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Com Vagar














“Um Quarto no Éter”


Os 25 anos da Rádio Universidade de Coimbra (RUC) despertaram Rita Alcaire e Rodrigo Lacerda para juntar o gosto comum pela realização cinematográfica com a revelação das facetas menos conhecidas de uma rádio que os marcou enquanto ouvintes. “Um Quarto no Éter” é o nome do documentário que resulta de filmagens desenvolvidas ao longo de mais de um ano. A ante-estreia integra o programa de comemorações do aniversário da RUC. A primeira experiência de trabalho conjunta, com a realização de “Filhos do Tédio”, lançou Rita Alcaire e Rodrigo Lacerda no gosto pela descoberta de estórias por contar. Em entrevista, os dois jovens realizadores abrem a porta de “Um Quarto no Éter.”

Como surgiu a ideia para este documentário?

Rita Alcaire (RA)e Rodrigo Lacerda (RL): Nascemos em Coimbra e a Rádio Universidade marcou-nos enquanto ouvintes pela divulgação de música diversificada e pouco difundida no éter, pelo humor dos seus spots e pela promoção de concertos memoráveis. Desde há muito tempo que pensávamos realizar um documentário sobre este fenómeno único no panorama nacional (e raro mundialmente). Tivemos conhecimento de que havia interesse, por parte da direcção da RUC, em promover várias actividades a propósito dos 25 anos de emissão em FM e decidimos apresentar uma proposta de realização de um documentário que foi bem recebida. A administração ofereceu-se para custear algumas despesas mais imediatas (comunicações e deslocações) e ajudar na procura de financiamento. O projecto foi apresentado a várias entidades regionais tendo recebido o apoio financeiro da Direcção Regional de Cultura do Centro.

Há quanto tempo estão a realizá-lo?


RA e RL: O processo de conversações com a administração da RUC começou no primeiro semestre de 2009. Iniciámos as filmagens no Verão desse ano, na “Fête du Emigrant”, no Observatório Astronómico de Coimbra, onde travámos conhecimento com novos e antigos sócios da Rádio. Fomos desenvolvendo um processo contínuo de divulgação do projecto através da montagem de pequenos vídeos que eram disponibilizados na página do documentário no Facebook, participando em programas da Rádio, afixando cartazes a propósito do projecto na Associação Académica de Coimbra e informando os meios de comunicação social regionais.

O que pretendem mostrar com o documentário?

RA e RL: Subjacente ao nosso trabalho de realização está um interesse em dar visibilidade a realidades menos conhecidas do público em geral. A RUC é um universo vasto e único a nível nacional pela sua originalidade, experimentação, humor, interesse em promover música desconhecida e/ou ignorada, promoção de eventos, formação de novos radialistas e comunicadores e aposta na informação local e regional. Tudo isto é realizado, diariamente, por voluntários, que não auferem qualquer rendimento pecuniário, mas que ganham uma escola para a vida. Trata-se, sem dúvida, de um exemplo que interessa divulgar e promover.

Quais os recursos de que vive este documentário? Apenas filmagens ou também entrevista? Quais as inspirações?

RA e RL: Realizámos quase meia centena de entrevistas num estúdio criado para o efeito, carinhosamente baptizado de Memory Lane Studios. Paralelamente, acompanhámos diversas actividades durante mais de um ano, registando a emissão regular, as sessões especiais, as várias vertentes da rádio escola, os relatos de futebol e os concertos. Concluímos o processo de produção com mais de 100 horas de filmagens. Foi uma aprendizagem intensa e extensa, que nos levou a concluir que o cerne desta rádio se encontra no trabalho sério e inovador que os seus sócios realizam todos os dias e que, de certo modo, é repetido anualmente. Apesar da sua história colorida, o que mais nos cativou foi o modo como esta rádio se mantém viva, renovando-se todos os anos através do seu papel de rádio-escola e transmitindo o “espírito RUC” às novas gerações.
Por essa razão, o filme é maioritariamente constituído por registos do quotidiano da RUC, numa estética próxima de Frederick Wiseman e Maysles Brothers. Contudo, ao contrário destes realizadores do Direct Cinema, não quisemos instituir na câmara um olhar neutro (fly on the wall) e, consequentemente, falsamente objectivo. Nesse sentido, fizemos questão de incluir vários planos em que os sujeitos deste filme interagem com o olhar cinematográfico ou mencionam a rodagem do documentário. Para além deste corpo do documentário existem ainda um prólogo e epílogo constituídos por testemunhos de actuais e antigos sócios que discorrem sobre as suas impressões ao entrarem para a Rádio e da sua experiência nesta.

