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Universidade de Coimbra acena à China em português

É uma das principais embaixadoras da cultura em Portugal e, agora, vai exportar conhecimento para o Oriente. A Universidade de Coimbra, reconhecida em 2013 como Património Mundial da Humanidade, quer em breve ter mil chineses a estudar nas suas históricas faculdades. A língua portuguesa é o principal argumento para convencer os orientais a atravessarem o mundo em busca de uma licenciatura.





Revista Macau 1

Texto Sandra Mesquita Ferreira | Fotos Gonçalo Manuel Martins, em Portugal
Publicado a 2015-06-15



Cris Yin fala português fluentemente e os olhos carregam-se-lhe de ternura quando o tema é Coimbra e as suas tradições académicas. “Adoro a universidade”, diz, sem reservas. Chegou à cidade em 2012, encantada com as imagens que encontrou na Internet – estudantes enrolados em capas negras; edifícios imponentes e ancestrais; uma instituição com um peso histórico único em Portugal – e rendeu-se de imediato. Durante dois anos, pertenceu ao (ainda) restrito grupo de cerca de 100 alunos chineses que estudam naquela universidade. Agora, trabalha no Departamento Relações Internacionais da instituição, com um objectivo: multiplicar o número de alunos orientais que ali estudam.

O reitor João Gabriel Silva acredita que, dentro de alguns anos, a Universidade de Coimbra (UC) poderá acolher um milhar de alunos chineses. Um crescimento que será potenciado pelo regime de acesso directo para alunos internacionais, que a UC criou no ano passado. Deste então, os alunos chineses podem candidatar-se a qualquer curso da universidade, através do Gaokao – o mesmo exame que fazem para aceder ao ensino superior chinês.

A estratégia de abertura da UC ao Oriente está ainda a dar os primeiros passos, mas é a grande aposta de João Gabriel Silva – reeleito em Fevereiro para um segundo mandato como reitor – para os próximos anos. Depois do sucesso alcançado no Brasil – actualmente, há cerca 2000 brasileiros entre os 23 mil alunos da UC, tornando Coimbra na “maior universidade brasileira fora do Brasil” – o reitor quer continuar a promover a instituição em países com interesse na língua portuguesa. E a China, pelas relações comerciais que estabelece com os países lusófonos, tornou-se num mercado prioritário.

“Os chineses são bastante pragmáticos e já perceberam que para conseguirem ter relações económicas fortes com países de língua portuguesa precisam de ter um conjunto de quadros que dominem a língua”, justifica João Gabriel Silva, acrescentando que, apesar de já haver “um número relevante” de orientais a falar português, faltam ainda “pessoas que simultaneamente dominem a língua e tenham formação técnica”. E é aí que se abre uma janela de oportunidade para a Universidade de Coimbra.

Ao contrário dos cursos de português leccionados na China – que se focam apenas na questão da língua – a UC propõe-se a ensinar português ao mesmo tempo que ensina leis, medicina, engenharia ou qualquer outra área formativa leccionada nas oito faculdades da instituição. Os alunos chineses podem candidatar-se a qualquer licenciatura, mas, caso não tenham conhecimentos mínimos de português, começam por frequentar um ano preparatório especial (um espécie de “ano zero”), que permite uma aprendizagem intensiva da língua.





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Alunos encantados com a cidade

Foi precisamente a vontade de aliar os conhecimentos de português a outro tipo de competências que levou Cris Yin, 27 anos, a viajar para Coimbra, ainda antes da criação deste regime de acesso especial para estudantes chineses. Depois de terminar a licenciatura em Língua e Cultura Portuguesa, em Pequim, inscreveu-se no mestrado em Comunicação e Jornalismo da UC. “O português é a sexta língua mais utilizada no mundo e garante-nos um grande futuro em termos de mercado de trabalho”, defende.

