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Tem a Palavra














Uma vida na UC


Novembro de 1971. Dia 4, se não erro, abriam as aulas no Departamento de Matemática, um pouco retardadas pela reestruturação da Faculdade de Ciências que dava então lugar à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Estava de luto a Academia. Não havia festividades estudantis. Os meus tempos livres eram repartidos pela pintura, pelo Coro Dom Pedro de Cristo, pela JUC (Juventude Universitária Católica) e pelas escolas de línguas. Não havia transportes públicos que conseguissem levar-me a tempo de umas actividades para as outras. Só mesmo os pés corriam ao meu ritmo!

E o Curso de Matemática? Bem, essa era a causa maior! E se ele era duro… Até ao fim do Bacharelato havia uma grande filtragem! Não é que depois nos facilitassem a vida mas, tínhamos já um tratamento mais personalizado (já sobrávamos tão poucos!…) que tornava o ambiente muito mais simpático.
Os meus 4.º e 5.º anos decorreram a um ritmo mais lento, dado que me casei, comecei a leccionar Matemática no Colégio da Rainha Santa Isabel, onde rapidamente passei a ocupar-me de 5 níveis por ano, dava explicações e liderava uma equipa de vendas directas. Quando acabei a defesa da Monografia − Novembro de 78 − já tinha uma linda menininha de meio ano à porta da sala, a bater palminhas!
Não tive jantares de curso, nem Queimas, não experimentei a boémia coimbrã. Mas só  esta Univer(c)idade me podia ter permitido no tempo de estudante uma vivência tão enriquecedora e feliz como senti e sinto que foi a minha!
Os amigos não compreendiam muito bem porquê toda aquela correria, para quê tantas actividades. Mas eu tinha sido sempre assim. Tinha muita energia e fazia tudo com imenso gosto. A arte é, para mim, um alimento essencial; aprender línguas dava-me um enorme prazer, proporcionava-me amigos pelo mundo fora, facilitava e enriquecia as digressões turísticas familiares. Mas não só. Quando, no meu 4.º ano, enveredei pela Estatística, dava o Departamento de Matemática um grande impulso a este ramo do saber, que já se afirmava no Centro de Matemática da Universidade de Coimbra – Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC). Mas a Estatística havia entrado na Península Ibérica na década de 70, justamente, pelo que muitos dos nossos docentes eram estrangeiros e chegavam a Coimbra sem falar português. Davam as aulas na sua própria língua (geralmente o francês ou o inglês) e nunca ninguém nos perguntou se queríamos. A bibliografia então, era completamente poliglota! Para mim era perfeitamente confortável e os amigos fotocopiavam os meus apontamentos e davam-nos a traduzir. Oh se as línguas me deram jeito!
Aos jovens que estejam a ler este meu testemunho, eu sugiro que reflictam se, no mundo global em que actualmente nos situamos, se pode viver conhecendo apenas a língua materna…

