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A previsão do tempo e os primeiros serviços de meteorologia em Portugal

Realizou-se em Viena, em 1873, o primeiro Congresso Internacional de Meteorologia, presidido pelo meteorologista holandês Buys-Ballot. Foi nesse encontro que foi fundada a Organização Meteorológica Internacional (OMI), sendo Portugal um membro fundador e estando representado no congresso por Fradesso Silveira, então director do Observatório Infante D. Luís. Todos os serviços de meteorologia portugueses estavam sedeados nesse observatório, para onde eram canalizadas, diariamente, as observações efectuadas nos escassos postos meteorológicos distribuídos por Portugal Continental. Os navios de guerra dispunham de instrumentos e instruções para as observações meteorológicas e os mapas respectivos eram remetidos para o observatório de Lisboa (Ferreira, 1940, 21). Apesar de, nos arquipélagos da Madeira e Açores, existirem postos em funcionamento desde 1865, não havia ainda comunicação telegráfica, pelo que os dados recolhidos demoravam muito tempo a chegar ao Continente, não servindo para serem utilizados em quaisquer previsões do tempo.

Apesar do rigor científico com que eram executadas as observações meteorológicas, nunca se tentou em Coimbra, nessa época, usar as mesmas na previsão do tempo. Este objectivo terá sido desejado por Santos Viegas, como se pode concluir do tema de doutoramento que este deu ao seu aluno Bernardo Aires (?-1931), nomeadamente “A circulação atmosférica e a previsão do tempo”. 

Na sua tese de 1892, publicada pela Imprensa da Universidade, Bernardo Aires analisou os fenómenos atmosféricos com base na distribuição do calor solar à superfície da Terra. Assim, e tendo em conta o movimento de rotação terrestre, se poderiam explicar os ventos mundiais, designados de ventos regulares, típicos das várias regiões do globo. Associando-se os movimentos atmosféricos de massas de ar com as correntes marítimas, justificou o clima na Europa e noutras regiões do planeta. O segundo capítulo é dedicado às pressões atmosféricas e suas variações, abordando a representação de mapas com a distribuição de pressões numa dada região através de linhas isobáricas. Referiu, também, a vantagem de usar as cartas para a previsão da deslocação do ar e o reconhecimento de zonas de baixa pressão, os ciclones, e áreas de alta pressão, os anti-ciclones, e a sua distribuição pelo planeta, constituindo os chamados centros de acção. Com base nesta teoria, Bernardo Aires explicou algumas situações meteorológicas frequentes na Europa. No capítulo seguinte analisou, em maior pormenor, os ciclones, constituídos por “massas consideráveis de ar, animado de um movimento de rotação rápido em volta de um eixo proximamente vertical, semelhantes por muitos caracteres aos turbilhões que se formam nos rios” (Aires, 1892, 49). 

Em relação à previsão do tempo, Bernardo Aires iniciou o tratamento deste tema considerando que “se a teoria dos movimentos da atmosfera fosse completa, poder-se-iam determinar as causas das suas perturbações e desde então conhecer-se-iam os seus efeitos e o lugar onde se produziriam” (idem, 69). O problema das teorias da altura estaria na incapacidade de ponderação dos efeitos da orografia da superfície terrestre, a distribuição das terras e dos mares e outras causas acidentais. Bernardo Aires abordou a aplicação das chamadas “leis das tempestades” alicerçadas nos gradientes de pressão registados para prognosticar o tempo a curto prazo. Realçou a importância das comunicações telegráficas, tendo descrito o panorama nacional.

Destarte, no final do século XIX, Portugal possuía como salvaguarda da chegada de tempestades do Atlântico apenas um posto meteorológico no Funchal, na ilha da Madeira, estando a criação de outros similares nos Açores na dependência da conclusão do cabo telegráfico submarino [1]. O Observatório Infante D. Luís funcionava como observatório central, reunindo ao meio-dia, telegraficamente, todas as observações realizadas às nove horas da manhã nos postos nacionais de: Lisboa, Campo Maior, Coimbra, Moncorvo, Montalegre, Serra da Estrela, Régua, Porto, Guarda, Évora, Vila Fernando, Lagos, Faro, S. Vicente e Funchal. Também eram recebidos os dados dos postos espanhóis da Corunha, Barcelona, Madrid, Málaga, S. Fernando, Tarifa e S. Lourenço, e os de Valentia, na Irlanda. As cartas diárias do tempo eram emitidas à uma hora da tarde, sendo publicado o boletim respectivo no Diário do Governo (Aires, 1892, 80).

Os dados meteorológicos do Porto provinham do Observatório Meteorológico da Princesa D. Amélia, na Serra do Pilar defronte da cidade do Porto, o terceiro a ser fundado em Portugal em 1888 mas, ainda assim, na dependência do Observatório D. Luís, técnica e administrativamente, desde os primeiros trabalhos de instalação em 1855 até 30 de Agosto de 1901 (Ferreira, 1940, 7).

Em relação à previsão do tempo local a curto prazo, Bernardo Aires incluiu na sua tese os métodos baseados nas indicações conjuntas do barómetro, termómetro e higrómetro, relatando um conjunto de regras a serem aplicadas consoantes as variações verificadas, como por exemplo “se o barómetro baixa e ao mesmo tempo o termómetro sobe e o higrómetro indica aumento do grau da humidade atmosférica, pode anunciar-se chuva ou neve, conforme a temperatura ou o estado de agitação do ar” (Aires, 1892, 86). Outras possibilidades seriam: a utilização de espectroscópios para detectar as chamadas “riscas de chuva”, produzidas pela absorção de radiações solares pelo vapor de água atmosférico e independentes do grau de humidade do ar ambiente pois se relacionam com toda a espessura da atmosfera atravessada pelos raios do Sol; o uso de um aparelho para medir a intensidade de cintilação das estrelas, fenómeno dependente das condições atmosféricas e que poderia indicar a possibilidade de alterações climatéricas. Finalmente, foram abordados também os prognósticos empíricos baseados na forma e aparência das nuvens e dos astros e nos vegetais e animais. É notória a tentativa de fazer um exame abrangente, reproduzindo todas as técnicas então ao dispor, umas mais científicas do que outras, na tentativa de aumentar a probabilidade de sucesso de uma dada previsão. Bernardo Aires na sua tese analisa os possíveis efeitos do ciclo lunar, de cometas ou de estrelas cadentes, demonstrando que todos os dados recolhidos refutam a sua viabilidade e reforçando como única ferramenta para previsão do tempo a longo prazo o estudo do posicionamento e deslocamento dos centros de acção, nomeadamente aqueles que exercem a sua acção sobre o clima europeu: o máximo oceânico, o máximo sibérico e o mínimo oceânico

Bernardo Aires não continuou à investigação neste tema, nem veio a desempenhar qualquer função no OMM durante a sua carreira como professor da UC.



[1] Concluído em 1893.