O futuro de Cris é ainda uma incógnita mas o presente, esse, continua a passar por Coimbra. Apesar de ter terminado o curso, deixou-se encantar pela cidade e decidiu ficar por ali durante “mais alguns anos”. É ela quem está a traduzir para mandarim o site que a UC criou a pensar nos potenciais alunos chineses (acessível em www.uc.pt/en/china), que reúne informação sobre as ofertas formativas da instituição, condições de acesso, alojamento e sobre ao estilo de vida na cidade. E é também ela quem, agora, faz a “ponte” com os estudantes orientais. Ironicamente, a língua – que motiva a ida da esmagadora maioria dos alunos chineses para Coimbra – é o maior entrave à viagem. Mas Cris tenta desmontar essa torre de Babel diariamente, apoiando os alunos não só nas questões burocráticas, como também nas rotinas triviais do dia-a-dia.

Não que haja muitas queixas. Belmiro Leong e Miguela Tan, ambos com 18 anos, chegaram à cidade em Outubro, vindos de Macau, e asseguram que, apesar das diferenças culturais e de alguma dificuldade de comunicação, a adaptação não foi difícil. “Os portugueses são muitos prestáveis, são um povo muito simpático”, elogia Belmiro, que já tinha estado em Portugal – mas em Braga – no verão passado, a participar num curso intensivo de língua portuguesa. Para Miguela esta foi a primeira experiência longe de casa. “Tive de aprender a ser independente, mas felizmente os colegas da residência ajudam-nos sempre que surge algum problema, por isso estou a gostar muito da vida que tenho aqui”, revela.

A Universidade de Coimbra tem três residências reservadas para estudantes internacionais, onde o preço do alojamento varia entre os 165 e os 265 euros mensais (com acesso a cozinha e despesas de água, luz, gás, Internet, televisão, limpeza e lavandaria incluídos). O custo de vida na cidade é acessível e as propinas (7000 euros anuais) são bastante mais em conta do que o praticado nas universidades australianas, muito procuradas pelos estudantes chineses. “Oferecemos uma formação de qualidade por um preço que é competitivo”, nota João Gabriel Silva reconhecendo, contudo, que a cultura chinesa tem tendência a desconfiar do que é barato. Ainda assim, inflacionar os preços para conquistar a credibilidade do mercado oriental está fora de questão. “Não seria correto”, defende.





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Universidade única e emblemática

Para os mais cépticos, a UC tem outros argumentos. Universidade de excelência da língua portuguesa, está no ranking de Xangai entre as 500 melhores instituições de ensino superior do mundo, e mantém uma ligação histórica com a China. Era em Coimbra que se formavam os missionários que, entre os séculos XVI e XVIII, viajavam para o Oriente (numa época difícil de imaginar, em que Portugal e China distavam um ano e meio de viagem de barco). “Pareceu-nos fazer sentido retomar essa longa relação, muito antiga e muita intensa”, explica João Gabriel Silva.

Depois, há as condições ímpares que a universidade e a cidade proporcionam aos alunos. Além das residências, os estudantes têm acesso a cantinas, serviços médicos e a uma panóplia de actividades desportivas e culturais garantidas pela Associação Académica de Coimbra – a academia de estudantes mais antiga do país, com 42 secções em actividade. À chegada, os alunos estrangeiros são ainda recebidos por estudantes voluntários portugueses que funcionam como um GPS nos primeiros dias, ajudando no período de adaptação à cidade.

“Em Coimbra criámos um conjunto de condições que são difíceis de reproduzir noutros sítios. Em Portugal não há outra cidade assim e, mesmo no mundo, há poucas”, frisa o reitor João Gabriel Silva. Não é à toa que Coimbra é apelidada de “cidade dos estudantes”. Nascida em 1290, foi a primeira universidade do país; e, ainda hoje, a vida da cidade gira muito em torno dos 35 mil alunos do ensino superior (além da universidade há mais quatro instituições a leccionar).

O resultado é uma cidade jovem, com uma vida nocturna intensa. Ali, os rituais de praxe e as capas negras usadas pelos estudantes fazem parte do cenário (o traje académico, em tempos uniforme dos alunos, é agora usado sobretudo em festas académicas, mas continua a fazer parte do dia a dia na zona universitária).

