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Considerações Finais

Em 1945, Ferraz de Carvalho tinha substituído Costa Lobo na presidência do IC, após o falecimento deste. Quando, no ano seguinte, foi criado o SMN, Ferraz de Carvalho pediu a exoneração do seu cargo de Director do Instituto Geofísico da UC. Entendia que deveria manter-se ou intensificar-se a colaboração do Instituto Geofísico com o SMN, mas sem que fosse transferido para esse serviço todo o pessoal técnico. Apesar do seu pedido, nunca lhe foi concedida a exoneração, ficando oficialmente com esse cargo até ter atingido o limite de idade para exercer funções públicas, em 14 de Dezembro de 1948. No entanto, Ferraz de Carvalho desinteressou-se, por completo, destas funções e não voltou a entrar nas instalações do Instituto Geofísico durante este período (Santos, 1995, 70).

No relatório que apresentou à Faculdade de Ciências em 1946, onde relatou os seus 32 anos na direcção do Instituto Geofísico, Anselmo Carvalho justificou o trabalho realizado, em particular a sua perspectiva a respeito das funções de um observatório meteorológico do tipo do que existia em Coimbra. A primeira obrigação era a realização de observações directas, que deveriam ser “meticulosas e repetidas dos elementos meteorológicos e os registos contínuos das variações de muitos deles; depois a análise das suas correlações e o estudo da periodicidade das variações registadas” (Carvalho, 1946, 12, no original surge “registos contínuos” destacado). A partir dos resultados acumulados poderiam ser realizados “estudos de conjunto”, analisada a evolução dos fenómenos meteorológicos e, “quanto mais longas forem as séries de observações, mais profundos serão os estudos do clima local” (idem). Ferraz de Carvalho rematou que “a um observatório isolado não competem as previsões de tempo a curto prazo”, estas estariam destinadas a um grupo de meteorologistas encarregados de elaboração de cartas sinópticas a partir da recepção, a curto prazo, de informações de observatórios as estações meteorológicas, constituídas numa rede de estações rádio telegráficas. A segunda obrigação, sempre cumprida em Coimbra, era o respeito pelas condições de trabalho e pela forma de publicação dos resultados que tinham sido estabelecidas em congressos internacionais.

Pode concluir-se daí a precariedade com que funcionaram os serviços de meteorologia no nosso país. Apesar do conhecimento científico de algumas personalidades, a actividade desenvolvida em cada observatório era desperdiçada em virtude da não existência de uma rede que interligasse as várias instituições, devidamente coordenada por uma estrutura centralizada. A criação dessa estrutura, através do SMN, causou, no imediato, atritos motivados pelo receio de perda de autonomia, apesar de a meteorologia exigir um trabalho conjunto de muitas instituições, numa sinergia de esforços continuados, em que o esforço colectivo sobreleva o individual

Um óbice importante esteve sempre na falta, sistemática, de recursos financeiros e de pessoal qualificado, que flagelava a maioria das instituições científicas portuguesas. Um exemplo claro foi a incapacidade de responder ao repto de António Gião para a criação de um instituto dedicado ao estudo da atmosfera e, desta forma, o desperdício do contributo de um investigador português que passou pelos mais importantes estabelecimentos universitários e científicos europeus. Gião só passou a ensinar em Portugal em 1960, a convite da Secção de Matemática da Faculdade de Ciências de Lisboa.

Pelo exposto, a história da meteorologia em Portugal teve um percurso sinuoso com alguns sucessos pontuais, mas também com alguns períodos de desordem e marasmo. Alguns avanços deveram-se ao mérito individual de algumas personalidades que, tendo tomado consciência da importância desta nova área científica, procuraram concretizar em Portugal resultados semelhantes aos eram obtidos nos países europeus mais desenvolvidos: foi o caso de Guilherme Pegado, Jacinto de Sousa, Brito Capelo, Santos Viegas, Anselmo de Carvalho e Carvalho Brandão. Todavia, a diminuta disponibilidade financeira mas também de pessoal motivado e tecnicamente competente, não podia conduzir a grandes resultados. Foi clara a pressão internacional para o avanço da meteorologia em Portugal, principalmente a partir do momento em que as observações recolhidas no nosso país e, principalmente nos seus arquipélagos atlânticos se tornaram essenciais para o desenvolvimento do esforço europeu/mundial de previsão do tempo. É inegável que a acção de um conjunto de sócios do IC foi importante para a divulgação dos avanços no âmbito da meteorológica, com particular destaque os congressos e conferências realizados em Coimbra e os artigos publicados na revista O Instituto.