Roteiro para uma visita

O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra pode considerar-se dividido em duas partes: a primeira, que se localiza na encosta da colina, foi projectada em seis socalcos delimitados por pequenos muros, gradeamentos, portões de ferro e outras peças escultóricas que, no seu conjunto, evocam os jardins neo-clássicos do século XVIII; a segunda parte que ocupa o vale, dito das Ursulinas, está povoada com uma vegetação densa, na sua maioria de grande porte arbóreo e incluindo uma grande diversidade de espécies autóctones e exóticas.
Este pequeno roteiro está dividido em seis partes. Assim, entrando pelo Portão dos Arcos encontramos a Alameda de São Bento (início); O Recanto Tropical (... Continuação) vem a seguir; entramos depois no chamado Terraço das Gimnospérmicas (... Continuação); prosseguindo, estamos na Avenida das Tílias (... Continuação); continuando encontraremos o Quadrado Central (... Continuação); por fim chegamos às Estufas (Fim da visita).
Junto ao referido Portão e contíguo à escadaria de acesso aos terraços inferiores do
Jardim encontra-se o Recanto Tropical. A vegetação que constitui esta parcela do
Jardim Botânico é subtropical, sendo o estrato inferior atapetado por fetos e o superior
essencialmente composto por várias espécies de palmeiras que protegem das geadas fortes
os estratos mais baixos. Podem observar-se plantas muito sensíveis ao frio que, contudo,
conseguem vegetar neste microclima. Entre elas contam-se bananeiras (Musa x paradisiaca),
estrelitzias arbóreas (Strelitzia nicolai) e várias espécies de palmeiras tais
como Phoenix reclinata que, como o nome indica, se apresenta pendente.
A este propósito é interessante referir que existem cerca de 2800 espécies de palmeiras no Globo. Em Portugal encontra-se apenas uma espécie espontânea no Algarve (Chamaerops humilis var. humilis), onde, porém, não atinge o porte arbóreo. No Jardim podem encontrar-se exemplares desta variedade na Mata e no Recanto Tropical. Para além desta, podem referir-se outras espécies de palmeiras presentes neste local: Chamaerops humilis var. arborescens, Butia eriospatha (originária do Brasil e cujos frutos são comestíveis), Jubaea chilensis (palmeira rara, originária do Chile) e a conhecida tamareira (Phoenix dactilifera).
Pode observar-se ainda, neste recanto do Jardim, a pitanga-do-Brasil (Eugenia uniflora), pertencente à família dos eucaliptos (Myrtaceae). É uma planta ornamental atractiva, de flores brancas e fragantes com frutos comestíveis e cujas folhas, por vezes, são utilizadas como repelentes de insectos.
A parede
deste local está revestida pela costela-de-Adão (Monstera deliciosa) cujas
infrutescências são muito apreciadas em certas regiões, como por exemplo na Ilha da
Madeira onde é frequente assistir-se à sua venda no mercado Municipal do Funchal.
Prosseguindo pelo terraço superior, junto ao gradeamento do Jardim e no sentido do Portão do Seminário (Sul) podem observar-se muitas coníferas distribuídas pelo Terraço das Gimnospérmicas. Nesse terraço aparecem, igualmente, algumas angiospérmicas arbóreas que já ali se encontravam quando se destinou esse socalco às Gimnospérmicas.
Logo no início do percurso surge um enorme eucalipto (Eucalyptus cornuta), que danificou o gradeamento pela queda de uma pesada ramada, em 26/10/1988. Próximo do Portão Principal, feito em ferro maciço por Mestre Galinha em 1884, a gimnospérmica arbórea de maior porte é um belíssimo exemplar das célebres sequoias gigantes (Sequoia sempervirens) da Califórnia (USA), onde podem atingir 120 metros, pesar cerca de 2000 toneladas e atingir a idade de alguns milénios (3000 anos). Como curiosidade, refira-se que a palavra Sequoya, deriva do nome do filho de um comerciante inglês e mãe índia Cherokee, que terá sido o inventor de um silabário para transcrição da linguagem Cherokee.

