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Na e p´ra lá da UC














Estórias reveladas e segredos por contar

No início começou por dar boleia ao “menino Seabrinha” e nos finais da carreira conduziu o Reitor Seabra Santos. José Antunes, ex-motorista da Reitoria da Universidade de Coimbra (UC), que acompanhou, em regime de serviço pessoal, o Reitor cessante até ao final do seu mandato, conduziu, consecutivamente, sete Reitores da UC, ao longo de 40 anos de serviço. Sobre a condução dos destinos “reitorais” ao volante, revela as situações mais caricatas, mas mantém os segredos bem guardados. 

Mesmo depois de se ter tornado motorista da Reitoria da UC, José Antunes mal imaginava que em 2003 começaria a conduzir como Reitor o homem que se fez do “menino Seabrinha”, como recorda carinhosamente o petiz a quem outrora dava boleia. Ele era colega do filho do Professor Eduardo Correia, para quem trabalhou nos primeiros anos de carreira. “Nem pensava eu que vinha para a Universidade, nem que aquele menino, que ia atrás no carro, vinha a ser Reitor e meu chefe superior”, confessa José Antunes, que começou a trabalhar na UC em 1970, com o então Reitor Gouveia Monteiro, tornando-se no primeiro motorista da Universidade. “Foi nesse ano que foram criados três lugares de motorista para as universidades da época, Coimbra, Lisboa e Porto”, recorda.

A desconfiança de Vasco Gonçalves


Ao longo de 40 anos, foi consecutivamente escolhido pelos últimos sete Reitores, e um interino, que fizeram a história recente da Universidade. Inclusivamente, “naquela situação mais difícil”, a transição do 24 para 25 de Abril, manteve a função. “Pé ligeiro, ouvido à escuta e boca calada” é o lema que aprendeu “com o Professor Eduardo Correia” e que lhe valeu a contínua confiança, que, ainda assim, foi questionada no braseiro da Revolução. Quando se proporcionavam encontros entre o Reitor e outras personalidades, José Antunes tinha por hábito sair do carro. Mas um dia, o Reitor Teixeira Ribeiro (Reitor da UC entre 1974 e 1976) diz-lhe: “Quando eu entender que deve sair, mando-o sair.” Durante um serviço em plena andança de Governos Provisórios, após o 25 de Abril, conduz o carro que leva o Reitor e o então Primeiro-ministro. Pára à sua porta e permanece dentro do automóvel. “Ficaram na conversa e eu fiquei no meu lugar. E o Vasco Gonçalves não estava a gostar muito e acusou qualquer coisa ao Teixeira Ribeiro. E ele respondeu: não, não! Eu aqui estou à vontade. Sei quem está a ouvir”, recorda.

De Mário Soares a Amália


Controla o volante e as melodias de viagem. Os reitores, “excepcionalmente, lá pediam” alguma música, mas”, normalmente davam-lhe quase sempre uma “certa liberdade” para escolher. O cansaço rendia alguns ao sono, “às vezes eram viagens inteiras a dormir”, enquanto José Antunes, em dias de agenda atribulada, não fazia caso dos limites de velocidade. “Isso, excedo quase sempre. Felizmente, tenho a dizer que em todos estes anos, não me lembro de ter pagado uma multa.” Sorte? “Sorte! É verdade”, admite.
Nas suas mãos estiveram também os destinos políticos da nação. “Conduzi o Mário Soares, o Durão Barroso”, vai recordando, “a mulher do Ramalho Eanes, a esposa do Mário Soares, a Baronesa Thyssen, que veio uma vez aqui com o marido e a Amália, que veio uma vez dar um espectáculo a Coimbra e o Reitor, na altura o Professor Rui Alarcão, cedeu-lhe o carro.” Não cantou, mas conversaram bastante e José Antunes mostrou-lhe a cidade dos estudantes. “Que algumas vezes o Reitor encarregava-me de ir mostrar Coimbra às pessoas. Sempre servi de cicerone”, diz, com orgulho. Há muitas estórias que José Antunes tem para contar. Talvez, um dia, publique as suas memórias. Mas alguns episódios não saem do carro. José Antunes fecha a porta e “fica tudo lá dentro!”


Por Dina Sebastião



40 anos como motorista da Reitoria da Universidade de Coimbra deram a José Antunes muitas estórias para contar, mas algumas ficam trancadas à chave dentro do carro. José Antunes acompanhou consecutivamente sete Reitores e um interino desde 1970. Começou por dar boleia ao "menino Seabrinha", e acabou a conduzir o Reitor Seabra Santos.

Veja a entrevista com José Antunes