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Na e Pr'a Lá da UC

Porta AbertaObjetiva_









 


RUC: muito mais que uma rádio

Desengane-se quem pensa que a Rádio Universidade de Coimbra (RUC) é feita apenas e só por estudantes. Para muitos, a entrada no mundo da rádio dá-se enquanto estudante, mas a ligação estende-se em muitos casos para além do percurso académico.

Ana Val-do-Rio é um desses casos. Atualmente a trabalhar na Divisão de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, esta antiga estudante da Faculdade de Economia conta já com 10 anos de ligação à RUC (ver reportagem da UCV, ao lado).

A relação com a Rádio universitária mais antiga do país começou muito cedo. Com apenas 15 anos Ana Val-do-Rio tornou-se ouvinte da RUC e desde então não conseguiu desligar-se deste «pequeno grande mundo da rádio». “Porque é que eu escolhi a RUC? Eu acho que foi a RUC que me escolheu a mim”, começa por dizer. “Eu comecei a ouvir a RUC com os meus 15 anos talvez e aos 17 tentei entrar, porque quem é ouvinte, acaba por se envolver”, continua. O processo é simples: “começas a ouvir todos os programas e a saber o nome dos locutores e dos programas todos, começas a acompanhar, a perceber as evoluções neste ou naquele locutor, até mesmo nos programas, começas a participar nos passatempos, às tantas quando te atendem o telefone - ligas para participar num passatempo atendem o telefone – e já sabem o teu nome, já reconhecem a tua voz”, explica. “Há um processo de aproximação do ouvinte à rádio, que depois no meu caso facilitou muito a entrada. Claro que passei por toda a fase de entrevistas e testes que ainda existem. E tive a sorte de ficar. E por isso acho que foi mais a RUC que me escolheu”, diz.

Todos os aspirantes a RUC’ianos passam por processos de seleção. Com formação nas áreas de informação, programação (locução) e técnica, a Rádio Universidade de Coimbra abre anualmente cursos para os interessados (que decorrem durante o ano letivo). Para ingressar na RUC, os candidatos devem inscrever-se no curso do seu interesse, aquando do período de candidaturas. As fases de seleção incluem depois, testes e entrevistas presenciais. Depois disso, os aspirantes a RUC’ianos recebem formação nas áreas escolhidas, passando finalmente por um período de estágio, onde deverão aplicar os conhecimentos adquiridos ao longo da formação, abrindo-se desta forma uma porta para um mundo de experimentação e criatividade, sempre aliadas à irreverência, marcas de distinção da RUC.

Mas recuemos um pouco. Antes de ingressar na licenciatura de Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Ana Val-do-Rio passou pela Universidade do Minho. Mas a ligação à Rádio Universidade de Coimbra falou mais alto como explica, “experiência não foi inteiramente positiva, porque já na altura me estava a começar a envolver com a Rádio Universidade de Coimbra e foi muito por sentir que estava a perder coisas, por estar fora de Coimbra, que voltei e entrei em Relações internacionais cá, em Coimbra”. Ao longo de dez anos de rádio Ana Val-do-Rio não foi apenas mais uma locutora. Durante o seu percurso radiofónico fez “parte da Administração da Rádio e da Direção do Departamento de Programação”. “No fundo a rádio foi uma atividade paralela ao curso, sempre”, acrescenta.

De “estudante-locutora” a “trabalhadora-RUC’iana”

Aquilo que para muitos poderia ser apenas uma atividade extra-curricular, para outros torna-se uma paixão, que se vai alimentando ao longo do tempo, sempre com dedicação e empenho. Para a RUC’iana “fazer parte da rádio acaba por implicar um «perder muito tempo», porque exige muito envolvimento e dedicação, e quanto mais coisas fazemos, mais queremos fazer”. Ana Val-do-Rio diz que fazer parte do universo RUC “não se trata só de fazermos programas, de escolher músicas, fazer parte da RUC é fazer parte da máquina que gere uma organização composta por estudantes e aqui podemos fazer praticamente tudo o que quisermos, desde que se enquadre no espírito da rádio e dentro das regras da rádio”. Mas, como se faz a gestão do tempo entre a Faculdade e a vida de estudante com a vida de locutor da Rádio Universidade de Coimbra? “Era complicado porque, eu acho que acabei por passar mais horas na RUC que na Faculdade de Economia. Mas não era por isso também que perdia aulas, por exemplo, não faltava a aulas para estar na rádio, obviamente. Vinha era muitas vezes a correr da Faculdade para chegar aqui com dez minutos de intervalo para começar um programa e passava aqui muitos serões sempre a trabalhar, trabalho intercalado com convívio que é o mais natural aqui”, explica. “Sim, mas em termos de horas passei mais tempo na RUC que na Faculdade”, conclui.

