Na e Pr'a Lá da UC
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![]() O contador de histórias da UCTodos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos… para portugueses, espanhóis, franceses, italianos, ingleses, japoneses ou de qualquer outra nacionalidade… A frequência ou a língua são irrelevantes, mas a verdade é, que seja qual for a cadência ou forma de expressão, a história da velha Universidade de Coimbra (UC) é contada e recontada e os seus espaços mais emblemáticos são revelados aos muitos turistas que visitam a UC. E há mais de duas décadas que Carlos Serra dá voz à história da Universidade (ver reportagem da UCV, ao lado). Foi ainda antes de terminar os estudos que Carlos Serra iniciou a sua atividade como guia turístico na UC, uma ligação que, como o próprio diz, vai mais além da profissão. “Eu comecei a trabalhar aqui na Reitoria antes mesmo de concluir os meus estudos universitários”, começa por contar. “Eu tinha feito uma formação – tinha um curso de guia intérprete – e comecei a trabalhar aqui como guia intérprete quando era ainda estudante. Depois quando concluí a licenciatura em história, continuei, tive a sorte de continuar a trabalhar nas funções que já vinha desempenhando com carácter furtuito, portanto quando era necessário já acompanhava visitas na universidade, e assim continuei até agora”, diz. Se não fosse guia na UC, provavelmente estaria ligado à investigação histórica, mas isso é algo que de resto já vai fazendo, já que a sua curiosidade natural não lhe permite ficar sem repostas às perguntas que lhe vão surgindo. “Eu sempre tive algum pendor e alguma necessidade de fazer alguma investigação, porque, naturalmente, antes de uma pessoa procurar transmitir qualquer coisa a outros, tem de adquirir esses conhecimentos, e muitas vezes isso exige que a pessoa procure respostas que não encontra facilmente, de maneira que sempre tive essa curiosidade e tive também sempre algum gosto por procurar descobrir um pouco mais. De modo que, ainda hoje acalento um pouco essa ambição de dedicar algum tempo a fazer alguma investigação. Sempre gostei de encontrar respostas para às perguntas que eu próprio me colocava acerca da realidade e acerca do passado, do que está por detrás da realidade que vemos hoje”, explica. Com a história da UC na ponta da língua, Carlos Serra conhece e revela todos os cantos da velha universidade e respetivas histórias, pelos quais nutre uma clara afeição e confessa mesmo que trabalhar na UC tem para ele um “significado muito particular”, por ter “uma ligação afetiva a esta instituição”. “Eu tenho a sorte de estar ligado também por laços afetivos em relação à própria instituição em que trabalho e eu considero que é qualquer coisa de muito bom”, acrescenta.
Seja mais ou menos formal, a história chega a todos
Ao longo de mais de duas décadas de vida como guia, Carlos Serra conta já com muitas caminhadas pelos cantos da Universidade. Quando lhe pedimos para escolher o espaço que mais o fascina, hesita e diz que gosta de todos os espaços da UC, mas acaba por revelar que aquele “onde por vezes não consigo deixar de ter uma reação um pouco emocional é a prisão”, por recordar os acontecimentos que ali tiveram lugar e “histórias de vida um pouco complicadas de pessoas que tiveram experiências um pouco no limite… e por vezes não consigo falar disso sem me emocionar”. “Eu tento manter uma atitude um pouco neutra, mas a verdade é que por vezes não consigo deixar de transparecer a minha própria emoção”, conclui. Cada visita é única e requer uma preparação como explica: “temos que ter sempre alguma preocupação ou alguma capacidade de nos colocarmos do lado da pessoa para quem estamos a falar e procurarmos um discurso que seja o mais adequado possível às circunstâncias, muitas vezes uma visita de estado, por exemplo, é uma visita que se reveste de um certo formalismo, vamos dizer assim, há as questões de protocolo e outras até de segurança”. “O que não quer dizer que não possa haver por vezes até momentos de cumplicidade”, refere e recorda a visita de Pierre Mauroy, antigo Primeiro-Ministro francês, “que em princípio encaixaria nessa categoria das visitas formais – naturalmente estas pessoas vem acompanhadas por uma comitiva e por elementos de segurança (…) – mas a verdade é que a determinada altura ele pôs uma questão que nos colocou a falar a um nível muito diferente, quase de uma certa intimidade. Porque este Primeiro-Ministro francês vivia numa casa onde tinha por porteira, uma emigrante portuguesa e então a determinada altura ele suscitou a questão: queria falar à sua porteira, portuguesa, da sua vinda a Portugal e dum rei português, e então colocou a questão de que rei é que ele havia de falar (…) e foi interessantíssimo ver a forma como as diversas pessoas que acompanhavam essa figura da parte portuguesa responderam, ou deram a sua resposta a essa pergunta. Cada pessoa escolheu o rei que lhe parecia mais indicado sugerir, para provocar a tal impressão na porteira portuguesa do senhor Primeiro-Ministro”. Às questões que lhe vão sendo colocadas durante as visitas, Carlos Serra gosta de dar sempre uma resposta, mesmo que essa chegue ao visitante posteriormente à sua passagem pela Universidade. “Eu tenho por hábito de quando acabo uma explicação, colocar-me sempre ao dispor das pessoas para responder às perguntas que queiram fazer e por vezes aparecem perguntas a que não é fácil responder e enfim, a pessoa tenta dar a melhor resposta possível nas circunstâncias, mas evidentemente por vezes pode – não é vergonha nenhuma – eventualmente admitir que não tem uma resposta cabal para a pergunta que lhe fazem e nesse caso a pessoa pode (…) procurar a resposta e depois fazer chegar a resposta à pessoa, se for caso disso”. Mas será que a Universidade ainda guarda muitos segredos por contar? “Ainda tem alguns segredos… ainda tem muitos segredos, uns reveláveis outros talvez não tanto, mas ainda tem alguns”, diz com um sorriso. Mais do que um guia, Carlos Serra pode também considerar-se um guardador de segredos da UC… se esses segredos podem ou não ser revelados, isso já é outra história. Por Júlia de Sousa | ![]() | ![]() |
















