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RÓMULO CCVUC

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Rómulo de Carvalho

(Patrono do Rómulo - CCVUC)





Rómulo de Carvalho (1906-1997), o professor de Ciências Físico-Químicas (para muita gente mais conhecido por António Gedeão, o poeta de “Pedra Filosofal”), é um símbolo inigualável da cultura científica em Portugal. Além de professor de ciências e de poeta, juntando na mesma pessoa duas sensibilidades diferentes, foi um notável divulgador científico e um historiador da ciência, da pedagogia e, em geral, da cultura portuguesa.






Sobre Rómulo de Carvalho
Site RÓMULO DE CARVALHO /ANTÓNIO GEDEÃO 
Recurso multimédia interactivo da Biblioteca Nacional ANTÓNIO É MEU NOME
Publicações do autor nas bibliotecas da Universidade de Coimbra
Vídeos do autor / sobre o autor



Rómulo de Carvalho, ALQUIMISTA.

Pelo professor Carlos Fiolhais

Visitei há pouco o velho Liceu Pedro Nunes (chamo-lhe Liceu porque é mais simples e bonito do que escola secundária!). O Laboratório de Física impressiona como documento vivo de uma época. Nos armários estão arrumadíssimos instrumentos de Física, duma época anterior à electrónica e aos computadores mas muitos deles ainda funcionais e úteis. Encostados nas estantes, os manuais escondem entre as capas o seu saber de antanho mas eterno. Na parede, em letras garrafais, Luís de Camões adverte-nos sobre o valor da experiência. Esse foi o espaço onde durante muitos anos Rómulo de Carvalho professorou. Paira o seu espírito tanto nos utensílios que inventariou e manipulou em inúmeras demonstrações, nos livros que escreveu, e até, quiçá, na escolha da inscrição mural do poeta. Não tive a sorte de ser seu aluno e de ter assistido às experimentações de Física que ensinaram o funcionamento do mundo a gerações sucessivas. Habitei, adolescente, um laboratório no Liceu Normal de D.João III, um cenário de semelhantes prestidigitações científicas (segundo a lenda, existiu aí uma “esfera metade cobre, metade estanho e metade bronze”…). Mas sinto-me aluno do Mestre, tanto quanto se pode ser (e pode!) pelas interpostas pessoas dos livros. Não havendo esses livros, provavelmente não teria penetrado nos laboratórios universitários para decifrar com curiosidade alguns mistérios da Física, e, não havendo o seu exemplo de “vulgarizador”, alguém que torna vulgares as coisas mais invulgares e invulgares as coisas mais vulgares do universo, possivelmente não me teria atrevido a proselitar a ciência para toda a gente. Os pequenos livros da colecção “Ciência para Gente Nova”, da extinta editora Atlântida, revelaram ciência nova a gente pequena, numa prosa de tal frescura e elegância que deixou marca maior. Com eles, ficámos a gostar de ciência. A nova ciência de Curie, Rutherford e Bohr apareceu-nos aí acessível, o que constituía uma verdadeira vantagem já que as geringonças do laboratório, apesar de versáteis, não permitiam interrogar o átomo e os manuais escolares teimavam em permanecer desactualizados. A velha ciência, nomeadamente a ciência de Arquimedes, Galileu, Faraday apareceu-nos também aí desempoeirada, nítida e inteligente. Quem não conheça a “Física no Dia a Dia”, acorra à livraria ou hipermercado porque, sorte nossa!, existe enquanto não esgotar o volume in print (Relógio de Água, 1995). Os mestres reconhecem-se pela difícil virtude da claridade, pela sageza de extrair a gema do essencial da ganga perturbadora em volta. As ciências físico-químicas têm, de facto, a reputação popular de ininteligibilidade e tédio mas Carvalho fez e faz essa fama parecer uma evidente injustiça. Numa entrevista publicada na “Gazeta da Física”, Revista da Sociedade Portuguesa de Física (vol. 16, fasc.1, 1993), Rómulo de Carvalho expõe o truque da sua pedagogia: “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes(…) Tornar pensáveis as coisas habituais que não se pensam”. É obra de verdadeira alquimia, ao alcance de muito poucos. Carvalho fê-la, ao longo de longas décadas, com a perseverança e modéstia de um alquimista ignoto. No “Poema do Alquimista”, um dos “Poemas Póstumos” (1983), António Gedeão declara, intimista: “Eu não sou o Alquimista de Dusseldorf Eu não quero tudo. Eu quero apenas, apenas transmutar esta chatice em flores.”