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Torre da Universidade

Torre da Universidade 2
Torre da Universidade

A Torre é a imagem de marca da Universidade e da cidade de Coimbra. Da autoria do arquiteto italiano António Canevari, foi edificada entre 1728 e 1733, em substituição da torre que João de Ruão erigira em 1561.

A Torre da Universidade foi  alvo de uma intervenção na sua estrutura que permite aos visitantes a deslocação ao seu topo e desfrutarem de uma vista ímpar sobre a cidade de Coimbra – por razões de segurança é interdita a entrada em dias de mau tempo e a crianças menores de 6 anos; Aberta somente no perído de Verão.

Nota Histórica

António Filipe Pimentel *

Na longa sucessão de sedimentos edificados que configura o Paço das Escolas, a torre setecentista que alberga o relógio e os sinos que regulam a vida académica constitui, obviamente, uma das mais jovens adições. E, não obstante, é ela, mais que nenhuma outra, a imagem icónica por excelência, não apenas da secular instituição mas, por via dela — e da ligação idiossincrática que plasmou com a cidade onde se alberga —, da própria urbe, sobre a qual avulta como um farol dominando o promontório onde, de facto, morfologicamente se levanta.
A sua proto-história remonta a 1537, quando, recém--chegada a Coimbra e na iminência de alojar-se no velho Paço Régio, a Universidade insiste, junto de D. João III — justificando que “nã podia aver boa ordem sem relógio” —, na transferência de Lisboa do especioso instrumento e do competente sino, adquiridos em finais do século XV. Dois anos mais tarde o monarca autorizaria a sua colocação no interior do pátio, “sobre a porta da emtrada do terrro dos paços”, mas o complexo esquema funcional engendrado pelo reitor Frei Diogo de Murça, de molde a albergar, a partir de 1544, o pleno das faculdades no que haviam sido os aposentos da Rainha, seria responsável pela transumância do precioso engenho (aliás de um novo, que entretanto o substituíra) para uma situação mais próxima da logística escolar que lhe competia regular: o cubelo voltado ao pátio, que abrigava as escadas centrais dos aposentos do Rei, alteado em virtude dessa operação e mais tarde demolido.
Problemas estruturais decorrentes da edificação, sobre essa torre, da nova casa do sino, estarão provavelmente na origem da decisão, tomada em 1561, de levar a cabo a edificação de uma torre de raiz, alojada junto ao ângulo noroeste do terreiro, cujos planos seriam cometidos a João de Ruão. Quanto à torre actual, ocupando sensivelmente o mesmo local, seria erguida entre 1728 e 1733 e para a história da sua edificação sobreviveria extensa informação — por completo omissa, todavia, no que respeita ao seu tracista.
De facto, em tal matéria, pesaria por muito tempo o enigma contido na provisão de D. João V, de 17.12.1728, dirigida ao reitor Francisco Carneiro de Figueiroa, onde, sobre as plantas para a nova torre por ele enviadas, riscadas por Gaspar Ferreira (que dirigira a edificação da Biblioteca), o monarca afirmava que “mandandose ver por Arquitectos desta corte não aprovarão a Arquetetura da d.ª Torre e pello mais perito se mandou fazer a que com esta se vos remete, com a q. enviastes, da mesma altura e grandeza, mas de milhor fabrica”. Pouco mais de um ano depois, 17.01.1730, determinava o Rei que, “pª satisfaçam do Arquitetto que fez a planta p.ª a torre da un.de” (cujo nome, uma vez mais, se não indicava), se despendesse da arca escolar a quantia de 48 000 rs. — verba que, na verdade, produz violento contraste com os modestos 6 400 rs. que, em Março de 28, haviam sido entregues a Gaspar Ferreira para o mesmo efeito.
Porém, a emergência de nova documentação, resultante da denúncia endereçada à Mesa da Consciência e Ordens, em meados de 1728, pelo tesoureiro da Capela, de ter a Universidade empreendido a construção da torre nova sem munir-se de autorização real, sacrificando, em seu proveito, “a milhor obra que tinha aquela cide” (a torre de Ruão) e, para cúmulo, confiando a empresa a um entalhador, metido a Arquiteto (Gaspar Ferreira), iria permitir, em definitivo, esclarecer a questão.
