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Actividade do Observatório Meteorológico e Magnético (OMM) da UC

Toda a instalação dos instrumentos no novo observatório foi supervisionada por Jacinto de Sousa, que assumiu as funções de primeiro director. Em 1870 foi publicado pela Imprensa da Universidade um primeiro “Resumo das Observações Meteorológicas no Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade de Coimbra” (Sousa, 1870) relativas ao período de Dezembro de 1864 e Janeiro e Fevereiro de 1865. 

No prefácio de Jacinto António de Sousa, datado de 31 de Março de 1865, este relatou os parâmetros meteorológicos observados e o respectivo aparelho usado (Sousa, 1870, III-VII). Refira-se que, para a configuração das nuvens foi adoptada a nomenclatura de Howard, que estabelecia os tipos cirrus, cumulus, stratus e nimbus, adoptou-se também um conjunto de abreviaturas a serem empregues na descrição do estado geral do tempo. Para a preparação técnica do pessoal para o novo Observatório, Jacinto de Sousa prontificou-se a “instruir na practica das observações quemquer que se mostrasse habilitado para tirar proveito d’um tirocínio reciprocamente gratuito, tendo em mira preparar muitas pessoas, d’entre as quaes, em tempo opportuno, sahissem empregados desde logo prestáveis” (idem, VI). Contudo, poucos perseveraram nesta actividade, restando à data do prefácio, apenas um colaborador, Almeida Araújo Pinto. Todo o trabalho desenvolvido neste primeiro ano se deveu apenas ao esforço destas duas pessoas, não existindo, nesta altura, de registadores automáticos.

Estando condicionado o desenvolvimento dos trabalhos devido a exiguidade de técnicos não remunerados, seria António dos Santos Viegas (1837-1914), então professor da 2.ª cadeira de Física, a salvaguardar o sucesso deste processo ao assumir parte dos trabalhos do novo estabelecimento. Foi a participação de Santos Viegas que permitiu organizar os dados meteorológicos obtidos nos quadros e gráficos publicados. Jacinto de Sousa expressou o seu desencanto com esta situação, referindo que sem pessoal próprio e competente seriam ineficazes os esforços desenvolvidos, uma vez que os instrumentos mais importantes se mantinham inactivos, impossibilitando a recolha regular dos elementos magnéticos, e que as observações meteorológicas poderiam sofrer interrupções. Já em 26 de Fevereiro de 1864 a Faculdade tinha informado o governo sobre a urgência da contratação de pessoal para o Observatório, mas um ano depois ainda não havia qualquer resposta. Só a partir de Agosto de 1865 passou a ser remunerado o pessoal do observatório, incluindo o seu director.

A partir de 1870, as observações anuais foram publicadas regularmente, sendo constituído o pessoal do Observatório pelo director, três ajudantes e um guarda. Um dos ajudantes era o responsável pelas observações magnéticas, que tiveram o seu início em Julho de 1866 e que consistiam na determinação da inclinação, declinação e força horizontal absoluta. Os outros dois ajudantes estavam encarregados das observações meteorológicas, cabendo ao guarda as operações fotográficas. Alguns instrumentos já possuíam registradores contínuos, como era o caso do anemógrafo de Beckley e do baro-psicógrafo. As observações de Coimbra eram enviadas regularmente para muitos observatórios nacionais e internacionais, o que pode ser atestado pela lista incluída na própria publicação (Observações meteorológicas…, 1874). Foi estabelecida a comunicação telegráfica com o Observatório Meteorológico Infante D. Luís através da montagem de um telégrafo de Breguet em 1867, sendo transmitidas as observações diárias da manhã (das 9 h). Do observatório lisboeta eram retransmitidas, todos os meses, resumos das observações para o Observatório de Madrid e outros.

Em 1878, o OMM recebeu uma medalha de prata na Exposição Internacional de Paris, na qual participou com a exposição de alguns volumes das suas publicações, figurando na medalha o nome de Jacinto António de Sousa (Lopes, 1995, 346).
Após a morte de Jacinto António de Sousa, sucedeu-lhe como director António Santos Viegas, nomeado por portaria de 23 de Agosto de 1880, uma escolha natural tendo em conta o empenho e interesse que este professor mostrou nos primeiros anos de actividade do observatório. Santos Viegas formou-se em Filosofia em 1859 e foi nomeado lente de Física da Faculdade de Filosofia em 1870. Em 1866 tinha efectuado uma viagem científica aos principais estabelecimentos de ensino europeus para se inteirar sobre o ensino da física experimental. Veio a manter-se director do OMM até à sua morte em 1914, ausentando-se do lugar apenas nos períodos em que foi reitor da UC. Foi também presidente do IC entre 1885 e 1886.

A intervenção de Santos Viegas desde logo se fez sentir. Quando em 1873 se reuniu o Congresso Meteorológico de Viena, este emanou um conjunto de sinais convencionais e abreviaturas com a intenção de uniformizar o registo dos fenómenos meteorológicos. A nova sinalética começou, apenas, a ser usada na publicação das observações meteorológicas e magnéticas de 1880 (Lopes, 1995, 59). Outro foco de atenção de Santos Viegas foi a aquisição de novos instrumentos, não apenas para a meteorologia mas também para as determinações magnéticas e sismológicas. Em relação a esta última área da geofísica, Santos Viegas terá sido um pioneiro a nível nacional. De facto, as primeiras observações sismológicas efectuadas no nosso país ocorreram em Coimbra. Foi em 1903 que foi adquirido e montado um pêndulo horizontal de Milne, tendo logo sido iniciadas as primeiras observações, cujo principal responsável foi Egas de Castro. A inclusão dos resultados sismológicos na publicação anual iniciou-se a partir de 1909, passando esta a designar-se por “Observações meteorológicas, magnéticas e sismológicas feitas no Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade de Coimbra”.

Todavia, existem registos da aquisição, por parte do Observatório, de um primeiro sismógrafo (de Angot) em 1891 mas, até hoje, não foram encontrados documentos que comprovem que este tenha estado em funcionamento nem sendo sequer conhecido o seu paradeiro. Esta compra ocorreu durante o período em que António Meireles Guedes Pereira Coutinho Garrido (1856-95) desempenhou as funções de director interino do OMM, tendo Santos Viegas sido eleito reitor da universidade. O facto de ser um cargo interino, desempenhado de 31 de Janeiro de 1890 a Agosto de 1892, e a precariedade da saúde de Meireles Garrido, poderão explicar o facto de não ter havido uma maior aposta na sismologia, tendo este procurado assegurar a manutenção dos trabalhos habituais. Apesar da brevidade da sua vida, António Meireles Garrido deixou uma marca indelével em Coimbra, tendo sido um dos lentes mais novos (formou-se com apenas 19 anos).

Na Exposição de Paris de 1889 foi atribuída uma nova medalha ao OMM, desta vez de ouro, acompanhada de um certificado da República Francesa. O Observatório Meteorológico foi também convidado a participar na Exposição Universal de 1900 (idem, 346-349). Já no século XX, Santos Viegas voltou a desempenhar as funções de reitor, ficando, desta vez, de Abril de 1906 a Abril de 1907, como director interino do OMM, Henrique Teixeira Bastos (1861-1943).
Em consequência da morte de Santos Viegas, em 1914, Anselmo Ferraz de Carvalho foi escolhido para novo director do OMM.