A RUC não é uma rádio qualquer, como se sabe. Que facetas diferentes conseguiram captar dela?


RA e RL: Pensamos que este documentário vai mostrar uma Rádio Universidade de Coimbra desconhecida da grande maioria dos ouvintes. A RUC difunde uma série de programas de autor, assegurados por voluntários, e é uma referência na promoção de concertos únicos e originais. Mas a RUC é ainda mais do que isto. O que mais nos impressionou foi o trabalho e a seriedade com que a sua missão é assumida por todos: a forma como a Direcção de Programação coordena e estimula os colaboradores a dar corpo à emissão, a preparação de várias emissões especiais pelo Departamento de Técnica, o empenho do Departamento de Informação em desempenhar não só o seu papel de rádio da Universidade mas também o de única rádio verdadeiramente de Coimbra e da região centro. A manutenção desta missão só é possível através da formação de novos colaboradores anualmente, sendo a RUC uma das mais importantes rádios-escola a nível nacional.
Tendo em conta que a RUC é constituída por amadores profissionais, todo este trabalho só é possível devido a uma verdadeira paixão pela radiodifusão e pela música, uma amizade e uma camaradagem existentes entre os seus sócios e o humor e originalidade de uma geração jovem e acutilante.

A Rita e o Rodrigo começaram a trabalhar juntos na realização do documentário “Filhos do Tédio” e não pararam. Este primeiro documentário foi a descoberta de uma dupla que funciona bem?

RA e RL:
Depois do primeiro trabalho que nos deu tanto prazer e mostrou a importância de explorar histórias por contar, continuar a trabalhar juntos foi uma consequência lógica. Apesar de sermos duas pessoas muito diferentes, temos competências e gostos complementares: a Rita, como antropóloga de formação, imprime uma reflexão sobre questões importantes ao documentário que permitem desenvolver, estruturar e solidificá-lo, enquanto o Rodrigo, com formação em cinema, traz um conhecimento técnico e teórico sobre a componente cinematográfica. Acima de tudo, trabalhamos muito e temos ambos prazer em fazer cinema, conhecer pessoas, ouvir as suas histórias e descobrir e divulgar realidades menos conhecidas.
Entretanto, realizámos mais quatro documentários, incluindo o relativo à RUC, estando a estreia de alguns deles ainda por agendar. Aqueles que já foram estreados marcaram presença em festivais nacionais de referência e têm tido uma boa receptividade por parte do público.

Entrevista realizada por email.

Por Dina Sebastião



Veja o trailer do documentário

Ante-estreia

6 de Março, 18h
Teatro da Cerca de São Bernardo

Mais informações em: http://www.facebook.com/umquartonoeter


Rita Alcaire

Rita Alcaire é antropóloga. A tese de licenciatura Filhos do Tédio – música, identidade e performance em Coimbra foi posteriormente publicada e serviu de ponto de partida para o documentário Filhos do Tédio. Realizou uma tese de mestrado sobre representações do auto-erotismo no cinema e tem participado em diversos projectos audiovisuais e de história oral e identidade com o Município de Cantanhede.
Foi coordenadora e editora do primeiro número especial do Magazine de Artes de Coimbra e Afins e colabora com algumas associações na concepção e realização de várias acções culturais e pedagógicas.

Rodrigo Lacerda

Rodrigo Lacerda tirou o curso de Film and Broadcast Production, na London Metropolitan University.
Em 2005, é aceite na National Film Television School, em Londres, para uma pós-graduação. Já participou em vários anúncios de televisão, como para a Mitsubishi, Alpro e John Frieda. Em 2006, estreia-se na realização, com Filhos do Tédio, já premiado, ao que se seguiram outras realizações.
Recentemente concluiu um documentário sobre Ernesto Veiga para o GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra).