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Herbário da Universidade de Coimbra

Iridaceae

Célia Machado & Fátima Sales (2007)


As Iridaceae são uma família de plantas da ordem Asparagales que inclui 1750 espécies repartidas por 78 géneros. Os géneros Gladiolus e Iris são os mais representativos com 255 e 250 espécies respectivamente.

O nome desta família é baseado no género Iris, um dos maiores e mais conhecidos géneros da famíla na Europa e cujos membros ostentam flores de cores muito vivas (fig. 1). O género Iris foi descrito por Linnaeus em 1753. O nome deste género deriva da deusa grega Iris que transportava as mensagens do Olimpo para a Terra caminhando através de um arco-íris. Segundo a lenda, à medida que percorria o arco-íris, levava consigo pedaços dele presos à planta dos seus pés, de modo que quando caminhava na terra, de suas pegadas resultavam belas flores de todas as cores!

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Fig. 1Iris pseudacorus frequente nos nossos rios e pauis. http://www.flickr.com/people/bryonia/ (Acesso em: 20 Abril 2007)

Estas plantas são ervas perenes com órgãos de armazenamento subterrâneos como os cormos (Gladiolus, Iris), rizomas (muitas espécies de Iris, Sisyrinchium) ou mais raramente bolbos (em algumas espécies da América e da Eurásia) (fig. 2). As folhas são deciduas ou persistentes e as flores são frequentemente muito vistosas. Apenas 3 géneros são subarbustos (Witsenia, Nivenia e Klattia) todos os restantes são ervas perenes.

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Fig. 2 - Pormenor do cormo de Gladiolus italicus. Exemplar do Herbário do Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra.

As folhas são geralmente estreitas e lineares, com textura rija, têm nervação paralela, não se distinguindo a face superior da inferior. Muitas espécies da África do Sul possuem folhas com nervura central muito espessa e margens crespas. Outras espécies apresentam folhas em forma de agulha com sulcos longitudinais estreitos.

A inflorescência é muito variada, mas geralmente racemosa ou paniculada. As flores são suportadas, individualmente ou em grupos, por 2 brácteas semelhantes a espatas. Em alguns géneros as flores são solitárias. No género Crocus (fig. 3), as flores são solitárias e praticamente sésseis emergindo ao nível do solo.

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Fig. 3 – Perianto petalóide da flor de Crocus carpetanus com as suas três sépalas e três pétalas todas iguais. http://www.flickr.com/people/bryonia/ (Acesso em: 20 Abril 2007)

As flores apresentam um elevado grau de variabilidade. As flores são hermafroditas com simetria bilateral ou radial, com perianto de seis peças petalóides em duas séries não diferenciadas em cálice e corola e em geral fundidas na base num tubo ± longo. As peças externas distingam-se ou não das internas; as diferenças são ao nível da cor, tamanho ou forma. Geralmente, são resplandecentemente coloridas, muitas vezes com manchas e riscas contrastantes, mas por vezes, nem duram um dia, como em Aristea. Os estames são três e estão inseridos na base das peças internas do perianto, as que correspodem às pétalas. Em algumas espécies, como as do género Moraea (fig. 4), os filamentos dos estames estão unidos num tubo. O ovário é inferior (superior apenas no género Isophysis), trilocular e com um único estilete.

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Fig. 4 –  Flor de Moraea alticola.

Os frutos são cápsulas que geralmente abrem ao longo de três aberturas. Na maioria dos géneros, as cápsulas são tetraédricas e sem grandes adaptações para a dispersão das sementes. Estas são geralmente dispersas pelo vento ou pela água e em Gladiolus, Tritoniopsis e Hesperantha possuem mesmo expansões que as tornam aladas. Algumas sementes permanecem viáveis durante muito tempo.

As bonitas flores das Iridaceae são polinizadas principalmente por insectos, especialmente abelhas e moscas. Muitas espécies são polinizadas por aves, possuindo então as típicas flores vermelhas ou alaranjadas que segregam néctar em grande quantidade, o qual serve de recompensa a estes animais de maiores dimensões. Outras espécies possuem flores mais delicadas, adaptadas à polinização por borboletas e traças.

As análises cladísticas baseadas na morfologia e nas sequências de rbcL (gene cloroplastideal que codifica a subunidade maior da enzima oxigenase, fundamental para a fotorespiração) apontam para monofilia da família , isto é, todos os seus indivíduos derivaram do mesmo ancestral.

Esta família já foi considerada suficientemente distinta para ser colocada numa ordem  à parte (Iridales). A sua morfologia, em muito semelhante às Liliaceae, levou à sua inclusão na ordem Liliales. Recentemente, da análise do seu DNA cloroplastidial e morfologia concluiu-se que devem ser incluídas nas Asparagales.

As Iridaceae têm sido divididas em 11 tribos, com base no grau de regularidade ou irregularidade das flores e o tipo de órgão de armazenamento subterrâneo. As tribos consideradas mais primitivas são as de plantas rizomatosas e de flores regulares como as Sisyrincheae, Mariceae, Irideae, Ixieae e Croceae, as mais derivadas são Gladioleae e Antholyseae, com flores muito irregulares.

Outras classificações dividem a família em várias subfamílias: Isophysidoideae, Nivenioideae, Iridoideae e Ixioideae (tab. I)

Tabela I – Informação básica sobre as subfamílias das Iridaceae.
IsophysidoideaeNivenioideaeIridoideaeIxioideae
GénerosIsophysisKlattia, Nivenia, Witsenia, Patersonia, Geosiris e AristeaIris, Moraea, Bobartia, Dietes e FerrariaIxia, Gladiolus, Crocus, Freesia e Watsonia. Constituem quase dois terços das espécies de Iridaceae.
OrigemTasmâniaÁfrica do Sul, Austrália e MadagáscarAmérica do SulÁfrica
Características distintivasOvário súpero. Flores em forma de estrela que variam de amarelo a castanho.Néctar produzido em glândulas presentes na parede dos ovários.Flores que duram apenas um dia. O néctar é produzido em glândulas presentes nas peças petalóides.Inflorescência em forma de espigão. As flores apresentam simetria bilateral ou mais raramente radial.

O APG (Angiosperm Phylogeny Group), um grupo internacional de botânicos dedicados à classificação filogenética das Angiospérmicas, adicionou a estas outra subfamília – Crocoideae.

As Liliales (Smilaceae, Liliaceae, Melanthiaceae e outras) são filogeneticamente muito próximas das Asparagales (Orchidaceae, Iridaceae, Amarylidaceae, Agavaceae, Alliaceae e outras) (fig. 5). Por este motivo, a colocação das espécies nestas famílias tem sido alvo de muita discussão entre os taxonomistas.

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Fig. 5 – Classificação filogenética dos principais grupos de Angiospérmicas, baseado na morfologia e em sequências de ADN ribossómico. Adaptado de Judd et al., 1999.

As Iridaceae encontram-se distribuídas pelo mundo inteiro tanto em regiões tropicais como temperadas, sendo particularmente diversificadas na África do Sul. Esta família encontra-se também muito representada no Mediterrâneo e América do Sul e Central.

Os membros das Iridaceae ocorrem numa grande variedade de habitats, crescendo em todo o tipo de solos, desde granítico a calcário e ainda em solos mais raros como serpentínicos, ricos em minerais. Quase poderíamos dizer que o único local onde não crescem é no próprio mar, apesar de Gladiolus gueinzii ocorrer na costa logo acima da marca da maré-alta onde ainda recebe salpicos de água salgada.

Algumas espécies de Crocus encontram-se por todo o país, como por exemplo, Crocus clusii que é facilmente encontrado em pinhais e lugares secos e áridos. C. asturicus e C. carpetanus existem nas Serras do Minho, da Estrela e do Gerez (fig. 6 e 7). Gladiolus illyricus, conhecida como Espadana dos Montes, e Romulea bulbocodium (fig. 8 e 9), são outras espécies de Iridaceae muito comuns em terrenos de cultivo abandonados, pinhais, charnecas e arrelvados.

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Fig. 6 e 7 – Na Península Ibérica, algumas espécies do género Crocus são fáceis de encontrar no campo. E – Crocus sp. ; D – Crocus serotinus. http://www.flickr.com/people/bryonia/ (Acesso em: 20 Abril 2007)
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Fig. 8 e 9 – E – Romulea bulbocodium; D – Gladiolus illyricus.

A maioria das espécies desta família está adaptada aos climas sazonais onde se verificam períodos desfavoráveis, secos ou frios, e a parte aérea morre quando a subterrânea, repleta de substâncias nutritivas, entra em dormência. As espécies de folha persistente estão restritas às florestas subtropicais ou savanas e ecossistemas temperados dominados por gramíneas. Esta família apresenta também algumas espécies que crescem em zonas húmidas, ao longo de ribeiros e outras que crescem apenas em zonas borrifadas por chuvas sazonais.

As espécies deciduas, reduzidas à porção abaixo do solo durante as estações desfavoráveis possuem uma vantagem competitiva, pois na época de crescimento seguinte, iniciam o seu desenvolvimento mais rapidamente do que as outras plantas. Esta estratégia é particularmente útil nos locais propícios a fogos regulares, como nas regiões Mediterrânicas e os ecossitemas dominados por gramíneas. Aquando um fogo, cormos ou bolbos, ainda dormentes, sobrevivem no solo ao calor gerado. Estes fogos limpam a superfície da vegetação competidora, assim como fertilizam o solo com as cinzas. Com a chegada das primeiras chuvas, os cormos dormentes estão prontos para iniciar o crescimento, formando caules e flores antes de serem cobertas por outras plantas.

