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UC.PT

Herbário da Universidade de Coimbra

Cyperaceae

Célia Machado & Fátima Sales (2007)


As Cyperaceae incluem cerca de 122 géneros e 4500 espécies. Os géneros mais representativos são Carex com 2000 espécies e Cyperus com 600. Estas plantas são monocotiledóneas herbáceas perenes, excepcionalmente anuais, bastante semelhantes a gramíneas e juncos. A grande semelhança entre estas 3 famílias reside no aspecto graminiforme e flores drasticamente reduzidas que todas elas apresentam (fig. 1 e 2).

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Fig. 1 - Detalhe da flor de Cyperus eragrostis. http://www.flickr.com/people/bryonia  (Acesso em: 20 Abril 2007)
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Fig. 2 – Detalhe da flor de Carex divulsa. Mata da Fôja.

Contudo, as Cyperaceae distinguem-se pelos caules triangulares, pelas 3 folhas basais, ausência de lígula e bainhas fechadas. Estas últimas duas características ocorrem raramente nas gramíneas, mas nunca em simultâneo. Além disso, as flores das Cyperaceae são protegidas por uma única bráctea, enquanto que a maioria das gramíneas possuem duas (lema e pálea).

As flores das Cyperaceae são hermafroditas ou unissexuais reunidas em inflorescências várias (espiga, cacho, panícula ou umbela). Os caules são maciços, geralmente desprovidos de folhas. Estas organizam-se em tufos basais e trisseriados. As margens do limbo são cortantes devido ao elevado conteúdo em sílica das células o qual confere grande rigidez. O perianto está reduzido a aristas ou escamas em números variável. O número de estames é, geralmente, 3 e os filetes são livres. O ovário é súpero com 2 ou 3 carpelos fundidos formando um único lóculo com um único óvulo basal. O fruto é um aquénio e as sementes contêm um pequeno embrião envolvido por abundante albúmen carnudo (fig. 3 e 4).

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Fig. 3 e 4 – Detalhe da flor e do fruto de Carex sp. Souselas.

Devido às semelhanças morfológicas entre Cyperaceae e Poaceae, considerou-se, durante muito tempo, que estas duas famílias estavam relacionadas filogeneticamente. No entanto, Hutchinson, nos anos 60, colocou-as em duas ordens distintas (Cyperales e Poales), considerando que ambas derivaram de antepassados do tipo das liliáceas através das Juncaceae.

Actualmente, continua a existir controvérsia quanto à classificação destas famílias e a investigação molecular ainda não trouxe uma solução satisfatória para o problema. A análise das sequências rbcL (gene cloroplastideal que codifica a subunidade maior da enzima oxigenase, a qual é fundamental para a fotorespiração) parece revelar que Cyperaceae e Poaceae não estão filogeneticamente relacionadas. O curioso é que os mesmos genes apontam para a proximidade entre Cyperaceae e Juncaceae, o que apoia a classificação de Hutchinson.

As Cyperaceae encontram-se um pouco por todo o mundo, sendo particularmente abundantes em habitats húmidos, pantanosos ou ribeirinhos das regiões subárticas e temperadas (fig. 5).

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Fig. 5Carex paniculata, planta robusta de folhas planas largas. Arzila.

Apesar de em Portugal nos termos habituado a associar estas plantas a lugares húmidos, a verdade é que elementos desta família adquiriram adaptações engenhosas a diversas condições ambientais, como os fogos regulares. Estes são comuns na região do Cabo na África do Sul, onde as Cyperaceae fazem parte do fynbos – vegetação composta principalmente por arbustos que vivem em solo extremamente pobre, quartzítico e arenoso da zona costeira. Fogos regulares ocorrem também nos ecossistemas dominados por gramíneas, onde muitas espécies de Cyperaceae prosperam graças ao desenvolvimento de bainhas protectoras grossas, rígidas e fibrosas.

