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Um brasileiro na origem do Laboratório Chimico

Com a Reforma Pombalina da Universidade a Química emergiu em Portugal com assinalável atualidade. O italiano Domenico Agostino Vandelli (Pádua, 1735 - Lisboa, 1816) foi contratado pelo Marquês de Pombal para ensinar Química e História Natural, sendo vários os brasileiros que sob a sua orientação obtiveram formação científica e técnica.[19]  Os Estatutos Pombalinos estabeleciam com clareza o objeto da Filosofia Química, definindo as razões da inserção desta disciplina no Curso Filosófico e determinando a natureza experimental do ensino pretendido.[20]  Para que as experiências relativas ao curso das lições fossem realizadas com bom proveito dos estudantes foi criado um moderno e amplo laboratório. Foi concebido para que aí se pudessem fazer as preparações químicas destinadas ao uso das artes em geral e da medicina em particular. Os estudantes que se destinavam a frequentar o Curso Médico deveriam ter uma preparação prévia em Química.[21]  Esta ciência foi instituída como disciplina autónoma no Curso Filosófico, com o objetivo de indagar as propriedades particulares dos corpos: analisando os seus princípios, examinando os elementos de que se compõem e descobrindo os efeitos e propriedades relativas que resultam da mistura e aplicação íntima de uns aos outros.[22]

Na origem do Laboratório Chimico encontramos um brasileiro: José Francisco Leal – natural do Rio de Janeiro (1744), morreu em Coimbra (1786). Num ofício do Marquês de Pombal para o Reitor da Universidade de 12 de fevereiro de 1773 pode ler-se:

Fica porem ainda aqui a planta do Laboratorio Chymico, que foi necessário formar-se pelo modelo, que o Dr. José Francisco Leal trouxe por minha ordem da côrte de Vienna de Austria, havendo eu conhecido que o paiz de Alemanha he aquele em que a referida arte tem chegado ao gráo de mayor perfeição.

A determinação de Pombal para que o projeto apresentado por Francisco Leal não ficasse sob qualquer pretexto comprometido ficou bem expresso nas palavras do ministro:[23]

Esta planta chegará porém brevemente à presença de V. S.ª com o tenente-coronel Guilherme Elsden, de cuja notoria desteridade se ajudará V. S.ª tão utilmente, como já lhe mostrou a experiência do serviço que ahi fez o referido oficial. Não deve V. S.ª coangustar-se pela falta de meios necessários para se effectuarem as referidas obras. A indispensável necessidade d’ellas deve prevalecer a todo reparo dos antigos zelos.

Coimbra passou a ter um moderno laboratório para estudos de processos químicos e metalúrgicos, que é contemporâneo do que é considerado o grande fundador da Química: o francês Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794). O projeto foi concretizado e na Relação Geral Sobre o Estado da Universidade Francisco de Lemos afirmava:[24]

Para fundar este Estabelecimento aplicou o Marquez Visitador a parte septemtrional do Collegio, que a comprehendia o refeitorio, e as mais officinas adjacentes. E não podendo também servir todos estes edifícios para o Laboratorio, foi preciso demolir tudo e edificar de novo o Edifício…
Acha-se feito o mesmo Edifício, e só necessita de alguns ornatos, e perfeiçoens, que não impedem o uso, que se faz delle, para as Demonstraçoens, e Processo Chimicos.   

Criado o Laboratório Chimico, a Química em Coimbra teve um desenvolvimento significativo, acompanhando as evoluções mais recentes observadas nos principais centros europeus.[26] Este processo teve um contributo assinalável do brasileiro Vicente Coelho de Seabra Silva Telles.[27] Nascido em 1764 em Congonhas do Campo, no Estado de Minas Gerais, veio para Coimbra em 1783. Em 1786 terminara os estudos preparatórios de Filosofia e Matemática e concluiu o Curso de Medicina em 1791. No entanto a vocação de Seabra era a Química. No mesmo ano em que completou os seus estudos médicos foi nomeado demonstrador da cadeira de Química e Metalurgia. Em 1788/1789, com apenas 24 anos e quando ainda era estudante de Medicina, publicou o livro Elementos de Química com uma dedicatória à Sociedade Litteraria do Rio de Janeiro para o uso do seu curso de Química.[28]  Dividiu o compêndio em duas partes: a primeira publicada um ano antes de Lavoisier dar à estampa o seu famosíssimo Traité Élémentaire de Chimie (1789) e a segunda parte editada um ano após a publicação deste famoso tratado. Nesta obra Seabra já defendia as principais ideias da Química de Lavoisier, em oposição às anteriores ideias do flogisto, o que lhe valeu algumas críticas e contestação por parte dos defensores das teorias químicas então mais difundidas. Em 1801 publicou uma tradução adaptada para a língua portuguesa da nomenclatura química de Lavoisier com o título: Nomenclatura Chimica Portugueza, Franceza e Latina : à que se adjunta o systema de characteres chimicos adaptados a esta nomenclatura por Haffenfratz e Adet.[29] Infelizmente faleceu pouco antes de fazer 40 anos, ficando por se concretizar a sua promissora carreira académica e científica. Morreu em Coimbra em 1804.

 

[19] O seu filho Alexandre Antonio Vandelli, nasceu em Coimbra a 27 de junho de 1784 e viria a naturalizar-se brasileiro. MARQUES, Adílio Jorge; FILGUEIRAS Carlos A. L. – O químico e naturalista luso-brasileiro Alexandre Antonio Vandelli. Química Nova. vol. 32 no.9. 2009. p. 2492-2500.
[20] FERRAZ, Márcia H. M. As ciências em Portugal e no Brasil (1772-1822): o texto conflituoso da química. São Paulo: Educ / Fapesp, 1997.
[21] FILGUEIRAS, Carlos A. L.. A influência da Química nos saberes médicos acadêmicos e práticos do século XVIII em Portugal e no Brasil. Química Nova [online]. 1999, vol.22, n.4 [cited 2011-12-14], pp. 614-621.
Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40421999000400022&lng=en&nrm=iso.
[22] COSTA, A. M. Amorim da – De Stahl a Lavoisier em Portugal Setecentista. Química, Boletim da Sociedade Portuguesa de Química nº 32/33 (Série II), (1988). p. 8-10.
[23] Carta de 12 de fevereiro de 1773 do Marquês de Pombal ao reitor-reformador in Coleção Geral das Ordens, fl. 92.
[24] LEMOS, ibidem, fl. 147.
[25] Não terá sido demolido todo o edifício do antigo refeitório dos jesuítas. Atualmente podemos ver no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra vestígios bem assinaláveis do que teria sido aquele imponente refeitório. Alguns anexos situados na ala norte do edifício principal, foram efetivamente demolidos.
[26] COSTA, A. M. Amorim da – A Universidade de Coimbra na Vanguarda da Química do Oxigénio. Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, vol. 2. 1986. p. 403-416,
[27] FILGUEIRAS, Carlos A. L. – Vicente Telles, o primeiro químico brasileiro. Química Nova. n. 8. 1985. p. 263-270.
[28] TELLES, Vicente Coelho de Seabra Silva – Elementos de chimica offerecidos a Sociedade Litteraria do Rio de Janeiro para o uso do seu curso de chimica. Coimbra : na Real Officina da Universidade, 1788-1790.
[29] Publicado em Lisboa, na Typographia chalcographica, typoplastica, e litteraria do Arco do Cego, Lisboa. 1801.