De facto, suspensa a obra por ordem do monarca e repreendida competentemente a Escola, requisitaria este a planta e orçamento da torre, exigências que o reitor satisfaria, entre justificações, não, aliás, sem promover a realização de nova planta (a “última planta do M.e”), decerto mais cuidada, impetrando ao Rei se dignasse conceder licença para a sua prossecução “de contrario se perderia a despesa feita”. Reservaria, porém, para o fim o melhor argumento: o de que o próprio soberano havia “mostrado dezejos de q. na vnd.e floreça a sciencia de Mathematica p.ª q. lhe havia S. Mag.e ordenado comprasse l.os novos, e instrumentos Mathematicos, e parecer necessário haver na Torre hum observatório por não achar o P.e D.os Capaci outro citio maes capas, e com a mayor altura e largura della se evitava a g.de despeza se se houvesse de fazer o observatório em outra p.te como reprezentara a S. Mag.e e a largura bastava ser capas p.ª vinte pessoas”.
Ponderado o conturbado processo em que a obra da torre tinha convertido (uma vez consumada a demolição da antiga), e vista a traça feita pelo mestre universitário, decide-se então encarregar Lázaro Leitão Aranha de que “mostrasse a d.ª planta aos Arquitettos desta Corte”. E, desaprovada esta, “se mandou fazer outra pello Arquitetto Romano António Canavari”, a qual se expediria para Coimbra, a 17 de Dezembro — antecedida, na véspera, da ordem para o pagamento dos 48 000 rs. “p.ª satisfação do Arquiteto”.
A construção da torre universitária acabaria, pois, por ser viabilizada (nessa circunstância se inscrevendo a documentação conhecida), concluindo-se em Julho de 1733, após um dispêndio de 14 543$522 rs.
Na decisão real terá pesado (a par da inevitabilidade da obra, uma vez consumada a demolição da antiga) a relevância que revestia do ponto de vista do incremento na Universidade dos estudos matemáticos e das observações astronómicas e o parecer de Domingos Capacci, que não teria achado “outro citio mães capas”. Restava, pois, fazer substituir as traças provincianas de Gaspar Ferreira por um novo projecto, cometido ao arquitecto mais perito: o qual, por esses anos e pela aura que rodeara a sua vinda era, sem dúvida, António Canevari — como, aliás, a historiografia da arte há muito intuíra.
Porém, forçado a respeitar condicionantes. De facto, a altura e largura da base da nova torre coimbrã (bastante ampliada, por razão da sua maior altura, em relação à torre quinhentista) seriam definidas na planta de Gaspar Ferreira. E definido ficara também o seu acabamento em forma de terraço, a fim de aí instalar o observatório recomendado pelo Rei e os competentes instrumentos Mathematicos. Ao perito arquitecto não restava, pois, mais que reformulá-la, “da mesma altura e grandeza mas de milhor fabrica”. O que efectivamente fez, criando, com a torre da Universidade, um raro protótipo de torre campanária civil, serena e majestosa, um pouco seca nas suas linhas severamente modeladas, quebradas somente pelo lavor delicadíssimo do frontão, originalmente rematado em ático, por forma a suportar o surpreendente observatório em que afinal consiste.
Mas também Gaspar Ferreira tem parte de relevo na obra final. Se o seu palmarés de entalhador, metido a Arquiteto o não habilitaria, certamente, a conceber a nova torre à altura da grandeza a que a Universidade estava habituada, essa mesma sua intuição para o rigor da execução do ornato e a ciência prática adquirida na Casa da Livraria, desde que assumira a sua direcção, não deixariam de ser reconhecidas pela Mesa, ao confiar-lhe igualmente, afinal, a direcção da nova empresa — rendendo-se, como em quase tudo no controverso negócio em que a erecção da torre se havia convertido, à situação de facto entretanto criada. Pelo que a ele se deve, inquestionavelmente, essa demonstração de “saber fazer” que avulta no trabalho realizado, sem o que o risco do romano se teria fatalmente pervertido.
* Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Director do Museu Nacional de Arte Antiga
Bibliografia
António Filipe Pimentel:
- A Morada da Sabedoria. I. O Paço Real de Coimbra: das origens ao estabelecimento da Universidade, Coimbra, Almedina, 2005;
- “António Canevari e a Torre da Universidade de Coimbra”, Artistas e Artífices e a sua mobilidade no mundo de expressão portuguesa, Actas, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2005.