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Coro Misto da UC... 55 anos a (en)cantar Coimbra

O Coro Misto da Universidade de Coimbra (CMUC) assinalou em dezembro o seu 55.º aniversário. 17 de dezembro foi a data escolhida para assinalar mais um aniversário, através da realização de uma gala solidária, que teve lugar na Igreja de São José (ver reportagem da UCV, ao lado).

Fundado em 1956, mais precisamente a 12 de dezembro, o Coro Misto foi criado por iniciativa de alguns elementos do então existente Conselho Feminino da Associação Académica de Coimbra (AAC). “Na altura aquilo que era preciso na academia era que a mulher tivesse um papel mais ativo, o único coro que existia era um coro apenas masculino, o Orfeão. E o Coro Misto foi fundado exatamente para suprir essa necessidade, para a mulher poder participar ativamente na academia”, começa por dizer Ana Sofia Vaz, presidente do CMUC. E continua dizendo: “foi fundado o Coro Misto da Universidade de Coimbra, inicialmente chamado de Orfeão Misto da Universidade de Coimbra. A partir daí, o coro foi aumentado. O nosso primeiro maestro foi o Professor Raposo Marques, que na altura passou por diversas dificuldades, mas o coro foi crescendo, foi ganhando autonomia, e a partir de 1963 tornou-se um organismo autónomo da Universidade de Coimbra, porque inicialmente era uma secção da Associação Académica”. Além de Raposo Marques, passaram ainda pelo Coro Misto outros nomes como os maestros Adelino Martins e César Nogueira, que assumiram a direção artística do CMUC durante 25 e 12 anos, respetivamente. 

Atualmente, a batuta do CMUC está entregue ao maestro Rodrigo Carvalho, que assume desde 2008 a direção artística do coro.

Após a sua criação, o CMUC foi somando não só elementos, como atuações, em Portugal e no estrangeiro. Ana Sofia Vaz destaca ainda o papel do CMUC aquando da crise académica de 1969. “Tivemos também um papel muito importante a nível político, o Coro Misto esteve do lado de muitos movimentos estudantis, nomeadamente a nível da crise académica de 1969. O Coro Misto teve a coragem de se opôr ao regime na altura”, diz.

Um percurso repleto de música e história

Com 55 anos de existência, o CMUC é um dos sete organismos autónomos da AAC, sendo também o mais antigo coro misto da Academia Coimbrã, em atividade.

Ao longo da sua já extensa atividade, o Coro Misto percorreu todo o país e conta também com várias atuações um pouco por toda a Europa. Frequentemente integra festivais e encontros de cariz universitário, sendo também habitual a sua participação em cerimónias oficiais da Universidade de Coimbra e da autaquia local. “Este ano e para dar continuidade a um pouco do que é a nossa história, para além dos diversos concertos que fazemos sempre em todo o país, já passámos por quase todas as juntas de freguesias e câmaras do país, temos também um historial de viagens ao estrangeiro. (...) Digressões em Itália, França, Suécia, estão na história do coro e este ano temos uma digressão programada à Alemanha, num projeto de intercâmbio com o coro da Universidade de Bonn e é isso que vamos fazer no próximo mês de maio. É o maior projeto que temos de momento. Além disso, participamos habitualmente sempre em atividades da Universidade de Coimbra”, explica Ana Sofia Vaz. “Além da digressão, vamos ter então outras atividades que já são habituais, como a participação na Semana Cultural da Universidade de Coimbra, a participação no Sarau Académico e outras atividades que vamos entretanto sendo convidados ao longo do ano. Temos para já também um encontro anual de atuais e antigos coralistas, que se realiza todos os anos na altura de março/ abril, que é um dos momentos mais importantes do nosso ano também, em que reunimos estes membros todos da família do CMUC. É um dia muito especial, em que todas estas gerações voltam a juntar-se e a reviver um pouco daquilo que é este espírito de cantar no Coro Misto da Universidade de Coimbra”, conclui.

Mas nem só de atuações vive o Coro Misto. Desde 1986, o CMUC promove o Encontro Internacional de Coros Universitários (E.I.C.U.®), que vai já na 12.ª edição. Criado em 1986, o festival assume-se como um dos motivos de orgulho do Coro Misto. “Uma coisa muito importante na nossa história é a organização do Encontro Internacional de Coros Universitários, é uma marca registada do Coro Misto e é um evento muito importante do género. A nível nacional é o único evento do género com este tipo de patente. Realizámos a décima segunda no último ano, em 2010. São encontros de coros universitários internacionais e nacionais. Tivemos três coros internacionais e seis coros nacionais aqui no ano passado connosco”, refere Ana Sofia Vaz. E acrescenta que “são oportunidades de intercâmbio, de partilha de culturas muito enriquecedoras e nós organizamos isto já desde 1986. E é uma experiência muito particular do coro e de grande relevância para a nossa história”.

