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Navegar é Preciso, Viver não é Preciso?

Ou “Navigare necesse, vivere non est necesse”… A expressão usada por General Romano Pompeu, que foi mais tarde recriada por nomes como Fernando Pessoa ou Chico Buarque, dá agora o mote para a XIV Semana Cultural da Universidade de Coimbra (ver reportagem da UCV, ao lado).

A razão do tema é simples: “foi uma conjunção de fatores quase cósmica. Por um lado a celebração do ano de Portugal/Brasil, Brasil/Portugal: é interessante ver a relação dessa expressão entre Portugal e o Brasil, ela será mais conhecida no presente pela divulgação que teve pela música do Caetano Veloso – «Os Argonautas» - em que o refrão é repetido exaustivamente até se tornar quase uma interrogação, mas a frase é também título de um poema de Fernando Pessoa – «Navegar é preciso” – em que se exorta a obra acima do autor; mas a origem longínqua situa-se também na Europa, no ano primeiro em que de acordo com os registos de Plutarco, o General Pompeu teria dito aos seus marinheiros, “navegar é preciso, viver não é preciso”, empurrando-os para a aventura. E de facto num momento em que a luta pela sobrevivência quase se torna tão decisiva, dizer que se calhar devemos ousar, pensar, ir um bocadinho mais longe, pode ser uma provocação; é também uma provocação da contemporaneidade, na medida em que este navegar também pode ser lido como um navegar na internet, por exemplo, em que se fala tanto de o viver virtual e do viver real, do isolamento das pessoas, com encontros que são na internet e que são virtuais, através das redes sociais, deixando muitas vezes o contacto direto, físico, dos sentidos. Portanto a interrogação: navegar é preciso; e viver, não é preciso?”, começa por dizer Clara Almeida Santos, vice-reitora da Universidade de Coimbra (UC). E continua: “Tem uma série de leituras interessantes que vão ser descodificadas. Algumas descodificações nos eventos, outras noutras iniciativas, mas achamos que era suficientemente aliciante para desafiarem essas leituras”.

A grande novidade desta edição é mesmo a duração do evento, que este ano se prolonga por quatro meses, como refere: “a principal novidade desta semana cultural é que se trata de uma semana cultural com quatro meses. A semana cultural já não vinha sendo exatamente uma semana, porque havia alguns eventos que se prolongavam no tempo, mas devido ao grande número de iniciativas, resolvemos, de facto, estender e dilatar mais permitindo assim às pessoas – não sobrepondo os eventos – poder assistir a mais iniciativas”. Mas a extensão desta Semana Cultural estabelece ainda uma ligação simbólica entre a instituição e a cidade. “E tem também um carácter simbólico – este alargamento – já que a semana cultural se inicia como sempre a 1 de março, dia da universidade, dia do seu fundador D. Dinis. E termina a 4 de julho dia da cidade e dia da padroeira de Coimbra, Rainha Santa Isabel, que por acaso era mulher de D. Dinis. Portanto há aqui um casamento simbólico entre universidade e cidade, que é de alguma maneira traduzido nas figuras de D. Dinis, fundador da universidade e a Rainha Santa Isabel”, explica Clara Almeida Santos.

Ao longo dos quatro meses de duração da semana cultural são muitas as iniciativas agendadas, entre música, cinema, teatro, conferências ou exposições, que contará na sua primeira semana com eventos de grande relevância. Logo a 1 de março, a Semana Cultural tem início com a sessão comemorativa dos 722 anos da Universidade de Coimbra, que vai ainda contar com a entrega do Prémio da Universidade de Coimbra 2012 a António Pinho Vargas e com uma conferência do mesmo. Ainda a 1 de março vai ter lugar o concerto “Lusofalantes”, no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), numa apresentação musical que reúne artistas do Brasil, Moçambique e Portugal. Estes são apenas alguns exemplos de uma extensa programação – este ano coordenada pela nova direção artística e de produção do TAGV - que entre março e julho de 2012 pretende fazer da XIV Semana Cultural da UC um evento marcante.

Semana Cultura liga a UC à cidade… e ao Brasil

2012 celebra também o ano de Portugal no Brasil e do Brasil em Portugal, uma efeméride que acabou por estar também patente na expressão que marca o tema desta Semana Cultural. “Quando começamos a pensar a Semana Cultural, de facto tínhamos a indicação que 2012 ia ser o ano de comemoração do ano de Portugal no Brasil e do Brasil em Portugal. Acontece que (…) as comemorações só vão ter início em Setembro. Portanto nós antecipamos de alguma maneira essa celebração dessa ponte atlântica (…) vai ter desde logo nos eventos que marcam o próprio dia 1, Dia da Universidade, em que há a inauguração de uma exposição no piso intermédio da Biblioteca Joanina que se chama “A Universidade e o Brasil” (…) em que se mostra os brasileiros que foram importantes e absolutamente decisivos na história da Universidade”, começa por explicar a vice-reitora. E continua: “Muitas vezes esta história é contada ao contrário, como a Universidade foi importante para o Brasil; aqui temos precisamente uma espécie de inversão dessa lógica com a memória dos brasileiros que marcaram decisivamente a Universidade de Coimbra. À noite o espetáculo de abertura da semana cultural é um espetáculo que se chama “Lusofalantes”, que foi produzido por uma artista brasileira – Elisa Rodrigues – e que tem a colaboração de mais de uma dezena de músicos brasileiros, além do português JP Simões e do moçambicano Costa Neto. Portanto, é um encontro de cultura musical que vai ter lugar no Gil Vicente, evocando também esse abraço lusófono para utilizar a expressão que já foi amplamente divulgada”.

Mas a oferta não se fica por aqui. Com mais de 80 eventos agendados, a Semana Cultural da Universidade de Coimbra tem uma programação diversificada que pretende ir ao encontro dos mais variados interesses. “Eu acho que não há uma perspetiva única, acho que é tão diversa a programação desta Semana Cultural, que vai ter de certeza um ponto de interesse para toda a gente, quer seja na área do espetáculo, das exposições, da própria edição da revista Via Latina, também vai ter como sempre o tema da Semana Cultural – feita pela Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra”, refere Clara Almeida Santos. “Lendo, indo ao teatro, assistindo a um espetáculo, a uma exposição, haverá com certeza alguma coisa para toda a gente e espero que de facto esta Semana Cultural seja cada vez mais um momento que a cidade espera e aguarda. E o facto de também termos tido tantas propostas de iniciativas mostra que Coimbra não pode passar sem a Semana Cultural da Universidade”, conclui.

Já sabe, não perca a XIV Semana Cultural da UC. Os eventos são muitos e vão ter lugar em vários pontos da cidade. Para saber tudo o que a Semana Cultural tem para lhe oferecer, basta que aceda ao endereço www.uc.pt/semanacultural.

Por Júlia de Sousa



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Reportagem UCV