Em dois cantos do Terraço das Gimnospérmicas, ladeando o patamar da estátua de Brotero, obra-prima do escultor Soares dos Reis (1887), estão dois exemplares do tulipeiro-da-Virgínia (Liriodendron tulipifera), da mesma espécie da célebre árvore-do-ponto que se encontra junto à Porta de Minerva da Universidade (Rua Dr. Guilherme Moreira). Designou-se por árvore-do-ponto porque o período de floração coincidia com o início da época de estudo para os exames de Junho-Julho, quando as disciplinas universitárias eram predominantemente anuais. Floresce, habitualmente, em Maio, dando flores alaranjadas muito vistosas, nas quais a disposição helicoidal das peças florais constitui uma das características mais marcantes das Magnoliaceae (uma das famílias mais primitivas das Angiospérmicas).
Frente ao Portão Principal, a estátua de Brotero está ladeada por dois exemplares de uma Gimnospérmica de folhagem caduca, a Ginkgo biloba. Trata-se de uma espécie dioica (com sexos separados), sendo estes dois exemplares ambos do sexo masculino. A Ginkgo biloba, de folhas muito características, é uma espécie relíquia, considerada um «fóssil vivo», visto representar a única espécie viva da Ordem Gingkoales, originária da China.
Continuando o percurso no sentido do Portão do Seminário (Sul) podem observar-se várias coníferas, algumas de porte elevado como a Araucaria heterophylla, outras relíquias vegetais como o teixo (Taxus baccata) e um belíssimo exemplar de abeto do Himalaia (Picea smithiana). No recanto terminal destaca-se outra espécie de sequoia gigante da Califórnia (Sequoiodendron giganteum) e várias espécies de Araucaria, como sejam, A. bibwilli, A. rulei, A. hetrophylla, A. cuninghamia e A. columnaris.
É possível observar ainda alguns eucaliptos, anteriores à plantação das coníferas, como o Eucalyptus citriodora, com casca cinzento-azulada e folhas de aroma intenso a limão, e um exemplar de grande porte de Eucalyptus globulus.
Frondosos cedros ladeam a entrada Sul do Jardim, junto à Rua Vandelli, o Cedrus atlantica e o Cedrus deodora, sendo o primeiro oriundo das Montanhas do Atlas (Norte de África) e o último do Oeste dos Himalaias (Afeganistão até Oeste do Nepal). Recentemente (1996) foram aqui plantados mais dois exemplares destas espécies em substituição de duas plantas que morreram. Descendo a escadaria, depara-se, à direita, com um exemplar de Eucalyptus obliqua, das árvores mais altas do Jardim, com cerca de 45 metros, enquanto à esquerda se vê outra espécie, de grande porte, o Eucalyptus viminalis, perto de um exemplar de Eucalyptus eugenioides.
Nesta jardineta, temos representantes das Lauraceae, como o vinhático (Persea indica) e vários exemplares do barbusano (Apollonia barbujana), que são plantas características da laurisilva macaronésica. Duas espécies de Rhododendron, o R. ponticum (adalfeira) e o R. micranthum podem também observar-se neste terraço.
Continuando a descida, com o segundo lanço de escadas, atinge-se o extremo sul da Avenida das Tílias. Esta é ladeada por frondosas tílias, de grande porte (Tilia x vulgaris), cuja cor dominante das folhas varia com as estações do ano. Junto ao muro deste socalco foram plantadas tílias de menor porte (Tilia tomentosa), de flores bastante aromáticas e que, à luz e cor intensas deste local, acrescentam um aroma muito agradável.

Exemplares frondosos de Magnolia grandiflora, de folha persistente e flores brancas, observam-se à esquerda, junto a algumas cameleiras (Camellia japonica) de flor vermelha.
Um belo exemplar de canforeira, Cinnamomum camphora, pode igualmente ser apreciado nesta avenida. São bem conhecidas as propriedades analgésicas da cânfora, substância extraída desta árvore e muito utilizada como analgésico, em particular, das dores reumáticas.
Do lado esquerdo da Avenida das Tílias avistam-se vários canteiros, dispostos paralelamente uns aos outros, que fazem parte das designadas Escolas de Sistemática do Jardim Botânico. Estas são constituídas por uma série de pequenos canteiros onde várias centenas de espécies são cultivadas para obtenção de sementes com vista, fundamentalmente, ao intercâmbio com outras instituições congéneres nacionais e estrangeiras. Estes canteiros encontram-se dispostos no Jardim em dois níveis ou terraços diferentes e o critério para a distribuição das espécies tem por base a classificação de Dalla Torre.
