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Visões da Luz

Colóquio Interdisciplinar

Resumos



A DESCOBERTA DA LUZ - 1/10 (QUINTA-FEIRA)


    10h00 - UMA BREVE HISTÓRIA DA LUZ

    Carlos Fiolhais*

    *Departamento de Física da Universidade de Coimbra

A Natureza não se oferece como presa fácil à inteligência humana, mas acaba por revelar os seus mistérios A evolução das nossas ideias sobre a luz é um bom exemplo dessa busca dos mistérios: ela decorreu sempre da observação e da experimentação. A história da luz, por breve que seja, terá de incluir figuras como Galileu (telescópio), Descartes (arco-íris), Newton (espectro do visível e natureza corpuscular), Herschel (infravermelhos), Young e Fresnel (natureza ondulatória), Maxwell e Hertz (ondas electromagnéticas), Planck, Einstein e Bohr (teoria quântica e natureza corpuscular), De Broglie e Schroedinger (natureza dual). Neste Ano Internacional da Luz comemoram-se alguns dos aniversários de descobertas luminosas.

Foi com base num conhecimento cada vez melhor da luz que foram desenvolvidas aplicações que “iluminaram” o mundo que habitamos. O caso do laser ilustra bem o poder da ciência. No início não passava de uma descoberta à procura de uma aplicação; não encontrou uma, mas sim muitas. As aplicações surgem por vezes onde e quando menos se espera.



     15h30 - A LUZ EM MINERALOGIA

     Galopim de Carvalho*

     *Faculdade de Ciência da Universidade de Lisboa

À semelhança de qualquer corpo sólido, os minerais expostos à luz mostram algumas das principais características usadas na sua diagnose. Tal aconteceu na primeira classificação em moldes minimamente científicos atribuída ao médico e alquimista persa Abu Ali ibn Sina (980-1037), mais conhecido por Avicena, onde a cor e o brilho assumem particular interesse.

Todas as classificações mineralógicas que se lhe seguiram, até às actualmente em uso, distinguem, entre as diversas propriedade físicas, as associadas à luz. Além da cor e do brilho dão destaque à permeabilidade à luz (opacidade, translucidês, transparência e hialinidade), ao pleocroísmo, à dispersão da luz, aos efeitos ópticos (brilho, opalescência, iridescência, adularescência, aventurescência, asterismo e os chamados efeitos olho-de-gato, olho-de-boi, olho-de-falcão e olho-de-tigre), às luminescências (fluorescência, fosforescência, termoluminescência e triboluminescência) e à dupla refracção.

Um outro capítulo revelador do interesse da luz em mineralogia é o da cristaloóptica, disciplina que, como o nome indica, investiga as propriedades ópticas das diferentes espécies minerais (refringência, birrefringência, pleocroísmo, dispersão da luz, etc.) comparativamente com as respectivas características cristalográficas e morfológicas, essencial à identificação de minerais e rochas ao microscópio com luz polarizada.


UM OLHAR SOBRE A LUZ - 02/10 (SEXTA-FEIRA)



    10h00 - A HISTÓRIA DO CONHECIMENTO SOBRE A LUZ

     Luís Bernardo*

     *Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Ao longo da História o conhecimento sobre a luz foi sendo adquirido através da observação e do estudo de fenómenos de complexidade crescente.

Os nossos antepassados mais remotos reconheceram que a luz era indispensável à visão e benéfica para a saúde e vida. Por tão evidentes favores, a luz foi considerada uma dádiva divina e o Sol foi elevado à categoria de Deus supremo.

A proposta de Aristóteles para explicar a natureza da luz baseou-se na visão. A visão fundamentou também a teoria geométrica da óptica, desenvolvida por Euclides, que inspirou os perspectivistas da Idade Média e serviu de base para o desenvolvimento posterior da óptica geométrica.

Com o surgimento da ciência moderna, no século XVII, a experimentação começou a desempenhar um papel fundamental na construção das ideias e teorias sobre a luz. Os fenómenos luminosos foram analisados com novos métodos. A luz ganhou o estatuto de entidade física e foi explicada por teorias que lhe atribuíram a natureza de onda ou de partícula. No século XVII, a teoria peripatética da luz deu lugar à teoria ondulatória cartesiana que, por sua vez, foi substituída, no século XVIII, pela teoria corpuscular de Newton.

No princípio do século XIX, Young e Fresnel iniciaram a construção de uma teoria ondulatória da luz, física e matematicamente bem fundamentada, que explicava fenómenos até então obscuros, como a interferência e a difracção. Posteriormente, Maxwell justificou, com fundamentos matemáticos sólidos, a natureza electromagnética das ondas luminosas que Hertz confirmou experimentalmente nos anos seguintes.

Quando se pensava que a questão da natureza da luz tinha sido finalmente resolvida, as dificuldades colocadas pela emissão do corpo negro obrigaram à introdução de um novo paradigma para a natureza da luz, baseado no quantum de energia ou fotão.

