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Brasileiros na Faculdade de Medicina

Na Faculdade de Medicina despontaram vários nomes brasileiros que se destacaram no desenvolvimento das ciências da saúde no Reino e no Brasil.[30] Após a colaboração para a criação do Laboratório Chimico, José Francisco Leal viria a ser nomeado no dia 3 de outubro de 1772 para reger cadeiras da Faculdade de Medicina. No dia 9 desse mês foi-lhe conferido o grau de Doutor, sendo nomeado como Lente de Phisiologia, Matéria Médica e Instituições Médico-cirúgicas. Foi autor das Instituções ou Elementos da Pharmacia, extrahidos dos de Baumé, e reduzidos a um novo methodo, obra publicada postumamente em 1792 por Manuel Joaquim Henriques de Paiva (Castelo Branco, 1756 – Bahia, 1829).[31] Além da prática profissional, nesta obra Francisco Leal tratou com mestria os aspetos relacionados com o ensino da Farmácia, dando à Química um papel de relevo. Este livro pode ser considerado um verdadeiro tratado de Farmácia prática. A preocupação do autor consistia em descrever as formas farmacêuticas e as técnicas laboratoriais na respetiva preparação.

Para a concretização do projeto de Reforma da Faculdade de Medicina, o Marquês de Pombal pôde contar com a colaboração de outro brasileiro: José Correia Picanço (primeiro Barão de Goiana). Nascido no Recife em 10 de novembro de 1745, viria a falecer no Rio de Janeiro em 1824. Era formado em Medicina pela Faculdade de Montpellier. Identificado com o projeto pombalino de renovação do Curso Médico, substituiu o italiano Luigi Cichi que fora afastado por desleixo. Correia Picanço foi nomeado opositor na Faculdade de Medicina em 1772, onde foi jubilado em 1790 como lente de Anatomia, sendo considerado o grande reformador do seu ensino em Portugal. Retornou ao Brasil com Dom João VI em 1807, obtendo autorização régia para criar o primeiro curso de medicina do Brasil, na cidade de Salvador.[32]

Em 18 de fevereiro de 1808 foi criada a Escola de Cirurgia da Bahia, segundo um plano inspirado nos preceitos definidos nos estatutos pombalinos da UC.[33] Foi instalada no antigo Hospital Real Militar da Cidade do Salvador, que ocupava o prédio do antigo Colégio dos Meninos da Companhia de Jesus, fundado em 1551. Dois meses depois, Correia Picanço fundou a Escola Anatómica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro. Em 2 de março de 1812 foi criada a Junta de Direção Médico-Cirúrgica e Administrativa do Hospital Real Militar e Ultramar do Rio de Janeiro, à qual caberia a inspeção das aulas ministradas no Hospital, obedecendo os estatutos da Faculdade de Medicina de Coimbra. Em 1816 a Escola de Cirurgia da Bahia, sofreu a sua primeira reforma, adotando o plano semelhante ao aprovado em 1813 pela Escola do Rio de Janeiro. Passou a ser designada Academia Médico-Cirúrgica da Bahia e posteriormente, em 1832 deu origem à Faculdade de Medicina da Bahia.[34]

O plano de reforma destas duas escolas foi da autoria de outro médico brasileiro formado em Coimbra e discípulo de Francisco Leal e Correia Picanço: Manoel Luiz Alvares de Carvalho (Bahia, 1751 - Rio de Janeiro, 1825) que se formou em Medicina em 13 de julho de 1782.[35]