Contudo, se para os alunos portugueses a tradição académica e o ambiente boémio de Coimbra são um atractivo, para os chineses essa realidade é indiferente. Para quem viaja do Oriente, Coimbra, com os seus 143 mil habitantes, é uma cidade pequena e com poucas distracções. “Não há muitas coisas para brincar, o que é bom para nós”, avalia Belmiro, que prefere não se envolver nas actividades da Associação Académica para poder dedicar-se de corpo e alma aos estudos. É, aliás, o que faz a maioria dos alunos chineses que estão em Coimbra, concorda Miguela, que também prefere aproveitar o tempo livre para treinar o português com professores e amigos.

Ainda assim, os dois estudantes não ficaram indiferentes à Latada, a festa de recepção aos novos alunos que a Associação Académica promove todos os anos, em Outubro. Belmiro e Miguela tinham acabado de chegar a Coimbra quando se depararam com uma semana de animação constante, cujo ponto alto é o desfile de estudantes pelas ruas da cidade – os alunos “doutores” envergam o traje académico (sinal de antiguidade), enquanto que os “caloiros”, no primeiro ano de curso, vestem roupas coloridas (a cada faculdade está associada uma cor diferente), com adereços de ironia e crítica social. Uma semana “inesquecível” para os dois alunos, que não encontram tradição semelhante noutros pontos do mundo.

O período de folia estudantil repete-se em Maio, na Queima das Fitas – a festa de despedida dos alunos finalistas do ensino superior. Mas os dois estudantes terão oportunidade de assistir à festa, já que estarão em Coimbra até Junho. São alunos da licenciatura em Direito da Universidade de Macau, cujo plano curricular pressupõe um ano de estudos em Portugal e a conclusão de 40 por cento das unidades curriculares em português. Também eles reconhecem vantagens em dominar a língua lusa. Não só porque, “no século XXI, é importante saber o maior número de línguas possível”, como porque em Macau há “grandes vantagens profissionais” em dominar o português, afirma Miguela.





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Candidaturas abertas até Junho

Nesse aspecto, a passagem por Coimbra será determinante para o futuro: ali, todas as aulas são leccionadas em português (apesar de os professores terem sensibilidade para esclarecer dúvidas em inglês sempre que necessário). A língua portuguesa é, aliás, um ponto de honra da UC – que os alunos chineses consideram uma vantagem e que o reitor enfatiza como principal factor distintivo da universidade.

“A Universidade de Coimbra, ainda há pouco considerada Património Mundial da Humanidade [a distinção foi atribuída em 2013], foi reconhecida precisamente por ser um dos símbolos centrais da língua e cultura portuguesas. Era esquisitíssimo que uma universidade com esta história e responsabilidade, de repente, se transformasse em mais uma entre milhares de universidades que leccionam em língua inglesa”, afirma João Gabriel Silva. Por isso, o caminho da UC passará por abrir portas à comunidade internacional, como já tem vindo a fazer (só este ano lectivo a instituição acolhe alunos de 83 nacionalidades diferentes) mas debaixo do epiteto de “universidade de referência da língua portuguesa”.

Resolvidas as questões burocráticas, os primeiros alunos chineses a beneficiar do regime de acesso directo deverão chegar a Coimbra em Setembro, no arranque do próximo ano lectivo. A fase de candidaturas decorreu até ao final de Março e haverá ainda um último período de concurso, em Junho. Para os alunos da China que habitualmente fazem o Gaokao, a candidatura é relativamente simples. Já os estudantes de Macau, que, por norma, não fazem o exame, poderão ter mais dificuldade em aceder ao concurso. Mas por pouco tempo: em breve, a UC espera poder realizar os seus próprios exames de admissão, dispensando assim os alunos da prova chinesa.

O diálogo com a China será desenvolvido paulatinamente, até porque a UC não tem pretensões de crescer muito em número de alunos. A ideia é conservar o espírito que sempre norteou a instituição e que tanto influencia a cidade, tornando-a única. “É conhecido que os estudantes de Coimbra sentem com particular intensidade a sua passagem por aqui”, diz João Gabriel Silva – ele próprio ex-aluno da UC. No Brasil, a fama já se espalhou. “Muitos brasileiros que nos chegam agora dizem que escolheram Coimbra porque conhecem alunos que por aqui passaram e que lhes dizem que isto é um lugar especial”, relata o reitor. Conseguirá a mais antiga e popular cidade universitária portuguesa conquistar também o coração dos chineses?





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