A Escola
Médica, localizada no terraço imediatamente superior e adjacente à Alameda das
Tílias, como o nome indica, é constituída por canteiros com plantas medicinais e de
aplicação farmacêutica. Esta designação foi aliás inicialmente aplicada a todas as
Escolas Sistemáticas cuja criação remonta ao tempo de Brotero.

Continuando a descer, agora o terceiro e último lanço de escadas, encontra-se, à esquerda, o designado Quadrado Central, ao qual se pode ter acesso por quatro portões, e à direita, um muro de socalco coberto por uma figueira trepadeira, o Ficus pumila. Como curiosidade refira-se que em todo o Globo há cerca de 850 espécies de figueiras. A meio do percurso encontra-se um pequeno lago encimado por um Medalhão, baixo relevo em homenagem a Luís Carrisso, director do Jardim Botânico durante o período de 1918 a 1937 e da autoria do escultor José dos Santos. No lago podem observar-se, como exemplo, o golfão-branco (Nymphea alba) e o inhame (Colocasia esculenta), este utilizado como sucedâneo da batata em muitos países tropicais. Ladeando o lago vêem-se estrelítzias (Strelitzia reginae) da África do Sul, com as suas apreciadas flores alaranjadas e os doriantes (Doryanthes palmeri) da Austrália, com vistosas e profusas flores vermelhas, que floriram pela primeira vez em Maio de 1984.
Pelo Portão de D. Maria, situado em frente ao referido lago, tem-se acesso ao Quadrado Central, cujo traçado é inspirado nos jardins do séc. XVIII, e onde se ergue um Fontanário, desde a década de 40. Ainda hoje é possível observar aí algumas árvores que remontam à data da fundação do Jardim (1772-1774): Cunninghamia lanceolata, Cryptomeria japonica e Erythrina crista-galli. Como curiosidade refira-se, relativamente a esta última espécie, que os índios sul-americanos tinham o hábito de colocar as folhas desta planta nas pontas das suas flechas quando caçavam. É que a eritrina, substância presente nessas folhas, tem uma acção semelhante à do veneno curare. Esta substância foi também utilizada em cirurgia, como anestésico, devido ao relaxamento muscular que provoca. As flores da Erythrina, muito vistosas e de cor vermelha, são polinizadas por colibris, no seu país de origem.
Circundando a parte central do Quadrado encontram-se árvores de folhas intensamente vermelhas como o Prunus cerasifera e outras Rosaceae, nomeadamente, Crataegus monogyna e Prunus japonica, esta conhecida vulgarmente como a cerejeira-de-jardim; nos recantos a Sul (do lado oposto à estufa) destaca-se um conjunto de áceres, que no Outono apresentam cores diversas, desde o amarelo-alaranjado até ao vermelho-acastanhado (Acer palmatum, Acer japonicum, etc.). Em disposição mais ou menos geométrica nos canteiros centrais destacam-se exemplares de três variedades diferentes de Fagus sylvatica, (var. atropocinea de folhas vermelho vivo; var. tricolor, cujas folhas se apresentam em três tons diferentes de vermelho e a var. heterophylla, com folhas diversamente recortadas) e o Acer negundo ‘variegatum’. Podem também observar-se exemplares de cevadilha (Nerium oleander), cujas folhas possuem uma substância venenosa utilizada pelos soldados durante a I Guerra Mundial para exterminar parasitas.
De um e doutro lado do Quadrado observa-se uma colecção de magnólias de folhagem caduca e flores de cor variada: violáceas (Magnolia x soulangeana var. lennii ou Magnolia x soulangeana var. speciosa), violáceas muito escuras (M. lilliflora var. nigra), amarelo-esverdeado (M. acuminata) ou brancas (M. denudata e M. stellata).
Podem igualmente ser apreciados exemplares de Cycas revoluta, gimnospérmica com características simultaneamente afins dos fetos e, das palmeiras, e em que o exemplar feminino, quando em período de «floração», apresenta nos seus estróbilos, os maiores óvulos do Reino Vegetal.