E depois da Faculdade, quando a vida estudantil fica para trás, uma de duas coisas podem acontecer: ou se mergulha no trabalho e se «despe a pele» de locutor; ou se mantém a ligação à primeira rádio-escola do país. No caso de Ana Val-do-Rio, a veia de RUC’iana falou mais alto. Depois de terminada a licenciatura em Relações Internacionais, Ana Val-do-Rio manteve-se ligada à RUC, ainda que mais afastada dos microfones. Atualmente exerce a sua atividade profissional na Divisão de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra e essa foi a razão que a levou a deixar de «ir para o ar» na antena dos 107.9 FM. “Começar a trabalhar na DRI - nas Relações Internacionais (UC) – foi o que me afastou da rádio e o que me obrigou a deixar de fazer programas. O programa que eu fazia na altura era durante a tarde”, entre as quatro e as cinco da tarde, e por isso era “impossível de conciliar com o horário completo da DRI. Por isso tive que me afastar dos microfones e optar por trabalhar mais nos bastidores, ajudar mais na organização desse programa em concreto – o Culturama – um programa de agenda cultural, que continua ainda na antena com outra equipa”, explica.

Mas porque a RUC cultiva a criatividade dos seus membros, logo surgiu uma forma de conciliar as duas coisas. “No ano passado tive a ideia de conciliar as duas coisas, a rádio e o trabalho. E a ideia era promover a dimensão internacional da Universidade de Coimbra, através da RUC que é um meio bastante poderoso e aqui ao nosso alcance, afinal somos a Rádio Universidade de Coimbra, somos a rádio da universidade”, avança. A ideia deu origem a um projeto sob a forma de um programa – o BABEL. Semanalmente, à quarta-feira, e com a coordenação de Ana Val-do-Rio, um grupo de estudantes Erasmus invade a antena da RUC. O BABEL está no ar durante uma hora, entre as 20H00 e as 21H00.

O processo foi simples, como explica Ana Val-do-Rio: foram abertas “candidaturas, explicando ou dando uma noção geral do programa – houve muitos candidatos, sobretudo brasileiros e espanhóis – e fez-se uma primeira experiência, que correu bastante bem, em que eu participava nos programas bastante ativamente, coordenava as emissões, ... Os conteúdos obviamente eram preparados e muitos pré-gravados. Foi também necessário no início dar alguma formação, mas uma formação intensiva e adaptada ao perfil dos estudantes (...), que eram os estudantes estrangeiros”. Um ano depois o programa sofreu algumas alterações. “Este ano o programa tem caraterísticas um bocadinho diferentes, temos uma equipa que também inclui estudantes portugueses, uma equipa maior. Demos uma formação ainda mais completa e intensiva, para o programa poder ser dos estudantes e não meu”, revela. Uma formação que permite a Ana Val-do-Rio assumir agora uma posição de ligação entre a Rádio e a Divisão de Relações Internacionais na condução do programa. “Disse-lhes no início deste ano muitas vezes, o programa não é meu, eu só tive a ideia. O programa é deles e eles estão a fazê-lo sozinhos. E eu ainda estou ligada às duas coisas, à rádio e à DRI, estabeleço a ligação, mas acho que é proveitoso para todos os envolvidos”, afirma.

10 anos a fazer história na RUC

“Eu estou ligada à RUC desde finais de 2000, entrei para o curso de programação. Só passei ao estatuto de sócia em 2001, oficialmente, por isso já lá vão 10 anos”, avança Ana Val-do-Rio. 10 anos depois considera que a RUC “é uma parte muito importante de Coimbra, na medida em que é uma alternativa a todos os outros meios de comunicação, na cidade e no país. E nós temos o privilégio, de estando em Coimbra, de poder ligar o rádio e poder ouvir informação diferente, música diferente. E tudo selecionado por estudantes, pessoas jovens e que querem fazer coisas, que têm ideias”, diz. “A RUC é muito importante na medida em que constitui uma alternativa”, acrescenta. Mas para Ana Val-do-Rio a RUC é muito mais que uma rádio. É também “um espaço onde eu sei que posso encontrar muitos amigos e muitos potenciais amigos”, revela.