Quando me formei, abriu um concurso para docente de Elementos de Estatística Aplicada à Geografia na Faculdade de Letras. Uma recente reforma curricular tinha introduzido a nova disciplina no elenco obrigatório da Licenciatura em Geografia.  Professores meus mostraram-me o edital incentivando-me, concorri e ganhei o concurso. A burocracia demorou e apenas a 22 de Maio dei a primeira aula de um curso que, nesse ano, teve que decorrer em ritmo intensivo. Estava eu, nessa altura, já muito barriguda, de um belo rapaz que nasceu em Agosto!
Conferiu-me posse como Equiparada a Assistente, e dois anos mais tarde como Assistente, o Senhor Reitor Ferrer Correia.
Eu sempre tinha gostado de Geografia. A trabalhar em ligação com essa Área, procurava integrar-me o mais possível em tudo o que lhe dizia respeito, com o desejo de colocar a minha formação académica ao serviço daqueles a quem dedicava o meu dia-a-dia. Era aliciante! Comecei a investigar em Estatística Aplicada à Geografia e, sob orientação de professores da Université des Sciences et Techniques de Lille, comecei a preparar-me para o Doutoramento. Realizei alguns estágios naquela universidade, de onde ia trazendo novidades que punha em prática à medida que as ia publicando. Mais tarde, quando já antigos alunos eram meus colegas, chegámos, em conjunto, a realizar interessantes trabalhos interdisciplinares.
Temos sempre que ir compaginando a vida profissional com a vida pessoal e, nos momentos difíceis, foi no trabalho que encontrei alento. Tinha os anfiteatros cheios de alunos, alguns mais velhos do que eu. Mas ali estavam, como se de crianças se tratasse, prontos a receber o que, de bom ou de mau, eu tivesse para lhes dar. Assim, deixava os problemas do lado de fora da porta, enquanto dentro da aula imperava a responsabilidade do compromisso e o amor que aquela assembleia me inspirava. Quando saía, já me tinha nascido uma alma nova! Os meus alunos diziam que eu era mazita nas provas, mas não me acusavam de injusta. E sabiam que podiam contar comigo. Proporcionaram-me dez anos de imensa felicidade e realização profissional.
À medida que a minha investigação progredia, chegavam de Lille directrizes inovadoras. Por razões alheias à minha vontade, aos meus supervisores franceses e ao Instituto de Estudos Geográficos (IEG), vi-me forçada a mudar de tema e de orientação. Ainda tentei mas, nada me compensava do trabalho que tanto me entusiasmara e ficara para trás. Da Direcção do Pólo de Viseu da Universidade Católica, onde já dava aulas há vários anos, diziam-me “venha para cá definitivamente e faça o Doutoramento pela UCP”. Mas eu era chefe de família e o peso da responsabilidade obriga-nos, por vezes, a tomar rumos que não desejamos. Foi por isso que, em 1989, troquei a carreira docente universitária pela carreira técnica superior.

Não tenho palavras para descrever o sofrimento que me causou essa mudança


Talvez eu pudesse ter começado por aqui o meu relato porque (paradoxalmente) as duas dezenas de anos que se seguiram intensificaram muito a minha paixão pela Universidade de Coimbra mas, na realidade, todas as fases, complementarmente, edificaram esta ligação tão importante.
As etapas seguintes apelaram muitas vezes a toda a minha resiliência… Mas foi sempre claro para mim algo que só mais tarde acabei por ler em Kenneth Blanchard: “nem sempre podemos escolher o que temos de fazer, mas podemos sempre escolher a atitude com que o fazemos”.

Quando comecei a trabalhar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), vinda de outra Faculdade, senti-me estrangeira. Com o passar do tempo, e descobrindo que o paraíso somos nós que o construímos, já me parecia ter encontrado o meu mundo ou, pelo menos, o caminho para ele. De repente, o sentido da minha vida era fortemente abalado.
Ao mudar de carreira fui chamada a colaborar com o Conselho Directivo em funções de apoio à gestão da Faculdade. Assuntos dessa ordem, à excepção dos quatro anos ligada à Direcção do IEG, estavam, até então, longe dos meus interesses mas, empenhei-me em enfrentar a situação. Contudo, ainda em 89, e como uma luz ao fundo do túnel, surgia a oportunidade de ir trabalhar em Estatística na Comissão de Coordenação da Região Centro (CCRC). Enquanto aguardava com toda a ansiedade a minha mudança, nem dava conta que me envolvia cada vez mais nos assuntos da Faculdade, ao mesmo tempo que os superiores hierárquicos me pediam para ficar. E, quando chegou o momento de sair, apresentei-me na CCRC dizendo que já não podia aceitar, pois tinham-me feito sentir que a Faculdade precisava de mim.

Descobri que a vida não tem só um caminho e à minha frente abria-se um outro que eu podia tentar seguir.


Os primeiros tempos, vividos dentro da sala do Conselho Directivo, foram, desde logo, a grande descoberta do todo, imenso e complexo, que era a Faculdade de Letras. Foi só o capítulo introdutório de uma aprendizagem sem fim.