Com a Viradeira ocorrida após a destituição do Marquês de Pombal, os livros proibidos proliferavam em Coimbra, e a simples posse era sancionada pelo Santo Ofício. Alguns estudantes foram alvo de processos persecutórios, entre os quais alguns brasileiros que estavam mais vulneráveis que os outros, longe da terra natal e privados do apoio dos parentes chegados onde pudessem procurar alguma proteção. Desprotegidos e vítimas de delação foram presos três estudantes oriundos do Brasil: António Pereira de Sousa Caldas (1762-1814), o Caldinhas, que em 1778, tinha iniciado o curso de Matemática, cuja frequência no primeiro ano se exigia para os candidatos ao curso de Cânones; António de Morais e Silva (1755-1824) estudante de Cânones; e Francisco de Mello Franco (1757-1823), natural de Paracatú, Minas Gerais.[36] Mello Franco foi um dos médicos que se formou no contexto de renovação dos estudos médicos em Portugal e cuja obra tem merecido poucos estudos na historiografia brasileira.[37] Ainda com a idade de 21 anos, num ambiente universitário em grande convulsão, Mello Franco envolveu-se em 1778 na contestação à autoridade e tradições universitárias. Em 1781, em consequência do seu entusiasmo pelos enciclopedistas, foi alvo de um processo movido pela Inquisição. Daqui resultou um auto de fé celebrado em Coimbra em 26 de agosto, com a acusação de herege naturalista e de negar o sacramento do matrimónio. Após quatro anos de prisão, concluiu o Curso de Medicina em 1786. Reagindo à lamentável situação de que fora vítima, fez circular em 1785 um poema anónimo intitulado O Reino da Estupidez, ridicularizando a UC e o seu Reitor.[38]

Para a sua divulgação contou com a ajuda de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), que fez algumas cópias do poema. O texto causador de grande polémica em Coimbra, tornado público sob o pseudónimo de Fabrício Cláudio Lucrécio, foi objeto de várias publicações em Portugal (Lisboa, 1822, 1823, 1833 e Barcelos 1868), França (Paris, 1818, 1821, 1824) e Alemanha (Hamburgo 1820). Sobre este episódio, Teófilo Braga viria a escrever o seguinte:[39]

Atribuiu-se ao Dr. António Ribeiro dos Santos, homem grave, erudito e privado de todo o espírito irónico; atribuiu-se ao jovem poeta brasileiro António Pereira de Sousa Caldas, que saíra da Inquisição de Coimbra, e se achava em 1784 em Paris; também se chegou a atribuir a Ricardo Raimundo Nogueira. Estavam todos inocentes desse louvável pecado. Ninguém imaginava que o Reino da Estupidez era uma sublime vingança do estudante de medicina Francisco de Mello Franco, que jazera nos cárceres da Inquisição de Coimbra por o acusarem de Enciclopedista.

Em 1787, um ano após a conclusão do curso de Medicina, Mello Franco foi admitido na Real Academia das Ciências de Lisboa, tendo chegado a vice-presidente. Em 8 de abril de 1812, um dos académicos, o médico Bernardino António Gomes (1768 – 1823) propôs “hum Arbitrio para promover a Vacinação a benefício da Saude Publica”, que esteve na origem da Instituição Vacínica, cujo regulamento foi aprovado em 14 de outubro de 1812. O grupo de médicos que esteve na origem da Instituição Vacínica era constituído por Bernardino António Gomes, Francisco de Mello Franco (brasileiro), Francisco Soares Franco e José Maria da Cunha Pessoa, a que se juntariam logo de seguida, José Maria Soares, José Pinheiro de Freitas, José Feliciano de Castilho e Francisco Elias Rodrigues da Silveira (natural do Brasil).[40]

Mello Franco e Bernardino António Gomes foram encarregados por D. João VI, em 1817, para se deslocarem a Livorno a fim de acompanharem a princesa D. Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. No domínio da saúde pública, Mello Franco realizou um estudo sobre as febres com observações analíticas acerca da topografia, clima e demais particularidades, que influem no caráter das febres do Rio de Janeiro.[41] No Brasil, Franco notabilizou-se como médico pediatra e é considerado o primeiro puericultor brasileiro[42], tendo-se dedicado também à dietética.[43] No final da sua vida, sentindo-se doente terá querido voltar para Portugal, mas terá falecido perto de Ubatuba, durante uma viagem marítima de Santos para o Rio de Janeiro, embora as condições da sua morte sejam objeto de alguma divergência.



