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Tem a Palavra














Para evitar desequilibrar o tempo a favor do passado

Tenho algumas queixas sérias a fazer aos deuses mas certamente não têm a ver com prémios. Posso até dizer que, neste domínio, têm sido generosos comigo. Não falando de prémios anteriores, reconheço que nos últimos três meses houve uma conjunção auspiciosa dos astros a meu favor: Prémio México de Ciencia y Tecnología 2010, Prémio Fundación Xavier de Salas, Harry J. Kalven Jr. 2011 Prize da Law and Society Association dos EUA, um Advanced Grant do European Research Council (ERC), no montante de 2,4 milhões de euros, e finalmente a criação da Cátedra Boaventura de Sousa Santos na Faculdade de Economia. Com excepção do último, todos os outros representam reconhecimento internacional, e talvez por isso tenham um sabor especial para mim.

A minha vida científica tem-se caracterizado por um alto nível de internacionalização, e é no plano internacional que sempre tenho procurado medir o merecimento do meu trabalho. Cedo me apercebi de que o facto de ser um intelectual com intervenção pública, comprometido com os problemas sociais do país e do mundo, impediria muitos de avaliar o meu trabalho científico sem preconceitos, sobretudo tendo em mente a pequenez e a mediocridade geral do meio intelectual português. Mas procurei sempre que o meu trabalho contribuísse para pôr as ciências sociais praticadas em Portugal no mapa internacional, uma tarefa difícil dado que, devido à longa noite do fascismo, começámos o século XX quase no seu final. E também sempre entendi que a tarefa devia ser colectiva. Daí todo o esforço que dediquei à criação do Centro de Estudos Sociais, hoje um centro de investigação de excelência, conhecido em todo o mundo. Em face disto, o facto de ter sido o primeiro português a receber os prémios mexicano, espanhol e norte-americano, e o primeiro cientista social português a receber o Advanced Grant do ERC, confere a estas distinções um significado especial para mim.

Cada um dos reconhecimentos dá testemunho de uma dimensão específica do meu trabalho. Tanto o prémio mexicano como o prémio espanhol relevam do meu trabalho de investigação ao longo de várias décadas na América Latina, primeiro no Brasil, depois na Colômbia e finalmente na Bolívia e no Equador, e com intervenções pontuais em muitos outros países, da Argentina a Cuba, da Costa Rica à Venezuela, do Peru ao México. Os membros dos júris viram no meu trabalho um factor de consolidação da comunidade científico-social ibero-americana. A este respeito, o prémio mexicano tem um valor especial, já que foi pela primeira vez atribuído a um cientista social. Dada a grande visibilidade do prémio, os meus colegas latino-americanos reviram-se nele e partilharam a alegria comigo. É que, por via do meu trabalho, foi dado reconhecimento às ciências sociais, tão frequentemente consideradas as parentes pobres do sistema científico. Tanto o prémio mexicano como o prémio espanhol salientam o meu contributo para a consolidação das ciências sociais e, curiosamente, atribuem um valor especial ao facto de eu me solidarizar com as classes e grupos sociais dominados, oprimidos, discriminados, e de pôr o meu trabalho científico ao serviço da luta por um mundo mais justo e mais digno da humanidade no seu conjunto. Digo “curiosamente” por ironia. É que enquanto os membros dos júris vêem no meu compromisso social e no modo como o articulo com árduo labor científico um motivo de elogio, não têm sido poucas as vezes em que ele tem sido motivo de crítica no meio científico português, hoje dominado por epistemologias conservadoras que separam radicalmente o labor científico da prática social e confundem objectividade científica com suposta neutralidade social.

O prémio norte-americano releva do meu trabalho de décadas numa das áreas da sociologia, a sociologia do direito e da justiça, e é expressão do reconhecimento que ele tem tido na comunidade científica anglo-saxónica. Trata-se, como é sabido, de uma comunidade científica altamente desenvolvida, competitiva e muito auto-centrada, pouco inclinada a dar atenção às contribuições de cientistas sociais que intervêm nela a partir de experiências que extravasam do mundo anglo-saxónico.

A concessão do Advanced Grant para realizar um vasto projecto de investigação nos próximos cinco anos, intitulado “Strange Mirrors, Unsuspected Lessons: Leading Europe to a new way of sharing the world experiences – ALICE”, é para mim reveladora da mudança dos tempos na Europa. A Europa passou vários séculos a ensinar ao mundo a excelência da sua cultura, da sua religião e das suas instituições. Sabemos que foi muitas vezes um ensino imposto e não solicitado, já que teve lugar no âmbito do projecto colonial. Este enraizado “hábito histórico” tornou a Europa pouco disponível para aprender com a experiência dos países extra-europeus, muitos deles colónias da Europa que, depois, já países independentes das antigas potências coloniais, seguiram trajectos históricos próprios. Apercebi-me há muito de que a Europa tinha toda a vantagem em libertar-se deste hábito e criar mais disponibilidade para aprender com esse vasto mundo onde tem ocorrido tanta inovação social. A ideia de realizar um projecto de investigação que valorizasse a diversidade das experiências sociais, económicas, políticas culturais e institucionais do mundo e desse a conhecer na Europa e no Norte global o património de inovação e criatividade presente em muitas dessas experiências ocorreu-me no final da década de 1990. Nessa altura, não era imaginável que as instituições de financiamento de investigação europeias estivessem interessadas em tal temática. Foi uma fundação norte-americana, a Fundação MacArthur, que me financiou o projecto intitulado “Reinventar a Emancipação Social”, cujos resultados foram publicados em seis livros, estando no prelo o sétimo e último. Doze anos mais tarde, concorri ao ERC com um projecto ainda mais amplo e ambicioso, e não posso esconder a alegria por ele ter sido aprovado. Penso que a aprovação representa um sinal dos tempos. No início da segunda década do século XXI, a Europa atravessa uma crise profunda que, mais que económica ou financeira, é moral e civilizacional. Instala-se um clima de exaustão ante desafios para os quais as soluções escasseiam e, com ele, a descrença nas ideias e princípios que durante muito tempo foram tidos por verdades eternas e de superioridade inquestionável. É neste contexto que talvez se esteja a gerar a disponibilidade para observar o resto do mundo e as soluções que vai dando às suas crises com mais curiosidade e menos desprezo, com mais humildade e menos arrogância.

Finalmente, a criação da Cátedra Boaventura de Sousa Santos pela Faculdade de Economia merece-me um carinho muito especial. Fui um dos fundadores da Faculdade e dediquei-lhe muitos anos de vida. Isso não me dá qualquer privilégio especial. Aliás, a experiência diz-me que as instituições tendem a não ser gratas a quem trabalhou por elas, e talvez seja assim que a sociedade progride com mais agilidade. Mas, como não há regra sem excepção, sensibiliza-me que esta última me tenha cabido. Espero que a Cátedra, que no seu tipo é uma iniciativa inédita em Portugal, contribua para trazer à Faculdade de Economia, ao Centro de Estudos Sociais e à Universidade professores e investigadores nacionais e internacionais interessados na renovação das ciências sociais e no aprofundamento da sua incontornável missão cívica.

Os prémios e os reconhecimentos metem medo porque desequilibram os tempos humanos a favor do passado. Estou a tentar esconjurar tal medo trabalhando cada vez mais e fazendo dos prémios e reconhecimentos um incentivo e uma exigência adicionais a continuar no caminho que tenho vindo a trilhar.


Boaventura de Sousa Santos
Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
Professor Jubilado da Faculdade de Economia