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A importância de Portugal na meteorologia mundial

No final de 1926, foi decidido no IC dar início a um conjunto de conferências sobre a cultura inglesa, ficando prevista uma dedicada à meteorologia em Portugal relacionada com a previsão do tempo na região noroeste da Europa, cuja organização recaiu em Anselmo Ferraz de Carvalho. A 8 de Maio de 1927, chegou ao nosso país Jacob Bjerknes que, segundo o Diário de Notícias, era um “ilustre meteorologista norueguês, autor das modernas teorias utilizadas para a previsão do tempo, que veio a Portugal propositadamente para tomar conhecimento directo da meteorologia no nosso país” (Diário de Notícias). Outro objectivo da missão de Bjerknes tinha ficado estabelecido numa reunião de meteorologistas, realizada em 1926 em Zurique, na Suiça, onde também tinha estado presente Carvalho Brandão que anunciou a resolução do governo português de instalar e organizar uma estação de TSF nos Açores. Por conseguinte, foi estabelecida uma comissão incumbida de acompanhar este assunto até à sua resolução final, de que fazia parte o general Émile Delcambre (1871–1951), director dos serviços meteorológicos franceses. Este último veio também em Portugal para, em conjunto com Brandão e Bjerknes, se reunirem com representantes do governo português. Carvalho Brandão assumia na altura as funções de Chefe do Serviço Meteorológico Português, apesar dos serviços de meteorologia de então ainda não se encontrarem, consistentemente, organizados, estando dispersos por várias entidades e observatórios. Numa entrevista, em 13 de Maio de 1927, ao Diário de Notícias, realizada num jantar em casa de Carvalho Brandão, Jacob Bjerknes revelou que uma estação nos Açores viria a solucionar “um problema que preocupa os organismos científicos da Europa, encarregados do estudo e previsão do tempo” devido à lacuna de indicações no Atlântico Setentrional indispensáveis nos cálculos. Este projecto era “tão importante que, provavelmente, se essa estação estivesse funcionando não teria a França, nesta ocasião, de lamentar o desaparecimento de Nungesser e Coli”, uma alusão a dois aviadores franceses desaparecidos nesse mesmo mês quando voavam sobre o Atlântico. 

Tendo em conta a presença em Portugal de Bjerknes, foi ele o conferencista convidado por Ferraz de Carvalho, pelo que em 23 de Maio partiu de Lisboa para Coimbra, acompanhado pelo Ministro da Noruega em Lisboa, Finn Koren, e por Carvalho Brandão. Após a sua palestra, no salão nobre do IC, seguiu para Madrid onde se foi encontrar com o director dos serviços meteorológicos espanhóis.

A comunicação de Bjerknes foi publicada n’O Instituto, tendo este sido eleito sócio correspondente da sociedade conimbricense, na Assembleia-Geral de 2 de Junho de 1927. Com o título de “Les bases scientifiques et techniques de la prévision du temps et le rôle du Portugal à ce rapport”, Bjerknes iniciou por ressalvar a importância da previsão do tempo para países marítimos como a Noruega e Portugal, apesar das incertezas destas previsões quando comparadas com as predições astronómicas. Dada a inextricável relação das causas e efeitos em meteorologia com a mobilidade do ar, Bjerknes apresentou uma classificação das correntes de ar e a sua relação, mais simplista, com estados do tempo. As nuvens seriam causadas pelo arrefecimento do ar, processo mais eficaz quando ocorriam correntes ascendentes de ar húmido. O transporte do ar atmosférico processava-se com base em dois tipos de corrente: corrente polar, constituída por ar frio e seco, e corrente tropical, contendo ar mais quente e húmido. O encontro de duas massas de ar, a temperaturas diferentes, originava uma superfície de descontinuidade que iria determinar as condições meteorológicas. Com base na direcção de propagação, seria possível distinguir dois casos: uma frente fria, em que uma cunha de ar frio em deslocamento provoca a ascensão de uma massa de ar quente, e uma frente fria, que se encontra em retirada, é perseguida por uma corrente quente que é obrigada a subir. Na descrição de Bjerknes é flagrante a alusão a termos de guerra, como se tratassem de dois exércitos em confronto. Concluiu que:

“Le temps de demais dépend de la nature et de la force du courant d’air qui va arriver, éventuellement de la lutte entre deux ou plusieurs courants. Ce n’est q’un problème de distance et de vitesse de déterminer quel courant ou système de courants nous atteindra demain” (Bjerknes, 1927, 105).

