a carregar...

Na e Pr'a Lá da UC

sem titulo






 


  


As “artitudes” e os “obgestos” de António Barros

Mais do que artista, António Barros é um “artor”, aquele que, nas palavras de Lambert, tem como premissas “libertar a arte do artístico e libertar os objetos do quotidiano. Colocar os objetos sob a luz da paixão, fazendo com que se evadam da sua situação real-paixão. Propor aos objetos uma vida nova, fazendo-os passar do reino da necessidade para o reino da liberdade (liberdade = imaginário no ato).” Fazem parte dos projetos de António Barros e do seu vocabulário recorrente a “Artitude” e os “Obgestos”, numa alusão à arte como interventora, como atitude social e desafiadora de reflexões, e aos objetos como dialogantes com o público. 

Palavras desprovidas do seu sentido textual que renovam a sua dimensão semântica quando relidas num contexto espacial ou agregadas a objetos, têm destacado António Barros como um dos expoentes da poesia experimental portuguesa e da arte contemporânea no país. O seu cunho artístico não supõe uma hegemonia da palavra sobre o trabalho plástico, ou vice versa, mas antes uma diluição de fronteiras, que convoca o público a libertar a palavra do seu significado textual e o objeto da sua funcionalidade quotidiana, ponto de partida para uma desconstrução do mundo, para uma reflexão que faz a ponte entre arte e vida.

Assim tem sido a carreira artística de António Barros, o outro lado deste colaborador da Universidade de Coimbra (diretor de imagem da Imprensa da Universidade de Coimbra, exercendo ainda funções em assessoria de imagem na Divisão de Identidade, Imagem e Comunicação).

O poema visual Escravos (1977) – premiado, em 1984, no Concurso Nacional de Poesia 10 Anos do 25 de Abril, com um júri composto por Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Alegre, David Mourão Ferreira, José Carlos de Vasconcelos e Urbano Tavares Rodrigues – é disso um paradigma, tendo-se tornado “num dos textos mais celebrados e estudados no domínio da poesia experimental.”[*]

Neste poema, encontramos uma desagregação da palavra “escravos” e, na sua leitura visual, uma dimensão dinâmica do seu significado. Numa coluna, com a repetição da palavra escravos, observa-se o apagamento progressivo da primeira sílaba, conotando o sentido libertador da Revolução 25 de Abril. A primeira sílaba reaparece subtilmente, fazendo reemergir a palavra “escravos” sobre “cravos”. Uma semântica que acompanha a cronologia portuguesa. Uma só palavra em mutação espacial encerra em si uma narrativa histórica.

Escravos é uma das obras de Barros que está incluída na coleção do Museu de Serralves, assim como na do Museu Vostell, em Malpartida, Espanha, e foi uma das que suscitou a atenção de Wolf Vostell, artista destacado do movimento FLUXUS, que a aprecia em Coimbra (numa visita à exposição Poesia Visual, em 1979) convidando o jovem António Barros a trabalhar com o alemão em Leverkusen, integrando o Vostell Fluxus Zug

A obra artística de António Barros tem sido manifesto dessa familiaridade com o movimento FLUXUS, que teve particular expressão nas décadas de 60 e 70, na América, Europa e Ásia, negando a finalidade mercantil da arte, assim como as fronteiras entre as diversas expressões artísticas.

À linguagem textual está subjacente uma plasticidade da obra, como em TrAdição/Traição, também incluída na coleção do Museu Serralves. Em suporte fotográfico, subverte-se a conotação social do objeto gravata, através de uma coluna de texto, em que a palavra “adição” passa a “tradição”, para, com o desaparecimento do “d”, culminar em “traição”. Isabel Santa Clara lê nesta obra, “o percurso de uma ascensão social construída por sucessivo acrescentamento a partir de uma traição inicial.”[**]

Outros trabalhos mais recentes, como a trilogia de instalações Alma, (2001), Frame (2003) e Florigen (2005) - criadas para a bienal artística What is Watt?, organizada pelos Museu da Eletricidade Casa da Luz e Museu de Arte Contemporânea Fortaleza de São Tiago, no Funchal - oferecem uma maior relação com o campo das artes plásticas, em mais um ensaio de desobediência a fronteiras e disciplinas artísticas, como já se observa nas obras Algias, NostAlgias (1979) e Amant Alterna Camenae (1982). Enquanto Alma remete (pelas incidências de duas fontes de luz, azeite sobre uma mesa, conjuntos de 24 azeitonas em cada um dos 30 pratos, em representatividade das horas e dos meses, aludindo ao tempo) para a condição de existência do ser humano e para a “própria relação do artista com o tempo e a vida”, Frame (um barco em poliéster com parafina branca, com uma fonte de luz no seu interior, disposto num tapete ornamentado) confronta a conotação de movimento da embarcação com a de imobilidade sugerida pelo tapete. Florigen (uma pequena casa/compartimento em grade de ferro lacado, com uma orquídea no seu interior e outra no exterior) alude à ideia do escritor francês Jean Genet de que “existe pois uma íntima relação entre as flores e os condenados.” Existe, continua o próprio autor de Florigen, “uma natureza potencial. Geradora. Um reduto não redutor.” Um início que condiciona, mas não limita.

