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“Manuel Jardim: Memória de um percurso inacabado”

Sinto duas grandes necessidades: ou a de me tornar alguma coisa na memória dos homens, ou a de apagar da recordação de todos. [...]”

- Manuel Jardim (Setembro, 1906)

“[...]. Dizem em Portugal que não faço nada, mas, como tu sabes, quando se procura uma forma, quando se procura um caminho individual, sem que nos enganemos, nada nos satisfaz. Não perdi a coragem nem a confiança em mim mesmo, [...] não sou rotineiro, não quero ser banal. [...]”

-Manuel Jardim (Outubro, 1910)

(excertos retirados de “A vida do pintor Manuel Jardim”, Vol. II, Henrique Vilhena)

“Manuel Jardim é de facto um pintor da primeira geração do Modernismo português”. É desta forma que Pedro Miguel Ferrão, coordenador da exposição «Manuel Jardim: Memória de um percurso inacabado», patente no Museu Nacional Machado de Castro, define o pintor.

100 anos após a primeira exposição do quadro da “Le déjeuner”, no Salon de Paris, a exposição homenageia assim a vida e obra de um um dos menos conhecidos pintores do primeiro modernismo português, que viu a sua vida moldada e condicionada não só pela ascendência familiar e o ambiente social, mas também pela doença que cedo lhe ceifou a vida.

“Le déjeuner”, assume-se como o “trabalho mais conhecido e que o poderia ou não lançar enquanto artista, numa carreira que ele tentou logo de muito cedo talhar em Paris”, afirma Pedro Miguel Ferrão. A exposição criada em torno desta pintura inclui, no entanto, um total de 424 peças entre desenhos, pinturas a óleo e outros formatos.

Ao percorrer a exposição é impossível não notar as influências do modernismo francês e em particular de Manet, bem como a importância do feminino e do auto-retrato na obra de Manuel Jardim.

Fugir para progredir

Considerado como um espírito independente e insatisfeito, a obra de Manuel Jardim não se cumpriu por inteiro. Sentindo-se aprisionado num cenário pouco propício à novidade artística, Manuel Jardim acabou por partir para Paris, onde frequentou a Academia Julian e a Escola de Belas Artes parisiense, que marcaram fortemente a sua expressão artística e onde conviveu com alguns dos grandes nomes da arte francesa.

Muito do que se conhece sobre a vida e obra deste artista deve-se a Henrique de Vilhena, primo e amigo de Manuel Jardim, que recolheu o espólio deixado pelo artista e, como diz Pedro Miguel Ferrão, “salvou do esquecimento toda a obra” do pintor português, cuja vontade seria que no final da sua vida, caso não tivesse obtido reconhecimento pelo seu trabalho, pretendia que a “obra também desaparecesse com ele”. O coordenador da exposição, explica que Manuel Jardim terá pedido à esposa que “no final, como não tinha sido reconhecido em vida, que queimasse toda a obra”.

Contemporâneo de outros pintores como Guilherme de Santa-Rita, Almada Negreiros ou Amadeo de Souza Cardoso, que formam o “núcleo mais conhecido dos grandes pintores do Primeiro Modernismo português”, Manuel Jardim apesar de integrar este leque de artistas, manteve-se sempre “muito independente e pouco reconhecido”.

Nas palavras de Henrique de Vilhena, em «A vida do pintor Manuel Jardim» (vol. II), “[...], a obra de Jardim conserva uma unidade essencial, uma feição acentuada própria, um ar comum, familiar, que une as espécies. [...], produziu uma obra que de facto só se traduz por si mesma e pelo nome do seu autor, e não, de modo algum, pela mera indicação de qualquer ou de quaisquer influências que recebeu”.

100 anos depois: o reconhecimento em forma de exposição e livro

A exposição «Manuel Jardim: Memória de um percurso inacabado» é uma iniciativa do Museu Nacional Machado de Castro em parceria com a Câmara Municipal de Montemor-o-Velho. Inicialmente a exposição estava dividida em dois núcleos: um em Coimbra, no Museu, e outro na Galeria Municipal de Montemor-o-Velho, onde se procurou ”, falar de toda a obra e retirar do esquecimento a figura de Manuel Jardim, contextualizando o pintor no movimento modernista e ressalvando o contributo que deixou. Atualmente apenas o núcleo de Coimbra mantém a exposição, que vai estar patente até 6 de novembro. Também nesta data, 6 de novembro, está previsto o lançamento de uma obra sobre a vida de Manuel Jardim, para assinalar os 127 anos do nascimento do pintor. 

Por Júlia de Sousa



Quem é Manuel Jardim?

“ […] Quero libertar-me em breve das convenções da escola. Mas antes disso hei-de apoderar-me de todas as convenções. Fugir a todas as falsas convenções e mostrar o meu temperamento tal como é, eis o que ambiciono. Enquanto não obtiver isso, serei um pintor vulgar […]”. (Manuel Jardim, Outubro de 1906)

Nascido a 6 de novembro 1884, em Montemor-o-Velho, na localidade Meãs-do-Campo, Manuel Jardim é considerado um dos pintores renovadores da arte em Portugal.

Frequentou a Escola de Belas-Artes de Lisboa entre 1903 e 1905, ano em que abandonou o curso e partiu para Paris para ingressar na Academie Julian, onde foi discípulo Jean-Paul Laurens.

Em 1911 expôs pela primeira vez, no Salon Parisiense, o seu quadro “Le déjeuner”, onde são notórias as influências do modernismo francês e Manet. A pintura foi exposta oito anos mais tarde em Portugal, na Sociedade Nacional de Belas-Artes (SNBA), mas foi mal acolhido pela crítica.

O regresso a Portugal deu-se por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Já em Portugal tentou criar uma sociedade portuguesa de arte moderna, juntamente com José Pacheco. Além das pinturas, Manuel Jardim realizou ainda trabalhos de ilustração para a revista Contemporânea (entre 1922 e 1926).

Ainda em 1920, tentou regressar a Paris, mas a tuberculose impediu-o, tendo regressado no ano seguinte. Faleceu em Lisboa, em 1923.