Vários habitats semi-áridos onde ocorrem longos períodos de seca, contam com a presença de elementos desta família os quais sobrevivem graças a bainhas suculentas capazes de armazenar água. Outras espécies ultrapassaram o problema da baixa humidade, tornando-se anuais e conseguindo completar o seu ciclo de vida em um ou dois meses; outras ainda tornaram-se deciduas, sobrevivendo na forma de rizomas ou cormos. Alguns géneros são pioneiros na colonização de dunas costeiras.

As Cyperaceae contribuem para o controlo da erosão e a purificação da água nas áreas pantanosas e ribeirinhas. Quando erradicadas, todo o ecossistema é drasticamente alterado, desaparecendo zonas de nidificação e de protecção de mamíferos e animais aquáticos (fig. 6).

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Fig. 6Scirpus lacustris, também conhecido por bunho.

Como resultado, perderam-se potenciais para Ecoturismo e oportunidades de desenvolvimento local.

O papel benéfico desta família para os ecossistemas não obsta a que existam espécies extremamente nocivas. É o caso de C. rotundus, uma praga sem igual em mais de 90 países! Trata-se de uma pequena planta de crescimento rápido cujos tubérculos regeneram facilmente – um único tubérculo cortado dá rapidamente origem a várias novas plantas! É essa capacidade que a torna uma erva daninha de difícil controlo, quer mecanicamente (fresa) quer utilizando herbicidas, tornando-se uma enorme dor de cabeça para os agricultores. Para além disso, C. rotundus compete ferozmente pelos recursos do solo produzindo toxinas que inibem a germinação e desenvolvimento das outras espécies. Essas toxinas são formadas principalmente nos tubérculos e são libertados preferencialmente durante a decomposição dos mesmos. É uma espécie muito frequente nas hortas, pomares e jardins, afectando economicamente inúmeras culturas, como o milho, feijão, algodão, cana-de-açúcar e outras.

Outra invasora é Cyperus esculentus. O sistema radicular desta planta possui tubérculos e raízes ligadas muito fragilmente até 50 cm de profundidade. Esta fragilidade torna muito difícil remover a planta com todo o seu sistema radicular, deixando para trás vários tubérculos que muito facilmente regeneram. Desta forma, a sua remoção dos jardins e campos cultivados é extremamente difícil.

A distribuição cosmopolita de muitas Cyperaceae resulta da variedade de métodos de dispersão. O vento é o método mais frequente de dispersão nas Cyperaceae. No entanto, alguns frutos apresentam tecidos flutuantes, semelhantes à cortiça, tornando possível a dispersão pela água. Outros estão equipados com pequenas estruturas em forma de gancho fixando-se nos pêlos dos mamíferos ou nas penas das aves; outros possuem apêndices ricos em óleo para dispersão através das formigas. Existem ainda frutos que, ao misturarem-se na lama fixam-se às patas das aves migratórias podendo ser transportados até longas distâncias.

Embora o uso das Cyperaceae em Portugal seja actualmente reduzido, a verdade é que o cultivo de algumas, como Cyperus papyrus, data da antiguidade. No Egipto antigo, a medula dos colmos desta planta era utilizado para fabricar o papiro, do qual se fabricaram livros durante milénios. Pensa-se que a manufactura do papiro, cujos rolos podiam atingir centenas de metros remonta de 3000 a.C. Ultrapassando o Egipto, o uso do papiro difundiu-se pelo mundo grego e império romano, sendo fabricado até ao século X e XI d.C, altura que foi substituído pelo pergaminho e papel. Actualmente, para além do seu valor ornamental, o papiro é utilizado na construção de barcos na Etiópia e, no Egipto, a sua produção foi relançada como atracção turística. Para além do seu valor prático, esta planta aquática do delta do Nilo, tinha valor espiritual para os Egípcios. C. papyrus era considerada sagrada porque a sua inflorescência, formada por finas hastes verdes, lembrava os raios do sol, divindade máxima do povo egípcio.