Agora podia começar a divagar sobre a diversidade de tarefas e funções que se me foram apresentando. Não o farei mas é difícil não recordar, pelo menos, algumas experiências, como o trabalho no âmbito da Profissionalização em Serviço, co-financiada pelo Fundo Social Europeu − primeira experiência da FLUC num programa de apoio comunitário.
A criação do Gabinete das Novas Acções, em Outubro de 1990, com a incumbência de apoiar o Conselho Directivo (CD), trouxe-me atribuições bastante diversificadas. Foi o tempo da Formação Inicial de Professores (Profissionalização em Serviço e Ramo de Formação Educacional), a participação da FLUC em programas nacionais e comunitários (PRODEP e outros), o apoio à Formação Avançada e à Investigação Científica em geral, a Estatística, a organização de eventos do CD e, mais tarde, a Avaliação do Ensino Superior.
“Como é que tu consegues estar constantemente a acumular novos conteúdos funcionais?” “já nem eu sei! Mas há áreas específicas que certamente nunca virão bater-me à porta, porque não tenho a menor apetência para elas − uma é a das publicações e afins…”
E já as surpresas vinham a caminho! O Gabinete das Novas Acções dava lugar ao Gabinete de Projectos e Inovação − Publicações (GPI), um dois em um ramificado visto que o Gabinete de Publicações agregava o Gabinete de Desenho e a Secção de Textos, esta, por sua vez com tarefas desde a reprografia à edição e ao restauro! Novas equipas, novo público-alvo, novos equipamentos… até novo vocabulário! As anteriores grandes reuniões nacionais e comunitárias davam lugar aos encontros com tipografias e fornecedores variados. Revitalizavam-se a Biblos.Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que recuperava a primeira série e iniciava a segunda, bem como as Colecções do Conselho Directivo, estas agora totalmente editadas na Casa.

Em 2001/2002, a Faculdade de Letras elaborava o seu Plano Estratégico, que trazia consigo uma grande reestruturação dos cursos. E logo nascia o Observatório Estatístico, com os inquéritos de opinião e respectivos relatórios… “Isto não é para acumular com todo o resto. Mais dia, menos dia, ficas só com o Observatório”…
Mas o facto é que eu continuava absorvida com a imagem da FLUC, a comunicação, a publicidade nos media, as conferências para divulgação da oferta formativa e a produção de novos materiais e… sempre seguindo: a gestão das visitas às escolas e outras mostras de ensino bem como a representação nesses eventos, as grandes feiras, a recepção de pré-universitários, psicólogos, pais…
Em 2009, com os Estatutos da Faculdade de Letras, era o Observatório que se mudava, enquanto o GPI dava lugar ao Gabinete de Comunicação e Imagem.