Apesar da simplicidade aparente, o sucesso da previsão estava, intimamente, dependente do estado inicial, o que exigia conhecer a temperatura, pressão, humidade… de cada ponto da atmosfera, desde o Equador até aos pólos. Para tal, era imprescindível um sistema de estações emissoras de dados atmosféricos, por TSF, espalhadas por todo o globo. Na altura, em Portugal, estavam em funcionamento quatro destas estações: Porto, Coimbra, Lisboa e Faro, estando mais duas, da Berlenga e cabo S. Vicente, prestes a entrarem em funcionamento. Uma vez que as novas condições do tempo se deslocavam, geralmente, de Oeste para Este, as estações dos países ocidentais como a Islândia, Reino Unido e Portugal eram os principais “avant-gardes” da Europa contra as tempestades que se aproximavam da costa Oeste, mas mesmo assim insuficientes. A resolução do problema estaria na introdução de emissores TSF a bordo dos navios transatlânticos que lhes permitissem transmitir, regularmente, dados meteorológicos ao longo da sua travessia do oceano. Todas estas transmissões deveriam ser recolhidas por estações, estrategicamente, localizadas de forma a cobrir vastas áreas geográficas, que as retransmitiam para os serviços meteorológicos europeus. Evidentemente que as ilhas dos arquipélagos da Madeira e Açores seriam localizações essenciais, considerando mesmo Bjerknes que a estação mais importante seria sempre a dos Açores (idem, 110).

No congresso de Cádiz desse mesmo ano, Brandão Carvalho, como representante e chefe do Serviço Meteorológico Português, apresentou uma comunicação sobre as “Condições para o progresso da Meteorologia Ibérica” onde revelou estar prevista a entrada em funcionamento da Estação Meteorológica Internacional dos Açores, na ilha do Faial, para o início do ano seguinte, tendo já o governo português conseguido uma isenção de taxas das companhias concessionárias de TSF. Os problemas que permaneciam prendiam-se com a escassez de comunicados das observações dos navios e o excessivo tráfego rádio comercial (Brandão, 1927, 11-13).
Em 1927 António Gião foi encarregado pela Comissão de Estudo do Ministério da Marinha (Serviço Meteorológico) para se deslocar à Noruega com o propósito de estudar os mais “recentes desenvolvimentos teóricos e práticos da meteorologia dinâmica” e familiarizar-se com as “novas vias abertas à previsão do tempo pelos meteorologistas de Bergen” (Gião, 1927, 233). Durante a sua estadia em Bergen, teve a oportunidade de privar com Jacob Bjerknes, que se mostrou surpreendido por Gião ter feito tão grande viagem para o conhecer, ao que este lhe respondeu estar a realizar um projecto já com alguns anos. António Gião descreveu com algum pormenor o trabalho que se realizava em Bergen, bem como toda a teoria subjacente à “frentologia”, num artigo que publicou no Bulletin de la Société Belge d'Astronomie, quando se encontrava ao serviço do Instituto Meteorológico Real da Bélgica. 

A actividade de Gião nos anos seguintes centrou-se na meteorologia, tendo prosseguido os seus estudos em Paris, nomeadamente no Office National de Metrologie e no Institut Henri Poincaré. Em 1929 regressou a Bergen, onde frequentou um curso livre, tendo desenvolvido a “mecânica das frentes na atmosfera” e, dois anos depois, a “teoria das perturbações espontâneas dos meios fluidos”, que Gião pretendia aplicar como modelos na previsão do tempo.