Outras espécies de Cyperaceae são utilizadas para múltiplos fins. Os rizomas e as raízes de Cyperus esculentus e Cyperus articulatus têm agradáveis aromas suaves, usados na perfumaria. Alguns tubérculos, por exemplo de Eleocharis tuberosa, Mariscus umbellata, Scirpus tuberosus e Eleocharus dulcis são comestíveis. Cyperus esculentus, planta nativa das regiões quentes temperadas e subtropicais, possui tubérculos bastante duros que necessitam ser embebidos em água antes de serem comidos. São também conhecidos como “chufa” ou “nozes do chão” e foram em tempos substitutos do café. Actualmente, o seu cultivo pratica-se por toda a Espanha, para a produção de uma bebida chamada “horchata”, parecida com o leite de amêndoas. C. esculentus tem sido recentemente sugerido para a produção de biodiesel, pois os seus tubérculos possuem cerca de 26-36% de óleo.

Nos Estados Unidos Carex atherodes é utilizado para forragens. Carex paniculata e Carex riparia são também utilizados nos estábulos como substitutos da palha.

As folhas e caules de algumas espécies de Cyperus, Carex, Eleochoris, Lepironia e Scirpus são utilizados para o fabrico de tecidos.

Os usos das plantas desta família na área medicinal são vastos. A medicina Hindu, por exemplo, utiliza as raízes de Scirpus grossus para curar diarreia e de S. articulatus como purgante. Em Sumatra, Mariscus sieberianus é usado como vermicida.

Jangadas e canoas são fabricadas a partir dos colmos de Scirpus totara. Muitos são os géneros de Cyperaceae cujos colmos e folhas usados na cestaria e na fabricação de cadeiras, como por exemplo, o Cyperus longus (fig. 7 e 8), o Scirpus lacustris da América do Norte e Central, Eleocharis austro-caledonica do pacífico e Lepironia mucronata. Numerosos chapéus são fabricados no Japão a partir das folhas de Carex dispalatha.

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Fig. 7 e 8Cyperus longus, habitual em locais húmidos. Mata da Fôja.

Finalmente, algumas espécies desta família possuem uma beleza particular e são, portanto, cultivadas em vasos e jardins. Por exemplo, Cyperus alternifolius (planta pára-sol) é cultivado vulgarmente nas regiões quentes como planta aquática ornamental.

Em Portugal existem 8 géneros de Cyperaceae, sendo os mais representativos Carex com 40 espécies, Scirpus com 20 e Cyperus com 12.

Existem algumas espécies do género Carex endémicos dos Açores C. hochstettoriana, C. pendula, C. pilulifera e C. vulcani.

A Cyperaceae mais curiosa em Portugal é Eriophorum angustifolium, uma planta com aspecto invulgar cujas inflorescências parecem bolas de algodão (fig. 9). Constitui um excelente indicador para os caminhantes da proximidade de zonas alagadas, podendo assim, evitá-las. Cresce em solos ácidos e alagados ou pantanosos em zonas de altitude. Em Portugal tem distribuição muito restrita, mas no norte da Europa é bastante comum.

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Fig. 9 - Bolas-de-algodão (Eriophorum angustifolium). Exemplar de Herbário do Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra

Esta família é, portanto, de grande interesse pelas suas engenhosas adaptações a ambientes particulares, pelos seus usos diversificados em várias actividades humanas, pela polémica que causa entre taxonomistas em relação à sua filogenia e, finalmente, pela beleza simples de algumas das suas espécies.

Bibliografia consultada:

Heywood, V.H. (1993). Flowering Plants of the World. Batsford : London.

Judd, W.S., CAMPBELL, C.S., KELLOG, E.A. & STEVENS, P.F. (1999). Plant Systematics : A Phylogenetic Approach. Sinauer Associates, Inc.: Sunderland.

Lawrence, G.H.M. (1977). Taxonomia das Plantas Vasculares. Vol. II. Fundação Calouste Gulbenkian : Lisboa.

WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Cyperus_esculentus
(Acesso em 06-02-07)

WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cyperus_rotundus
(Acesso em 06-02-07)

http://www.flickr.com/people/bryonia/. Acesso em: 06 Fev. 2007.

http://www.plantzafrica.com/plantcd/cyperaceae.htm. Acesso em: 06 Fev. 2007