Subindo a escadaria em direcção aos Arcos do Jardim, revestindo completamente o muro que ladea o Portão de acesso ao terraço superior, está, de novo a figueira trepadeira, Ficus pumila. Esta mesma trepadeira emoldura uma placa em mármore, em memória do primeiro director do Jardim Botânico, no período de 1772 a 1790, o italiano Domenico Vandelli, que foi também o primeiro professor de História Natural e de Química da Universidade de Coimbra.
À saída desse portão, uma árvore centenária, de grande porte, é mais outra espécie de figueiras da Austrália (Ficus macrophylla), com raízes aéreas (espeques) bem desenvolvidas e que servem de escora à larguíssima copa desta árvore.
Ultrapassando o Portão junto a essa figueira australiana situa-se o patamar das Estufas. Na Estufa Pequena, mais intensamente aquecida, há um lago central ocupado, a partir do mês de Março, por um enorme golfão do Amazonas (Victoria cruziana) cujas folhas podem atingir cerca de 2 metros de diâmetro e conseguem suportar um peso equivalente ao de uma criança de 6-7 anos. Também um nenúfar originário da China, Euryale ferox, se desenvolve nesta estufa, lado a lado com a Vitoria. São dois representantes da família das Nymphaeaceae, que apresentam polimorfismo foliar durante o seu desenvolvimento e as flores, de curta duração, são muitíssimo vistosas.
Encontram-se nesta estufa muitas plantas tropicais invulgares como a sensitiva Mimosa pudica e Mimosa polycarpa e várias espécies de caládios (Caladium spp.), de Maranta spp. e de Duranta spp.

Muito apreciadas pelas flores e folhas típicas, coloridas e de morfologia pouco comum, as plantas carnívoras pertencem a um grupo restrito que utiliza pequenos insectos na sua nutrição. Os mecanismos de atracção e captura destes insectos estão directamente relacionados com a cor, odor e morfologia das suas folhas. Entre as espécies portuguesas destacam-se o pinheirinho-baboso (Drosophyllum lusitanicum), a Drosera intermedia e a Pinguicula lusitanica.
Na estufa maior, a Estufa Grande, constituída por três corpos cada um dos quais preparado para receber diferentes espécies e por isso com condições de temperatura e humidade diferentes, salientam-se as colecções de orquídeas e de fetos. No primeiro dos três corpos, o mais aquecido, com ambiente de características tropicais, encontram-se muitas plantas tropicais conhecidas, como a cana-do-açucar (Saccharum officinarum), o cafeeiro (Coffea arabica), várias espécies de antúrios (Anthurium spp.). Podem igualmente ser apreciadas: uma exótica Streptocarpus grandis (com uma única folha de grandes dimensões) e o Pandanus livingstonianus, uma planta dioica, que floresce durante Março-Abril dando flores masculinas, brancas, de morfologia pouco comum; de reconhecida beleza realçam-se várias espécies e variedades de orquídeas, epífitas e terrestres (ex. Sobralia macrantha), de flores multicolores e morfologias diversas. O Ficus lyrata, uma Moraceae originária da China, a Cycas rumphii, proveniente da África Oriental e aqui cultivada desde 1964, e a designada palmeira-bambu (Chamaedora elatior) são exemplares de plantas muito raras.
No corpo central, onde se disfruta um ambiente de características sub-tropicais, podem observar-se algumas árvores de frutos comestíveis, como a anoneira (Annona cherimolia), a amendoeira do Brasil (Bombacopsis glabra), a mangueira (Mangifera indica), o abacateiro (Persea americana) e a cola (Cola acuminata). Aí se vê também a frondosa Dillenia speciosa e as palmeiras Howea forsteriana e Caryota urens, exemplos de espécies vegetais exóticas.
No terceiro corpo encontram-se, fundamentalmente, fetos, sendo alguns de porte arbóreo (Cyathea cooperii, Dicksonia sellowiana, Cibotium glaucum), diferentes hibiscos (Hibiscus spp.) e uma Apocynaceae da região do Sul de África, de flores brancas e perfumadas, mas frutos venenosos, a Acokanthera oppositifolia. Da família das Solanaceae podem admirar-se belos exemplares de Brunfelsia pauciflora, pequena árvore originária do Brasil que apresenta simultaneamente, flores de cores diferentes, consoante o estado de maturação, variando entre o lilás, rosa e branco, o que terá originado o seu nome vulgar de «ontem-hoje-e-amanhã».