Actualmente, considera-se que a luz é uma entidade quântica dual, com características de onda e partícula. Assim se explicam, com grande precisão e previsibilidade, os mais complexos fenómenos ópticos. No entanto, existem lacunas, inconsistências e contradições nesta teoria, o que faz supor que o conhecimento que possuímos sobre a luz não está ainda completo e que há necessidade de encontrar novas ideias. Através de uma evolução contínua ou por meio de rupturas, este conhecimento deverá dar resposta às questões levantadas pela observação e pela experimentação e estar suportado numa estrutura logicamente consistente e conformada a princípios evidentes, universalmente aceites e bem estabelecidos.

Nesta apresentação, serão abordados os diversos aspectos ligados ao conhecimento da luz bem como as várias fases e momentos de ruptura que conduziram este conhecimento ao seu estado actual. Será ainda feita referência à importância desse conhecimento para o desenvolvimento das tecnologias ópticas, tão relevantes para o progresso tecnológico moderno.



    10h30 - LUZ E ILUMINAÇÃO: O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO

     Hugh D. Burrows*

     *Departamento de Química da Universidade de Coimbra

A história da iluminação é discutida, começando pelas tochas e velas, passando pela iluminação a gás, pelos filamentos eléctricos e lâmpadas fluorescentes, até aos díodos emissores de luz (LEDs). Foca-se particularmente a distribuição cromática da iluminação e os seus efeitos na percepção visual. Aspectos físicos, químicos e económicos de diversas formas de iluminação são também abordados. Conclui-se a apresentação com uma discussão da iluminação “off-grid” e a sua importância tanto para “níveis nulos de consumo de energia” como para os países em vias de desenvolvimento.



    11h30 - HISTÓRIA E LUZ

     Maria Antónia Lopes*

     *Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Começando por recordar que a palavra História tem dois sentidos, o do passado vivido pelos humanos – que se reporta não apenas aos acontecimentos factuais, mas também às crenças, reflexões, sentimentos, vida material, quotidianos privados e públicos – e o do conhecimento que se tem sobre esse passado que a historiografia pesquisa, reconstrói, explica, problematiza e interpreta, abordar-se-á a História e a luz em duas vertentes: 1ª, o saber histórico que em progressivo alargamento dos seus campos de análise e de metodologias ilumina o passado esquecido e corrige as distorções da memória – e por isso a História é luz do passado e luz do presente; 2ª, a luz na História (enquanto passado), nos quotidianos das pessoas comuns. Não se trata da história da luz enquanto técnica, nem da perceção da luz enquanto símbolo, mas de procurar a relação dos humanos com a luz no uso de objetos que lhes permitiram combater a escuridão, pesquisa que, entre muitas outras, a disciplina da história da cultura material tem aprofundado.



    15h30 – A DIMENSÃO GLOBAL DA ENERGIA: GOVERNAÇÃO COMO POLITIZAÇÃO?

    Licínia Simão*

    *Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

A energia – a sua produção, acesso e distribuição – constitui uma das questões de maior relevo no actual contexto de política internacional. Discutem-se novas formas de produção energética, em linha com preocupações de sustentabilidade ambiental e justiça social global; a conflitualidade armada continua a marcar presença em zonas de produção petrolífera; impõem-se sanções a um dos maiores produtores de gás natural do mundo. Destes exemplos sobressai uma dimensão política clara da energia, assente na distribuição de poder no sistema internacional, entre aqueles que controlam a energia e aqueles que dela dependem. A energia e o seu controlo são também vistos como formas de pressão política e como ferramentas de ascensão e desenvolvimento económico e social. Por outro lado, o controlo do conhecimento tecnológico e dos recursos financeiros para a exploração energética torna o desenvolvimento energético mais complexo, com actores privados e estatais a interagirem num contexto de grande interdependência. Esta dimensão política da energia é central às relações internacionais e central ao estudo das questões energéticas.



    16h30 - A LUZ E A EVOLUÇÃO DOS OLHOS

     Paulo Gama Mota*

     *Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra

Como vemos o mundo e porque o vemos da forma em que vemos?

A Terra é invadida, a cada segundo, por milhões de fotões de Luz provenientes do Sol. A Luz é fundamental para a vida, tendo os seres vivos evoluido formas de tirar partido dela, para obter energia, que lhes permite manter as células vivas e a funcionar. O ramo animal dos seres vivos, por seu lado, desenvolveu um tipo especial de dispositivo que permite aproveitar a Luz para outras funções. Os olhos permitem percepcionar o ambiente envolvente à distância e, em particular, detectar com precisão a localização de alimento ou de predadores. Apesar de se nos apresentarem como órgãos de extraordinária complexidade, os olhos estão presentes nos animais sob formas muito diversas, apresentado soluções muito variadas e diferentes para a mesma função e que evoluiram muitas dezenas de vezes, de forma independente. As características destes órgãos determinam a forma como cada organismo vê o seu mundo. E há um mundo diferente para cada animal. Iremos compreender que o mundo, tal como o vemos, é o resultado de um processo evolutivo que reforçou certos aspectos perceptivos ou ópticos em detrimento de outros, fornecendo-nos uma visão do mundo que é apenas uma entre outras.