[30] PITA, João Rui – Medicina, cirurgia e arte farmacêutica na reforma pombalina da Universidade de Coimbra In: ARAÙJO, Ana Cristina (coord.). O marquês de Pombal e a universidade de Coimbra. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2000, p. 129-162.
[31] Henriques de Paiva viveu no Brasil a partir dos sete anos de idade. Em 1772 veio para Coimbra para tirar o Curso de Medicina, frequentando antes o Curso de Filosofia, obtendo o grau de bacharel em 1775. O seu envolvimento com os franceses, durante a ocupação, aliadas às suas ideias liberais e maçónicas fizeram com que se retirasse para o Brasil, em 1809. Continuou os seus trabalhos científicos na Bahia. Em 1818, por ocasião da coroação de João VI, Manuel Joaquim foi reabilitado, recebendo honras, e prerrogativas que gozara e perdera. Contudo, não mais voltou para Portugal. Veio a naturalizar-se brasileiro, após a independência do Brasil em 1822. FILGUEIRAS, Carlos A. L. – As Vicissitudes da Ciência Periférica: A Vida e a Obra de Manoel Joaquim Henriques de Paiva. Química Nova. 14(2). 1991. p. 133-141. PITA, Rui João – Manuel Joaquim Henriques de Paiva: Um luso-brasileiro divulgador de ciência. O caso particular da vacinação contra a varíola. Mneme: Revista de Humanidades. Publicação do Departamento de História e Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Vol. 10, n. 26. 2009. p. 91-102. PINTO, Sandrine Martins; PITA, João Rui; PEREIRA, Ana Leonor – O contributo do Luso-Brasileiro Manuel Joaquim Henriques de Paiva (1752-1829) na divulgação da vacina contra a varíola em Portugal. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 633-644.
[32] Correia Picanço foi o médico que acompanhou o parto da Imperatriz Maria Leopoldina de Áustria, do qual nasceu D. Maria da Glória, a 4 de abril de 1819, no Rio de Janeiro, futura rainha de Portugal (Maria II de Portugal).
[33] Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930). Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br). Consultado em 15/11/2011.
[34] SANTOS, Roberto Figueira – No bicentenário da criação da “Escola de Cirurgia” da Bahia. Gazeta Medica da Bahia. 77 (2). 2007. p. 89-92.
[35] BRENES, Anayansi Correa – História da parturição no Brasil, século XIX. Cadernos de Saúde Pública [online]. 1991, vol.7, n.2, p. 135-149.
[36] Villalta, Luiz Carlos – Reformismo Ilustrado, censura e práticas de leitura: usos do livro na América Portuguesa. Tese de Doutoramento. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. 1999.
[37] ABREU, Jean Luiz Neves – A educação física e moral dos corpos: Francisco de Mello Franco e a medicina luso-brasileira em fins do século XVIII. Estudos Ibero-Americanos. PUCRS, v. XXXII, n. 2, 2006. p. 65-84.
[38] Franco, Francisco de Mello – O reino da estupidez : poema. Paris : A. Bobée, 1818; Hambourg : [s.n.], 1820; Lisboa : Imp. J. Nunes & Filhos, 1833.
[39] BRAGA, Teófilo – História da Universidade de Coimbra. Lisboa : Por ordem e na Typographia da Academia Real das Sciencias, vol. III, 1898. p. 675 a 697.
[40] SILVA, José Alberto – A Instituição Vacínica da Real Academia das Ciências de Lisboa: Uma rede contra a varíola. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 683-701.
[41] Franco, Francisco de Mello – Ensaio sobre as febres com observações analíticas acerca da topografia, clima e demais particularidades, que influem no caráter das febres do Rio de Janeiro. Lisboa. Tipografia da Academia Real de Ciências de Lisboa. 1829.
[42] FERREIRA, António Gomes – A compreensão médica portuguesa sobre a conceção da criança no século XVIII. Educar, Curitiba, Editora UFPR. 2005. n. 25, p. 17-38.
[43] BIZZO, Maria Leticia Galluzzi – “Tudo o que não é vivificado, é expulso deste admirável laboratório vital”: Francisco de Mello Franco (1757-1822) e a dietética iluminista. Atas do Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências. Imprensa da Universidade de Coimbra. 2011. p. 594-613.