Usos e curiosidades

A maior importância económica da família reside nas espécies ornamentais. Muito trabalho tem sido realizado na produção de cultivares e híbridos nos géneros Gladiolus, Iris, Crocus, Freesia, Ixia, Sparaxis, Crocosmis e Tigridia que hoje povoam os nossos jardins. A hibridização de Gladiolus e Iris realiza-se há mais de três séculos sendo hoje impossível descobrir a origem dos híbridos (fig. 10).

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Fig. 10 – Várias espécies ornamentais da família Iridaceae. E – Gladiolus cardinalis; CS – Crocus biflorus; CI – Crocus corsicus; D – Crocus flavus.

Em medicina utiliza-se essencialmente o lírio florentino (Iris x germanica var. florentina (L.) Dykes) cujos rizomas e óleos essenciais têm diversas aplicações, como no tratamento de feridas, abscessos, convulsões epilépticas, doenças respiratórias, pleurite, tosse, vermes intestinais, doença estomacal, disfunção da bexiga, mordida de cobra e outros.

Em perfumaria é bem conhecido o “Orris”, rizoma do lírio florentino depois de envelhecido durante cinco anos. Este rizoma é também ingrediente de muitas marcas de gin. As “poções de amor” da antiguidade incluíam “Orris” misturado com canela e outras especiarias.

Os estigmas das flores de Crocus sativus são colhidos em grandes quantidades e constituem o açafrão. Este é utilizado desde a antiguidade como especiaria, principalmente na culinária mediterrânica, de onde é originário e consumido em risotos, caldos e massas. Na Espanha, o açafrão é item essencial à paella. Actualmente é uma especiaria muito cara, pois para a preparação de apenas algumas gramas, são necessários milhares de flores da planta. De cerca de 100 mil flores obtém-se apenas 500 g de estigmas. Por este motivo, substitua-se por vezes pelo chamado açafrão-da-terra ou açafrão indiano, que tem um efeito parecido e é muito mais barato. No Brasil, o açafrão é substituído pela “Curcuma”, extraída da Curcuma longa, espécie da família do gengibre cujo sabor é muito aproximado do tempero verdadeiro, mas mais comum e, portanto, mais barata.

A espécie Cipura paludosa, conhecida como alho-do-mato, alho-da-campina, alho-do-campo, cebolinha-do-campo, coqueirinho, coquinho ou ainda vareta, é utilizada como planta medicinal. Apesar de seus nomes comuns a relacionarem com o alho, esta espécie pertence às Iridaceae, nada a ver com o alho! C. paludosa é nativa das Guianas e do Brasil, onde é espontânea nos estados do Amazonas e da região Centro/Oeste até ao Rio de Janeiro. Tradicionalmente era utilizada na região ribeirinha do estado de Rondônia para combater escrófulas, gonorreia e para a regulação da menstruação. Actualmente são estudadas as propriedades dos seus compostos químicos entre os quais os alcalóides, flavonóides e terpenos.

Geisiris aphylla é uma espécie bastante invulgar, nativa de Madagáscar e outras ilhas do Oceano Índico. Trata-se de uma pequena planta saprófita que não possui clorofila e, portanto, é incapaz de realizar fotossíntese. Daí as suas folhas serem extremamente reduzidas. Esta planta absorve, através dos seus rizomas delgados e escamosos, as substâncias orgânicas provenientes de matéria orgânica em decomposição.

Infelizmente, muitas espécies desta família têm uma distribuição muito restrita e estão ameaçadas de extinção devido à colheita desmedida para ornamentação, ao desenvolvimento da agricultura e da urbanização.

Bibliografia consultada :

Heywood, V.H. (1993). Flowering Plants of the World. Batsford : London.

Judd, W.S., Campbell, C.S., Kellog, E.A. & Stevens, P.F. (1999). Plant Systematics : A Phylogenetic Approach. Sinauer Associates, Inc.: Sunderland.

Lawrence, G.H.M. (1977). Taxonomia das Plantas Vasculares. Vol. II. Fundação Calouste Gulbenkian : Lisboa.

WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Iris_%28plant%29
(Acesso em: 28 Dez 2006).

WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Iridaceae
(Acesso em: 28 Dez 2006).

WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Geosiridaceae
(Acesso em: 28 Dez 2006).

WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alho-do-mato
(Acesso em: 28 Dez 2006).

http://www.flickr.com/people/bryonia/ (Acesso em: 28 Dez 2006).

http://www.plantzafrica.com/planthij/iridaceae.htm  (Acesso em: 28 Dez 2006).

http://www.plantzafrica.com/plantefg/gladaureus.htm (Acesso em: 28 Dez 2006).

http://www.plantamed.com.br/ESP/Iris_germanica_Florentina.htm (Acesso em: 28 Dez 2006).