A LUZ E O FUTURO - 03/10 (SÁBADO)



    10h00 - A VISÃO EUROPEIA DO MUNDO ENTRE A PINTURA MEDIEVAL E MODERNA

     Pedro Redol*

     *Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa/Mosteiro da  Batalha

O tema da luz constitui um ponto de observação extremamente fecundo para o conhecimento da mundividência do Ocidente europeu, na transição do período medieval para a época moderna. Na expressão pictórica confluem testemunhos de apropriação do real dominados por esta temática que são transversais à poesia, à filosofia e à vivência do quotidiano, ilustrando o estado embrionário do conhecimento científico e tecnológico, e a construção de um novo paradigma a partir de profundas e demoradas transformações mentais.

Mais do que obra de arte, na acepção tornada corrente, a pintura medieval é objecto de aproximação a Deus. Durante a Alta Idade Média, é nos scriptoria dos mosteiros e nas paredes das suas igrejas que se pinta, do mesmo modo que nas suas livrarias se guardam os textos antigos (ou seus fragmentos), copiados até à exaustão. Porém, tanto a miniatura, que vai a par dos textos sagrados, como a pintura mural e o mosaico, fazem fé de um mundo completamente estranho à pintura clássica: desaparece o referente da paisagem e as figuras de facies irreal e cores nítidas, que não morrem em zona de sombra, pairam em fundos inverosímeis, sem referente espacial. Nas franjas do ainda subsistente Império Romano do Oriente, onde se ruminam os textos gregos antigos e se disputa a legitimidade da representação da imagem de Deus, transpiram para ocidente os fundos de ouro dos ícones que se vêm juntar às ideias neoplatónicas de Plotino, fundacionais para a teologia medieval. A submissão da cor à forma, no mundo antigo, dá lugar paulatinamente à supremacia imanente da cor e dos corpos luminosos.

No tempo das universidades e das catedrais de cidades florescentes como Paris, tanto a sensibilidade medieval comum, como a obra dos artistas e o pensamento escolástico acusam a importância da cor, investindo-a de poder sagrado e simbólico, e fazendo-a proceder da luz divina que atravessa os vitrais. A par das descobertas e redescobertas de pigmentos e corantes, em ambiente experimental ainda de contornos alquímicos, chegam à Europa, a partir das suas fronteiras com o Islão, novidades para-científicas, como as do livro de óptica de Alhazen. A filosofia do século XIII é dominada por postulados relacionados com a luz, com a cor e com o comportamento dos materiais em face da luz, num esforço de conciliar uma bem estabelecida estética do número e da proporção com uma outra, da qualidade.

O humanismo franciscano, a redescoberta da natureza, o culto da humanidade de Cristo e a afirmação das cidades e do poder laico ocasionarão a descoberta da perspectiva geométrica, que é um triunfo conjunto da ciência e da arte e o ponto de chegada de um longo caminho em que a representação pictórica, antes encarada como caixa fechada, se transmuta em janela aberta sobre o mundo referenciada ao observador.



    10h30 - NEM LUZ PURA, NEM SOMBRA: NOSTALGIA DE LA LUZ COMO DOCUMENTÁRIO POÉTICO POLITIZADO

    Sérgio Dias Branco*

    *Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Cinema e Fotografia

                             Não há luz pura

                             nem sombra nas lembranças:

                             estas fizeram-se cinza lívida

                             ou pavimento sujo

                             de rua atravessada pelos pés das gentes

                                                                     Pablo Neruda

Com Nostalgia de la luz (Nostalgia da Luz, 2010), Patricio Guzmán Guzman continua e desenvolve uma obra documental em torno da inscrição da memória da ditadura militar fascista de Augusto Pinochet no Chile actual. Enquanto astrónomos buscam as origens da humanidade nos astros a partir do deserto de Atacama, há mulheres que procuram os restos mortais dos seus familiares no mesmo lugar. Mostrando as relações entre a ciência e o passado, por um lado, e a arte e o passado, por outro, o filme mistura e liga, caldeia, o sentido literal e o sentido figurado. Receber luz das estrelas longínquas e lançar luz sobre o destino das vítimas da ditadura são duas formas complementares de criar conhecimento e de procurar esclarecimento. Nostalgia de la luz opta pelo modo documental poético que Bill Nichols descreveu, mas problematiza a forma como ele o define. Ainda que trabalhe ritmos temporais e justaposições espaciais através de associações e padrões, dando prioridade ao tom, ao ambiente, à textura, à afecção, o filme inclui demonstrações de conhecimento e actos de persuasão, ampliando a componente retórica que costuma ser reduzida neste modo documental. Esta singular característica está relacionada com a sua perspectiva politizada, correspondendo à necessidade, articulada por Walter Benjamin, da politização da arte contra a estetização da política no combate contra o fascismo. A composição poética surge a par da dimensão da lembrança, da memória que a humanidade carrega consigo sem conhecer, da memória que as gentes chilenas não querem esquecer, investigando, reconstituindo. Em Nostalgia de la luz, que podemos descrever com rigor como um documentário poético politizado, nem a poeticidade é um adorno, nem a politização é um acrescento. São modos de perspectivar a realidade viva que o filme faz questão de salientar que emergem da própria realidade como história vivida.