Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Introdução

A meteorologia surgiu como nova área científica desde a invenção e aplicação dos primeiros instrumentos meteorológicos, como o barómetro e o termómetro no século XVII, que permitiram desencadear a observação e medida sistemática dos fenómenos atmosféricos. Contudo, desde cedo se demonstrou ser difícil obter modelos teóricos que explicassem os fenómenos meteorológicos e que encontrassem aplicação na previsão do tempo. Ao longo do século XIX, apesar dos sucessos alcançados nas áreas do electromagnetismo e da termodinâmica e do desenvolvimento de novos conceitos, como o calor e a energia, a área da meteorologia mantinha-se imune a uma abordagem matemática que permitisse obter previsões. Inclusivamente, as tentativas de aplicação de métodos empíricos para prever o tempo, com base nos dados obtidos ao longo de meticulosas e sistemáticas observações, tinham a concorrência dos métodos populares, muito divulgados em almanaques, cuja fiabilidade não era muito diferente. Esta situação terá desencorajado muitos investigadores de se dedicarem a esta área, defendendo que a meteorologia era uma “ciência de observação” (Anderson, 2005, p. 7) que se deveria limitar à recolha exaustiva de uma colecção de dados científicos com recurso a instrumentos de elevada precisão e, assim, evitar a veiculação de especulações cujo carácter científico era duvidoso. Havia a esperança que, com uma quantidade de informação suficiente, que cobrisse grandes períodos temporais e extensas áreas geográficas, se poderiam deduzir leis que explicassem os acontecimentos relativos ao tempo.

Considerava-se que os progressos da meteorologia teriam um impacto decisivo, não apenas da física do globo, mas também em muitas actividades humanas como a navegação, a higiene, a medicina, o comércio, a indústria e a agricultura, tendo a meteorologia uma “relação com as maiores necessidades da vida, e com os mais caros interesses da sociedade e da civilização” (Carvalho, 1871, 132). 

Sendo Portugal um “país de marinheiros”, deduz-se que as preocupações com a meteorologia estiveram sempre presentes no espírito dos nossos conterrâneos. Contudo, a assunção do carácter científico desta área do conhecimento surge apenas no século XIX, como aconteceu com muitos países europeus.

No século XIX assistiu-se na Europa à criação de serviços meteorológicos e instituições dedicadas ao estudo dos fenómenos atmosféricos. Alphonse Quetelet dirigiu as observações meteorológicas no Observatório Real de Bruxelas desde a sua fundação em 1831. Por ordem do governo espanhol, em 1837 iniciaram-se as observações meteorológicas no Observatório de Madrid. Na Inglaterra surgiu, em 1840, o Departamento Meteorológico e Magnético de Greenwich, seguindo-se o Observatório de Kew em 1842, também dedicado às observações meteorológicas, e o Departamento Meteorológico do Conselho do Comércio, liderado por Robert Fitzroy, em 1854. O Instituto Meteorológico de Berlim foi fundado em 1847 sob a direcção de Heinrich Dove. Em Viena foi criado um instituto central de meteorologia em 1848 que incluía uma rede de observadores remunerados. Em França, os serviços de meteorologia estavam divididos entre o Ministério da Marinha e o Observatório de Paris, iniciando-se um serviço nacional de meteorologia, dirigido por Urbain LeVerrier, em 1863. Na Holanda, Buys Ballot dirigiu, a partir de 1854, o instituto meteorológico central, sedeado em Utrecht que englobou uma rede de 37 estações, sendo o primeiro na Europa a emitir avisos de tempestade. 

Uma fonte de preocupação mundial, pela fundação de serviços meteorológicos, foi o naufrágio de vasos de guerra da esquadra inglesa e francesa, fundeados no mar Negro, em 1854, durante a guerra da Crimeia, devido a factores meteorológicos. Verificou-se que, se existisse uma rede de comunicações telegráficas, colocando em comunicação os observatórios meteorológicos de muitas cidades da Europa, poderia ter-se evitado este desastre, uma vez que a tempestade que se abateu no Mar Negro já tinha sido prognosticada em muitos destes observatórios alguns dias antes do sucedido.