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A ciência no dia-a-dia: Medicalização da sociedade

Publication date: 10-11-2014 23:11

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No dia 12 de Novembro de 2014 (4ª feira), pelas 18h, realiza-se no RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, localizado no Departamento de Física da FCTUC, a palestra intitulada “Medicalização da sociedade”, com Salvador Massano Cardoso, inserida no ciclo “A ciência no dia-a-dia”, dinamizado pelo bioquímico António Piedade.

RESUMO DA PALESTRA:

U​m dos fenómenos mais preocupantes que está a atingir a sociedade prende-se com a medicalização. O ser humano preocupa-se com a perda da saúde e quando lhe acenam com diagnósticos fabricados com o propósito de o perturbar aceita quaisquer propostas. A construção de novas doenças tem vindo a aumentar e a oferta de soluções também. Não há dia em que a comunicação social não chame a atenção para estes problemas. A medicalização é uma constante. Curiosamente começou dentro da medicina, mas agora estendeu-se a todas as áreas. Uma das doenças construídas diz respeito à transformação de situações normais, e desejáveis, como é o caso da tristeza. A tristeza, um estado de alma, base de muita criatividade, acabou por ser considerada como doença e tratada como se fosse uma “depressão”. O resultado é fácil de ver, uma legião de dependentes de ansiolíticos e antidepressivos com todas as consequências daí resultantes. Mas o que é mais preocupante é a oferta de produtos para tudo e para nada, levando a um consumismo exagerado e sem qualquer valor. A população envelhece a olhos vistos e por isso tem de suportar algumas maleitas sem importância, sem correr risco de vida ou sofrer complicações graves de saúde. Frágeis, ansiosos, são um alvo preferencial de campanhas agressivas a fim de comprarem muitos produtos. Outra área que merece profunda reflexão diz respeito à alimentação. Hoje, cada alimento tem propriedades curativas e em função disso passaram a ser mais medicamentos do que outra coisa. Uma obscenidade. Todos os dias surgem press releases a anunciar propriedades e mais propriedades de muitos produtos a ponto de parecerem ser uma forma miraculosa para resolver ou prevenir os diferentes problemas. São tantos alimentos que dificilmente se encontrará algum que não tenha propriedades terapêuticas. Outro aspeto preocupante é transformar certas situações, que deveriam ser consideradas como normais, em casos patológicos. E se logo a seguir for oferecida uma “solução”, então, é certo e sabido que a procura irá aumentar. Desmedicalizar a sociedade é um imperativo. Na prática não vai ser fácil, para não dizer impossível. Em primeiro lugar porque é uma fonte de negócio e em segundo porque as pessoas encontram explicações para os seus “problemas”. O que é maravilhoso. Se a seguir tiverem à distância da sua bolsa a solução para os seus males, então, o negócio da medicalização tem o futuro garantido. E pelo que se vê por aí…