Para quem integra a Rádio Universidade de Coimbra, as experiências que a rádio-escola coimbrã oferece vão muito além da experiência radiofónica. Ana Val-do-Rio destaca ainda marcas a nível pessoal que RUC deixou na sua personalidade. “A RUC foi muito importante para mim – ainda é – mas foi muito importante para o meu desenvolvimento pessoal, porque eu cheguei cá, com 17 anos, muito nova e claro que afetou a minha personalidade, tornou-me muito mais desinibida no bom sentido, eu era bastante mais tímida e fechada. Tinha imensa vergonha de falar com toda a gente. E na rádio isso foram coisas que eu tive (...) de aprender a controlar. E estar em frente a um microfone, sem ninguém a julgar-nos, ou pelo menos sem os olhos de ninguém a julgar-nos do outro lado, foi um exercício muito saudável para mim. Saber lidar com os outros e comunicar com os outros, acho que foi aquilo de mais importante que a rádio me ensinou”.

Ao longo da sua ligação à RUC Ana Val-do-Rio viu já muitas pessoas passarem pelas instalações da rádio, acabando por ser mentora para muitos deles, ainda que de uma forma informal como diz. “Estar aqui 10 anos é estar aqui tempo demais, e eu sinto isso. Obviamente que não digo que esteja a ocupar o espaço de alguém, mas acho que o espaço que eu ocupo podia ser ocupado por outra pessoa qualquer, mais nova, outra pessoa que quisesse desenvolver competências que ainda não tenha desenvolvido, (...) mas a RUC é mesmo um espaço de experimentação e eu acho que já experimentei bastante e às vezes, sinto-me um bocado assim o «sócio antigo», que ainda anda aqui”. E continua: “mas por outro lado o BABEL também me permite um certo distanciamento, porque não me obriga a estar aqui permanentemente, apesar de eu ainda vir aqui frequentemente duas ou três noites por semana pelo menos, para preparar e fazer o programa. Mas é natural que haja sempre pessoas novas todos os anos. Há muita gente que eu não conheço, mas faço questão de pelo menos perguntar o nome e de dizer o meu, pelo menos sabemos quem somos e isso é importante. E é importante também para quem entra saber que há pessoas aqui com quem podem aprender alguma coisa. Eu não sinto muito essa responsabilidade na medida em que não estou envolvida nos processos de formação. O meu passar de testemunho é muito mais informal”, conclui.

Para a RUC’iana a é importante o fluxo de pessoas que se verifica na RUC. “O que eu quero – e que qualquer pessoa na RUC quer – é ver sempre gente nova a entrar, porque é uma rádio feita por estudantes, todos os anos há pessoas que vão embora e não é só uma ou duas, há muita gente que vai embora e é preciso renovar o sangue. É isso que nós explicamos também na fase de seleção dos cursos, quando queremos selecionar pessoas temos que ter em mente que estamos a escolher pessoas que vão ser a «mão-de-obra» da rádio, vão ser a força da rádio, e têm de ser pessoas que possam dedicar tempo, dedicar energia, e tudo isto por um tempo útil de pelo menos 2 anos. Menos de 2 anos é um bocado perda de tempo para a RUC, porque o primeiro ano é de formação básica e evolução, é o mais importante obviamente. No segundo ano é que uma pessoa está no ponto para contribuir e para desenvolver ideias, já com outra segurança, pôr em prática os planos que tinham em mente quando se candidataram ou que entretanto desenvolveu”, afirma.

Uma experiência única

Ana Val-do-Rio define a Rádio Universidade de Coimbra como “um espaço privilegiado de aprendizagem e experimentação na área da comunicação, ao alcance de qualquer estudante em Coimbra. E que pode mudar significativamente a vida de quem lá passa”. “Recomendo a RUC a qualquer estudante com vontade de crescer, aprender e expandir os horizontes num ambiente altamente propício ao desenvolvimento de competências humanas, sociais e técnicas, claro. Qualquer secção da AAC pode proporcionar uma experiência extra-curricular única e a singularidade da RUC está na sua função de orgão de comunicação da Universidade e da Academia e no facto de ser um espaço de experimentação por excelência”, acrescenta. “E se a rádio já é diferente é provável que, depois de fazerem parte da RUC, passem cada vez mais tempo lá, quem sabe se mais na Rádio que na faculdade, mas será sempre tempo bem aproveitado”, conclui. Uma coisa é certa, a RUC está aberta a toda a comunidade universitária. Se ainda não conhece, é simples: basta sintonizar os 107.9 FM no seu rádio ou digitar o endereço http://www.ruc.pt/ - aqui pode aceder não só à emissão online, mas a informação detalhada sobre a Rádio que marca Coimbra há já 25 anos.

Por Júlia de Sousa




Reportagem UCV