Grupo de Comunicação da Universidade de Coimbra

Mas voltemos a 2004/2005, quando o Senhor Reitor fazia a apresentação do Gabinete de Comunicação e Identidade da Reitoria (GCI) às Unidades Orgânicas da Universidade. Ficar como interlocutora da FLUC junto desta estrutura veio a permitir-me experimentar a melhor marca que os últimos anos de carreira na UC poderiam ter-me deixado. E foi o estreitar de laços institucionais com a Reitoria, que sempre me dispensara o melhor acolhimento. O GCI tornou-se uma estrutura preciosa e acabou por motivar a formação de uma outra que tive o privilégio de integrar desde a sua fundação e que, sem falsa modéstia, também se tem revelado verdadeiramente estratégica − o Grupo de Comunicação da UC. Formado por um representante de cada Faculdade e liderado pelo Coordenador do GCI em representação da Reitoria, este Grupo começou a reunir regularmente na Primavera de 2007. Não tinha um nome mas um projecto comum: dar a conhecer a Universidade de Coimbra, externa e internamente, em todas as suas vertentes de excelência, e reforçar condignamente a sua imagem de marca. Logo sentimos a necessidade da presença dos estudantes e o Coordenador das Relações Externas da DG/AAC foi convidado a representá-los.
O grupo, formado já pelos dez parceiros, passou a intitular-se Grupo de Comunicação da UC. De facto, comunicar é o que tem sido feito, de modo coeso e coordenado, quer em termos do todo, quer cada um na parte que lhe compete representar, seja ela o núcleo central da UC, seja cada uma das oito Faculdades, seja a Associação Académica. Desde logo, foi manifesta a vontade de mostrarmos a UC como um todo remoçado e coeso em vez de um somatório de partes individualistas. Não se nos afigurou tarefa fácil, mas os ideais não conhecem impossíveis e às utopias chamam-lhes metas. Assim, foi com esforço muito concertado e grande coesão que, desde 2008, passámos a apresentar-nos como Universidade de Coimbra nos grandes certames como a Qualific@, na Exponor, e levámos a cabo, já em 2011, a nossa primeira edição da Somos UC − mostra de ensino, inovação e serviços da Universidade de Coimbra.
O antigo GCI - Gabinete de Comunicação e Identidade, agora Divisão de Identidade, Imagem e Comunicação – DIIC, continua a liderar o Grupo de Comunicação da UC e a nossa setecentenária Universidade, que parecia só exteriormente ser reconhecida pelo prestígio de que era merecedora, tem agora melhor auto-estima e ganhou uma expressão crescente nas páginas Web, na UCV, no iTunes U, no Twitter, no Facebook.
Parte importante dessa preciosa marca que me deixaram estes últimos anos, é a Rede UC, que alastra pelo mundo fora através dos seus já vinte e muitos milhares de membros, de que tenho o gosto de ser o n.º 631, e que se tornou uma presença viva e interactiva dos inumeráveis antigos estudantes da Universidade de Coimbra.
Outro privilégio foi a oportunidade de colaborar com a Associação Académica de Coimbra, não apenas uma das mais antigas e a mais emblemática do mundo, mas a minha Academia de que, afinal, tão pouco conhecia como escola incontornável que é, de civismo e de vida.

“Last but not the least”  

Os Amigos! Aqueles que fizeram parte integrante do meu dia-a-dia na UC e que espero venham a partilhar a nova etapa da minha vida. Aqueles sem os quais não teria havido com que preencher as linhas que estão para trás.
Os que ficaram dos meus tempos de estudante. Os meus Alunos − um mar de rosas sem espinhos. Os antigos Colegas do IEG. Os que integraram as minhas equipas de trabalho na minha segunda carreira − que me aturaram, me apoiaram, a par comigo se esforçaram, comigo riram e, de algum modo, me adoptaram. A incomparável e inesquecível tertúlia da hora do almoço. A “Reserva Especial de 54”. O inexcedível Grupo de Comunicação e a DIIC − a todos, “as minhas sempre Calorosas Saudações Académicas”! Todos os Amigos, quer de dentro da Faculdade, quer todos os que estão disseminados pela Universidade.
Uma referência muito especial aos Professores mais antigos, da FLUC, da FCTUC e não só, àqueles que já não se encontram entre nós e àqueles que tenho ainda a felicidade e o privilégio de poder saudar, partilhando a Estima com que sempre me distinguiram e me é tão cara!
Em suma, AMIGOS − aqueles sem os quais não se vive e nada deixa memória.

Por aqui me fico, neste testemunho apaixonado de muitos anos nesta “Universidade: um passado com futuro”, invocando o título do Volume VII da segunda série da Biblos-Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, título esse que, nas palavras do seu Reitor Fernando Seabra Santos é um comprometimento e bem podia ter sido, por paradoxal ou evidente, Universidade: um futuro com passado.

Aposentada desde 31 de Dezembro de 2010, frequentemente ouço a pergunta: “que tal te sentes, livre e do lado de fora?” Livre é inegável e mesmo saboroso, com tantas coisas por fazer e há tanto tempo em lista de espera. Do lado de fora é claro: dei o meu lugar a outros. Mas se é certo que a minha decisão me posiciona legalmente do lado de fora, ela não me traz distanciamento desta UC que continua a morar dentro de mim.

Gabriela Salgueiro