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Desenvolvimento do ensino universitário da botânica em Coimbra: o papel dos modelos nas aulas de Júlio Henriques

Henriques refere que, em 1881, o museu recebeu uma caixa de modelos de sementes de vinhas americanas, oferta da «Eschola d’agricultura de Montpellier». É de notar a pertinência desta oferta em relação às preocupações de Henriques, que coordenava a plantação de vinhas no jardim botânico, afectadas pela «Phylloxera», praga que dizimava as castas vinícolas europeias, deixando apenas viáveis as castas americanas (HENRIQUES, 1881). A compra dos modelos ao longo dos anos esteve sempre relacionada com as motivações de Henriques enquanto professor ou com vista a complementar a exposição que preparava no museu. Recebia variados objectos quer por compra quer oferecidos mas os modelos eram comprados por sua iniciativa. Apesar de adquirir modelos de diferentes fabricantes, tinha uma preferência explícita pelos da casa Brendel (HENRIQUES, 1885), representações ampliadas de temas anatómicos botânicos como a flor, o fruto, pormenores anatómicos de plantas, etc. muitas vezes é difíceis de observar em material natural, mesmo à lupa.

Ao longo de vinte e seis anos Henriques tinha ampliado o museu para cinco salas, com os espécimes naturais e objectos, entre os quais modelos, organizados segundo o sistema taxonómico para plantas vasculares de Bentham e Hooker (HENRIQUES, 1892). Os objectos estavam em armários e também no centro das salas, dispostos em pirâmide, ficando todos visíveis e acessíveis para demonstração (Figura 2, a). Alguns desses objectos são reconhecíveis hoje, como o modelo da flor da espécie Rafflesia arnoldii, conhecida por medir 1 m de diâmetro e emitir um odor a putrefacção (Figura 2, b). 



Fig. 2 a



Fig. 2 b


Figura 2 – As colecções de Botânica, em 1892. a- disposição dos espécimes e objectos (HENRIQUES, 1892); b- modelo em cera da flor de Rafflesia arnoldii, note-se que já existia no antigo museu (seta).

A partir de 1893 Júlio Henriques começa a sentir dificuldades de ordem financeira para continuar a enriquecer de material as aulas e museu, pelo que inicia também o declínio da compra de modelos (HENRIQUES, 1894). Não há registo algum da compra e utilização dos modelos após jubilação de Henriques, em 1918. Durante a direcção do Professor Doutor Abílio Fernandes, na década de 1940, todo o material do acervo terá sido reunido na galeria onde ainda permanece, no rés-do-chão do Edifício de S. Bento e apenas foi retomada a organização do acervo na direcção do Professor Doutor José Firmino Mesquita, culminando na primeira exposição permanente, intitulada “Biologia, Evolução e Biodiversidade no Mundo Vegetal”. A vertente educativa dos modelos foi também retomada, sendo recurso pedagógico para “oficinas didácticas” para crianças durante vários anos (AMARAL, 2011).