Entre os coros participantes estiveram Ave Vita, da Lituânia, o Choir of the Queen’s College, de Oxford e o Coro Académico da Universidade de Varsóvia.

Mas os motivos de orgulho do CMUC vão além das atividades do grupo. O vasto repertório que apresentam é algo de que todos os elementos se orgulham. Percorrendo vários períodos artísticos, desde o Renascimento até aos nossos dias, as escolhas musicais recaem com frequência sobre autores portugueses – como Fernando Lopes-Graça, Zeca Afonso ou Mário de Sousa Santos – e a tradição coral portuguesa. “O Coro Misto tem um reportório muito alargado, que vem desde a altura do Renascimento, até à Idade Moderna. Temos o cuidado de ter sempre um reportório que privilegia os autores portugueses, (...) como Zeca Afonso, o Fernando Lopes Graça – que aliás dá nome à nossa sala de ensaios, sendo um compositor muito importante para nós – o Eurico Carrapatoso e o Mário de Sousa Santos. É uma coisa que nós queremos é manter também viva a tradição da música de Coimbra e da música portuguesa”, explica Ana Sofia Vaz.

O curriculum do Coro Misto conta ainda com alguns trabalhos editados ao longo dos anos, nomeadamente, o album «Miserere», ou «Cantares», produzido no âmbito dos 50 anos do coro; participou ainda na gravação de «Cantar Coimbra», da Orquestra de Câmara de Coimbra, «Ano Carlos Seixas 2004», da Universidade de Coimbra e Câmara Municipal de Coimbra, e «Hoje» de Fernando Seabra Santos.

Vozes afinadas e solidárias

A Igreja de São José foi o palco escolhido para a gala solidária promovida pelo CMUC, no âmbito da comemoração do 55.º aniversário do coro.

O evento foi dedicado aos antigos membros do coro e contou ainda com uma recolha de donativos para o Centro de Acolhimento João Paulo II, avança Ana Sofia Vaz. A presidente do CMUC considera que se tratou de “um evento muito importante para nós que, além de ser a comemoração do nosso 55º aniversário, teve também um caráter solidário, que já é hábito no Coro Misto a nível de concertos de Natal”. “Estes concertos têm normalmente uma vertente social, de tentar ajudar alguma organização. Neste caso vamos prestar apoio ao Centro de Acolhimento João Paulo II, que vai fazer uma recolha de bens alimentares e de outros donativos. Vamos cantar o reportório adequado à quadra natalícia, (...) «Ceremony of Carols», de Benjamin Britten, outras obras de John Rutter e outras peças de autores portugueses também”, diz.

Para os próximos meses são já várias as atividades programadas. Para os dias 7 e 8 de janeiro, está prevista uma participação na I Mostra de Atividades Juvenis, no Centro Comercial Dolce Vita. Em fevereiro, o Centro Cultural D. Dinis será o palco para mais uma atuação, agendada para dia 23. Como habitualmente, o CMUC vai também integrar o programa da Semana Cultural da Universidade de Coimbra. Durante a primeira semana de Março e inseridas na XIV Semana Cultural da UC vão decorrer conferências e momentos musicais a cargo do coro. Para fechar o mês, o grupo promove ainda – a 31 de março – o Encontro Anual de Atuais e Antigos Coralistas. Um dos pontos altos das atividades do CMUC acontece mesmo em maio, com a integração num projeto de intercâmbio internacional com a Universidade de Bonn, na Alemanha (10 a 15 de maio).

Basta aparecer...

Para os interessados em fazer parte do CMUC a porta está sempre aberta, afirma Ana Sofia Vaz. Atualmente com cerca “de 65 a 70 coralistas”, o coro está sempre recetivo a novos membros, na verdade, fazer parte do Coro Misto da Universidade de Coimbra “é muito simples, nós temos ensaios todas as semanas – geralmente às terças e às quartas-feiras, a partir das 21H00, no piso zero da Associação Académica, na nossa sala de ensaios, sala Fernando Lopes Graça. É só aparecerem, temos sempre a porta aberta, literalmente. Ou então caso não tenham disponibilidade para vir logo a um ensaio, temos a nossa sala da direção no quarto piso da Associação Académica (...), estamos cá para isso, à espera de mais gente que queira cantar connosco e partilhar esta música que fazemos e deste espírito de grupo que é fantástico”, diz Ana Sofia Vaz.

E conclui dizendo que “o Coro Misto é isto, é uma família, é um ambiente que se sente; a partir do primeiro dia em que entramos por aquela porta, sabemos que estamos numa casa com história, com família, é inexplicável”.

Por Júlia de Sousa




Reportagem UCV