou consigo estes exemplares de herbário para o Real Museu e Jardim Botânico da Ajuda em Lisboa depois de se ter jubilado em Coimbra em 1791. Enviou ainda alguns exemplares a Lineu, que se encontram no Herbário de Lineu da Linnean Society (LINN, http://www.linnean.org) em Londres; outros dos seus exemplares encontram-se no Herbário do Muséum National d’Histoire Naturelle de Paris (P, http://www.mnhn.fr/museum/foffice/science/science/ColEtBd/collectionsMuseum/collectionSci.xsp?i=1).

A obra iniciada por Vandelli em Coimbra foi continuada em 1791 por Félix de Avellar Brotero (1791-1811), eminente botânico da época o qual leccionou Botânica e Agricultura na Universidade. Cerca de 10 anos depois, Brotero publicou a primeira Flora de Portugal, a Flora Lusitanica, para cuja elaboração lhe foi necessário viajar um pouco por todo o país a fim de colher material indispensável aos seus estudos tendo, desta forma, constituído um herbário para estudo pessoal. Uma vez jubilado em Coimbra, também Brotero assumiu a direcção do prestigioso Jardim Real em Lisboa. Dos seus exemplares pouco se sabe. A maioria desapareceu restando apenas uns 337 hoje no Herbário da Universidade de Lisboa (LISU). Referências a material de Brotero no Missouri Botanical Garden (MO) foram investigadas tendo-se verificado falsas. Em Coimbra não existe um único exemplar – provavelmente foram utilizados em aulas e gradualmente deteriorados.

Brotero não deixou escola em Coimbra. Entre Brotero e Antónino José Rodrigues Vidal vários foram os directores, todos de actividade inconsequente e que conduziram a Instituição ao desleixo generalizado. Vidal ordenou a construção de um pequeno edifício, a “Casa do Herbário” (1870), no Jardim Botânico para alojar algumas plantas herborizadas. Esta construção já não existe e não foi encontrada documentação sobre a sua localização exacta.

