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Os antecedentes da criação do Serviço Meteorológico Nacional

Por iniciativa de Raúl Fernandes Ramalho de Miranda (1902-1978, sócio do IC, foi fundada em Coimbra, em 1931, dirigida e mantida às suas custas a revista portuguesa de Geofísica A Terra. Esta publicação, que se manteve durante sete anos, agregou dos mais importantes artigos nesta área de investigadores portugueses. Raúl de Miranda era assistente da Faculdade de Ciências da UC. No primeiro volume desta revista surgiu um artigo de Carvalho Brandão onde este referia as “Particularidades das situações meteorológicas de Portugal”, assunto relativamente ao qual era profundamente conhecedor, tendo mantido durante vários anos uma crónica meteorológica quinzenal no Diário de Notícias. No volume seguinte, Brandão publicou um novo artigo onde retomou o tema da previsão do tempo intitulado “Importância dos Movimentos Gerais no estudo da atmosfera”. Voltou a referir o método francês, baseado na evolução e deslocamento dos sistemas de nuvens e dos núcleos de variação de pressão, destacando o seu carácter empírico, e a Escola de Bergen, relativamente à qual afrimou que:

“não conduziram pelo seu lado a um método definido de previsão, limitando-se à conquista de conhecimentos científicos sobre certos fenómenos atmosféricos no ponto de vista dinâmico, até então quasi inesplorado (…) o famoso método norueguês não é mais que um método de análise e de diagnóstico das situações meteorológicas (…) [relativas] às regiões onde ocorrem as descontinuidades dos elementos meteorológicos” (Brandão, 1932, 9).

Referindo-se a António Gião, que denominou como “apaixonado da Escola de Bergen, como todos os que tiveram a felicidade de frequentar aquele templo de ciência” (idem), abordou a nova teoria que este desenvolveu a partir do “exame analítico das geniais descobertas de J. Bjerknes” (idem). Brandão considerou que a nova teoria das perturbações atmosféricas de Gião era uma orientação “mais prática e mais fecunda que a de Bjerknes”. Concluiu que:

  “Este método baseia-se porém na hipótese de serem as reacções dos movimentos gerais da atmosfera sujeitos a determinadas condições, hipótese estabelecida à priori, sem o estudo prévio daqueles movimentos; embora deva representar um grande progresso na ciência meteorológica, o método Gião não poderá, naturalmente, por esse motivo, dar-nos ainda a solução definitiva do problema da previsão” (idem, 10).


A memória de Brandão prosseguiu com a análise das novas investigações meteorológicas, com enfoque na do americano Henry Helm Clayton (1861-1946), comparativamente às de Gião e de Bjerknes.
Neste mesmo volume da revista A Terra surgiu um artigo de Gião onde este expõe a sua nova teoria e a sua aplicação na previsão do tempo. Trata-se de uma das primeiras publicações de Gião no nosso país. A teoria de campos de Gião não se restringia à meteorologia, tendo aplicações noutros domínios da física, considerando Gião que “uma experiência não tem nunca a precisão e a fineza ideais do raciocínio e, por consequência, não pode atingir geralmente a explicação profunda dos fenómenos” (Gião, 1932, 12). Desta forma, seria necessário distinguir duas categorias de fenómenos ou campos: os fenómenos “mantidos”, cuja evolução apenas dependia de acções exteriores, e os fenómenos espontâneos que não possuíam energia própria e cuja evolução era inteiramente comandada pelo campo mantido ao qual se sobrepõem e sem o qual não poderiam existir. A atmosfera terrestre era um exemplo de um meio natural em que se sobrepunham três campos mantidos: um que resultava da gravitação, outro de origem mecânica análogo à rotação de qualquer “astro fluido”, e um último de origem termodinâmica derivado das trocas de energia radiante entre o Sol e a atmosfera (idem, 14).

Raúl de Miranda esteve também na base da criação, em 1933, da Sociedade de Meteorologia e Geofísica de Portugal (SMGP), que teve como presidente honorário Anselmo de Carvalho. Sedeada em Coimbra, embora possuindo núcleos em Lisboa e Porto, esta sociedade publicava no seu boletim as comunicações resultantes das conferências realizadas. Um exemplo foi protagonizado por Carvalho Brandão, que chefiava o núcleo lisboeta, numa conferência realizada na capital em 2 de Maio de 1933, onde se justificavam as razões da fundação da SMGP. Brandão revelou que António Gião tinha proposto à Junta Nacional de Educação a criação em Portugal de um Instituto de Mecânica da Atmosfera. Infelizmente, não foi possível reunir recursos financeiros para uma instituição deste género, tendo sido oferecida a Gião uma bolsa para este desenvolver as suas investigações no Observatório Meteorológico Infante D. Luís, oferta que ele recusou.

Em 1934, foi finalmente o Instituto Geofísico da UC integrado na Rede de Emissores Portugueses, após a instalação de um aparelho radioemissor de ondas curtas (Santos, 1995, 66). Embora já existisse um Serviço Nacional de Climatologia, não havia ainda colaboração com esta instituição por parte do Instituto Geofísico.

A Comissão Técnica de Meteorologia, nomeada para a organização dos serviços meteorológicos e da qual faziam parte, entre outros, Anselmo Ferraz de Carvalho e António Brandão de Carvalho, apresentou no seu relatório de 1936 um panorama lastimoso do estado da meteorologia no nosso país, onde se referia que “a publicação das observações, quer mensais quer anuais, tem sido feita com grande irregularidade, devido principalmente à falta de recursos”, havia “falta de postos meteorológicos em grande número de regiões” e “a meteorologia oceânica, em que devíamos colaborar com os outros países marítimos, está há muito abandonada entre nós”, de tal forma que “o próprio serviço do tempo (…) luta com muitas deficiências derivadas da falta de recursos pessoais e materiais” (Projecto de organização…, 1936, 3). A criação, por sugestão desta comissão, do Instituto Central de Meteorologia, com um serviço do tempo e um serviço climatológico, não terá melhorado, decisivamente, esta conjuntura e o advento da II Guerra Mundial pôs novos entraves ao processo de estruturação dos serviços de meteorologia em Portugal.

Foi preciso esperar pelo Decreto-Lei n.º 35 836, de 29 de Agosto de 1946, para se assistir à criação do Serviço Meteorológico Nacional (SMN), tendo como primeiro director Herculano Amorim Ferreira (1895-1974), que desde 1937 era também director do Observatório Infante D. Luís (então designado por Instituto Geofísico Infante D. Luís). O SMN veio a integrar todos os serviços meteorológicos que estavam dispersos por diversos organismos, entre os quais o Instituto Geofísico da UC.