a carregar...

Tem a palavra

em redesem titulo







     

Para lá do tempo contado

Nove anos. Não me parece tanto tempo assim. Mas sim, cheguei a Coimbra há nove anos. No Alentejo deixei uma mãe ansiosa pelas mudanças que estavam por vir e muito, muito queixosa da distância que escolhi. Escolher Coimbra para estudar criou um tumulto lá por casa. Eu sempre falei em Lisboa e em Comunicação Social. Até Maio. Quando, acidentalmente, me passou pelas mãos o plano curricular da Licenciatura em Relações Internacionais. Tomei uma decisão de impulso e agarrei-me a ela apesar dos protestos da família.

Bastou-me um mês na cidade para saber que tinha tomado a decisão certa. Os primeiros tempos são um corrupio intenso de descoberta especialmente para quem vem de fora. Tem-se sede de experienciar tudo e o tempo não chega. Para conhecer gentes e realidades diferentes, para enfrentar desafios, para estudar, para celebrar, para viver tudo o que a cidade nos proporciona. Cresce-se. Muito. À força, muitas vezes.

Coimbra intensifica vivências. Talvez isto não seja tão claro para quem vive cá. Mas para quem vem de fora e se estabelece, Coimbra é um estado de exceção experimentalista. É um contacto a quente com as possibilidades de estarmos por nossa conta. É um trilhar de caminhos que não conseguimos antecipar. É uma possibilidade constante de experimentação e partilha de experiências. Tudo isto confinado a um espaço que fomenta a proximidade nas relações. Coimbra distingue-se de outras universidades não apenas pelo seu estatuto e contribuição académica ou pelo seu associativismo estudantil e pelo trabalho de diversas Secções da Associação Académica. Distingue-se também pelos intensos laços de amizade que aqui se criam e que nos acompanham para além do tempo da licenciatura.

Eu sei que fui uma privilegiada. Deparei-me com professores que apostavam numa filosofia pedagógica assente no desenvolvimento das capacidades de argumentação e crítica. Desde cedo fui exposta a um constante debate de ideias, assente no valor da argumentação. Partilhei estes momentos com colegas extraordinários, bem sei. Gente informada e comprometida, que não fugia a boas conversas em salas de aulas, em mesas de pastelarias e cafés ou no meio das jantaradas de convívio temperadas pelo respeito e tolerância das diferentes opiniões. Entrei no associativismo estudantil a meio da licenciatura, passada a euforia inicial e com uma progressiva tomada de consciência de que a nossa passagem pela universidade não se reduz apenas a salas de aulas e épocas de exames. Tenho hoje consciência de que essa experiência foi fundamental para a minha consciencialização cívica e desenvolvimento pessoal. Estive no Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais durante dois anos. Para além da organização de conferências, debates e ciclos de cinema, ou da elaboração de um jornal, partilhei com os meus colegas de núcleo e licenciatura pequenas e grandes lutas, da reivindicação de mais professores para a licenciatura a manifestações contra o aumento de propinas. Inevitavelmente, retirei da licenciatura muito mais do que conhecimento científico.

Em 2002, não seria capaz de projectar que, passados nove anos estaria a terminar o meu Doutoramento. A verdade é que em 2006 embarquei no Doutoramento em Coimbra quase que impelida pelas circunstâncias. A uma oferta formativa interessante associava-se uma equipa docente com um método de trabalho dinâmico que me agradava e conhecia. Consegui uma Bolsa da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) e estou prestes a terminar o meu Doutoramento em Política Internacional e Resolução de Conflitos. Hoje, percebo e vivo a Universidade e a cidade de forma diferente, talvez porque saímos do estado de exceção que a Licenciatura parece ser. Fazer o Doutoramento em Coimbra cimentou muitas das certezas que já tinha, testou as minhas capacidades e contribuiu de forma decisiva para a minha formação académica e pessoal. Criei e estreitei amizades imprescindíveis.

Quando entramos na Universidade idealizamos futuros. Uns mantêm as mesmas ideias e projetos. Mas o mais natural é que as nossas expectativas e ambições se alterem com o decorrer do tempo e com um crescimento que mal se nota de dia para dia mas que se espelha no desenvolvimento de competências e capacidades diversas. A Universidade não é nem deve ser apenas palco de formação científica e tecnológica. É um momento estruturante na construção de percursos individuais que, para além de conhecimentos sólidos, deve fomentar um espírito crítico que leve os seus estudantes a transcender lugares comuns ou a questionar pressupostos assumidos como inquestionáveis. A UC tem, ao longo de gerações, desempenhado este papel de forma determinante. É fundamental que a sua aposta de ensino continue empenhada neste compromisso.

Mais do que uma formação na área das Relações Internacionais a Universidade de Coimbra proporcionou-me um processo de crescimento e desenvolvimento pessoal insubstituível. O percurso que fiz e as pessoas que dele fizeram parte foram fundamentais para chegar ao ponto em que me encontro hoje, em termos académicos e pessoais.

A Universidade de Coimbra foi a minha primeira escolha há nove anos. Continuo convicta de que fiz a escolha certa. Espero que os estudantes que agora chegam à UC possam terminar os seus estudos com esta convicção.

Marisa Borges
Doutoranda em Política Internacional e Resolução de Conflitos