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Em 1873 Júlio Augusto Henriques foi nomeado Director do Jardim Botânico e tornou-se o fundador do Herbário hoje existente. Júlio Henriques foi um homem com visão, tendo constituído durante a sua vida um Herbário com reputação mundial. Cedo se apercebeu da necessidade premente de actualizar a Flora Lusitanica de Brotero. Vendo-se perante a mesma falta de material vegetal com que aquele se havia debatido, tomou uma série de medidas que executou com eficiência e que levaram à formação de um herbário que atingia já dimensões consideráveis à altura da sua jubilação em 1918, com oitenta anos de idade. Considerou inadequada a “Casa do Herbário” para alojar a colecção e instalou todo o material que coligiu no edifício do Colégio de São Bento, onde ainda hoje se encontra o Herbário.
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Júlio Henriques percorreu o país em expedições florísticas e encorajou outras pessoas na mesma actividade. Fundou a primeira sociedade científica botânica do país — a Sociedade Broteriana, cujo nome homenageia Brotero, ainda hoje com muitos associados — que exortava e congregava os esforços de profissionais e amadores no sentido de colherem material vegetal no Continente e as então Colónias. O próprio Júlio Henriques, já com 60 anos, herborizou em São Tomé e Príncipe, tendo elaborado a primeira monografia florística do arquipélago. O seu interesse em África resultou numa colecção africana que foi ampliada pelos que se lhe seguiram. Promoveu permutas de plantas com os melhores Herbários da época, em especial da Austrália, constituindo assim a maioria do que é hoje a maior colecção de plantas de todo o mundo em Portugal. O Herbário viu o seu espólio esplendidamente aumentado quando Júlio Henriques adquiriu a maior parte do Herbário particular do botânico alemão Moritz Willkomm, o qual inclui plantas da região mediterrânica, da Madeira e das Canárias. A doação da colecção de António de Carvalho foi também um estímulo à colheita e investigação de plantas portuguesas. O Herbário foi ainda enriquecido com as primeiras colecções dos Açores e da Madeira, oferecidas respectivamente por B. T. Carreiro (1879-1910) e C. A. de Menezes (1890-1912), ambos sócios da Sociedade Broteriana. J. Cardoso Júnior (1885-1897) e o alemão Carl Bolle (1851) enviaram espécimes de Cabo Verde. O botânico brasileiro J. Barbosa Rodrigues também ofereceu uma colecção historicamente importante do Brasil.
Luís Wittnich Carrisso foi pupilo de Júlio Henriques e tomou o seu lugar (1918-37) após este se ter retirado. Carrisso desenvolveu grandemente o interesse muito especial por plantas africanas já manifestado por Júlio Henriques. Organizou e participou em três expedições a Angola que resultaram na colheita de muitas plantas. Carrisso deu início à colaboração com o Natural History Museum, London (BM, http://www.nhm.ac.uk/research-curation/collections/departmental-collections/botany-collections/index.html) para a publicação da obra Conspectus Flora Angolensis na qual foi incluída muita da informação recolhida nestas expedições. A edição desta obra passou a ser responsabilidade da Junta de Investigação Científica Tropical mas ainda não foi terminada. Durante a sua direcção o Herbário foi ainda enriquecido com colecções de Angola que o suíço John Gossweiler fez a partir de 1903. A estas plantas juntaram-se muitas outras colhidas em Portugal e Angola pelo já então falecido alemão Frederico Welwitsch (1853-1861). A colecção africana oferecida por A. Chevalier (1934), particularmente importante por possuir alguns typus, foi incorporada nesta altura. Carrisso morreu inesperadamente, durante a sua terceira expedição a Angola (1937), apenas com 51 anos.Paiva no corredor
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Desde a jubilação de A. Fernandes (1974) o Herbário tem aumentado muito lentamente devido à redução constante e dramática de pessoal. Destacam-se, no entanto, a adição das plantas de Cabo Verde colhidas por J. Ormonde (1980), a importante colecção de São Tomé e Príncipe de J. Paiva (1999), algumas ofertas, especialmente de espécimes de Macau (1999) e material colhido no decurso de projectos de investigação e aulas do Departamento de Botânica, ambos da responsabilidade de Fátima Sales.

A colecção de criptogâmicas foi iniciada por Júlio Henriques, ele próprio um estudioso entusiasta desse grupo, tendo-as colhido em Portugal e em S. Tomé e Príncipe (1917). Foi oferecido ainda parte do Herbário do Colégio jesuíta de S. Fiel (Cernache do Bonjardim) quando este foi extinto. Para além de fanerogâmicas, este incluía uma colecção muito interessante de criptogâmicas, quer em número, quer em qualidade. No entanto, durante a direcção de Carrisso a colecção de criptogâmicas atravessou uma fase difícil, sem instalações próprias e adequadas. Abílio Fernandes começou a organizá-la e determinou a encadernação sob a forma de livro de várias colecções. Promoveu também as colheitas de algas e encorajou o Padre Póvoa dos Reis nas suas investigações sobre o género de algas vermelhas, Batrachospermum. Cecília Sérgio enriqueceu o Herbário com colecções de Bryophyta e Hepaticae. Até recentemente as criptogâmicas estiveram em armários no corredor do primeiro andar do edifício de S. Bento sendo a sua consulta praticamente impossível. A colecção foi, entretanto, instalada em armários do Herbário está a ser totalmente organizada com a colaboração da Briologista Cecília Sérgio.

Com as dificuldades inerentes à falta de pessoal e verbas próprias, o Herbário está a modernizar-se através de projectos vários. A informatização dos exemplares, a elaboração de imagens de alta qualidade dos mesmos e a divulgação das colecções na Internet constituem a aposta para dar continuar ao nome internacionalmente conquistado da colecção.