Como em Valsamar (2006-2010) - apresentada no Museu da Água, em Coimbra, no âmbito do Festival das Artes, 2010, promovido pela Fundação Inês de Castro. Uma instalação que foi nascendo de uma relação dialogante entre o texto do poeta José Tolentino Mendonça e o trabalho plástico de Barros. Um objeto-livro onde imagens de ondas na praia se desenham sobre a areia negra e se contempla o som do mar a bater no calhau. Estabelece-se uma “íntima e dialogante conexão” entre texto e imagem e o livro alude à ideia de moldura, ao conceito de fronteira no insular, mas em que o devir das ondas sugere “um convite” que “pode ser já um anúncio de partida.”[**]

“Enunciarão estes momentos da obra condição identitária?”, questiona o próprio artista. São marcas de uma geografia que foi igualmente a de Herberto Hélder, mas também de precoces convivências artísticas, com que a atividade do seu pai, curador do Museu da Quinta das Cruzes, no Funchal, o privilegiou desde mimosa idade. “António Areal foi lá buscar um vulcânico vigor nos tempos mais ardilosos da sua obra, vulto que me contaminou. Era ele uma visita lá de casa”, conta António Barros, continuando: “Foi nesta atmosfera que, no desenho do meu percurso, resultou um norteamento primeiro. Um caminho ascenso sem retorno.” Continuado em Coimbra, para onde vem estudar, revelando-se um dos principais dinamizadores da atividade cultural e artística da Academia Coimbrã (ver texto da coluna lateral) - numa cidade que chegou a ser considerada na época como capital da arte performance em Portugal - e um dos jovens que na década de 70 se junta a nomes fundamentais da arte contemporânea nacional, como António Aragão, Ana Hatherly, Ernesto Melo e Castro, Ernesto de Sousa e Alberto Carneiro.

[*] Jorge Pais de Sousa, “Arte Conceptual e descontinuidade”. Texto escrito para incluir no livro em preparação Uma luva na língua, sobre a obra de António Barros.

[**] Isabel Santa Clara, “Objetos e Palavras na Obra de António Barros”, Colóquio Internacional "Viagens Cruzadas - Mobilidade e Transferências", 23-25 Setembro, 2010, Universidade da Madeira. Organização: CEC, Universidade da Madeira, Revista Dedalus, Centro de Estudos Comparatistas, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Por Dina Sebastião



Em Exposição

Câmbio de paradigma

A atividade artística e cultural de António Barros na Academia Coimbrã

Enquanto um dos jovens integrantes da Academia Coimbrã, António Barros criou não só algumas das suas obras que o destacaram no panorama nacional e internacional artístico, como foi um dos dinamizadores culturais que colocaram Coimbra na vanguarda artística das décadas de 70 e 80. Foi ele que concebeu o simpósio “Projectos & Progestos”, para o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, um evento que contou com as participações de James Coleman, Stathion House Opera, Nigel Rolfe, The Basement Group, Julian Maynard Smith, Ricardo Pais, entre outros. Para o teatro universitário desenhou “Katzelmacher”, de Rainer Werner Fassbinder. Na sua passagem pelo TAGV explorou novos domínios nas artes dramáticas, plásticas e performativas, com a envolvência de nomes como Pedro Cabrita Reis, Manuel Graça Dias ou Lúcia Sigalho. Foi um dos responsáveis pela revitalização da revista Via Latina, trazendo para a capa obras inéditas de autores como Julião Sarmento, Pedro Proença, Catarina Baleiras e Ana Salazar. Foi um dos integrantes da equipa que tornou o Círculo de Artes Plásticas num organismo autónomo da Academia de Coimbra, que recebeu nomes como Wolf Vostell, Meredih Monk, Judite Malina, Julian Beck e o Living Theatre. Enquanto comissário dos encontros de arte “Alquimias dos Pensamentos das Artes”, trouxe para a Universidade uma obra inédita de Rui Chafes, escultura que reside para fruição pública na Faculdade de Farmácia. 

Reportagem UCV

O percurso de António Barros

Saber mais

http://barrosantonio.wordpress.com/

http://whatiswatt.org/