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O desenvolvimento da exploração mineira no Brasil

Os objetivos traçados pela reforma pombalina foram coroados de êxito, particularmente em relação à prospeção mineira no Brasil. A Coroa não poupou esforços para que fossem realizadas as viagens científicas orientadas para o desenvolvimento de conhecimentos de mineração e agricultura no reino e vasto império colonial.[69] A formação técnica necessária aos futuros exploradores da natureza era garantida por Vandelli através de trabalhos de campo, como por exemplo os realizados na Serra da Estrela, no Mondego e na mina de Buarcos.[70]

Manuel Ferreira da Câmara Bethencourt Aguiar e Sá foi um estudante que se graduou bacharel em Filosofia na UC em 1788, que além de um notável naturalista também foi um influente político no Brasil, mais conhecido como o Intendente Câmara.[71] O seu nome está associado a vários projetos de exploração mineira no Brasil. Existem algumas incertezas sobre o local do seu nascimento. Sabe-se que era natural de Minas Gerais, muito provavelmente em Santo António de Itacambira, em territórios da Demarcação Diamantina, tendo nascido por volta de 1764. No ano de 1783 matriculou-se no curso de Leis. No ano seguinte passou a cursar também o de Filosofia. Durante os seus estudos tornou-se muito próximo de José Bonifácio de Andrada de Silva, tendo ambos um percurso muito semelhante por vários países europeus.[72] Ambos foram comissionados pelo governo português para visitarem os melhores centros científicos europeus.[73] Este apoio denota a importância dada à formação da elite estudantil coimbrã, oriunda do Brasil[74] com o objetivo de promover o desenvolvimento da exploração mineira e metalúrgica no Reino e Império Colonial.[75] Ambos administraram espaços governamentais no Império português ligados diretamente à mineração e à agricultura.[76]

Câmara e Bonifácio foram admitidos à Real Academia das Ciências de Lisboa em 1789. Além dos seus estudos sobre a conservação das matas e bosques, em 1789 Câmara submeteu à Academia a Memória de Observações Físico-Económicas Acerca da Extração do Ouro do Brasil. A mineração foi um tema que mereceu particular destaque em várias Memórias da Academia, onde Câmara juntamente com Rodrigo de Sousa Coutinho, José Bonifácio e José Vieira Couto defenderam a recuperação mineira para o desenvolvimento económico da nação. Câmara propôs um conjunto de medidas para fomentar a exploração mineira do ferro, aço, carvão, enxofre, ouro, etc. Quando regressou ao Brasil assumiu o cargo de Intendente Geral das Minas e dos Diamantes do Distrito Diamantino e Comarca do Serro Frio. Em 1808 foi aprovada, sob a sua supervisão, a construção da fábrica de metalurgia do Morro do Gaspar Soares, nas proximidades do rio Tejuco, no Estado de Minas Gerais.[77] Foi inaugurada no dia 18 de agosto de 1814, onde foi instalado o primeiro forno para a produção de ferro na América do Sul (Real Fábrica de Ferro do Morro do Pilar).[78]

Também José Vieira Couto era natural do Brasil. As suas origens são de uma rica região de atividades relacionadas com a exploração mineira. Nasceu em 1752 no Arraial do Tejuco, que posteriormente viria a receber o nome de Diamantina. Matriculou-se no Curso Matemático e formou-se em Filosofia pela UC, em 1778. Regressou ao Brasil em 1799, iniciando uma viagem pela Comarca do Serro do Frio, localizada ao norte da capitania de Minas Gerais, para fazer o levantamento dos recursos minerais da região, analisar a viabilidade da sua exploração económica. Nas suas prospeções procedeu à recolha de amostras de ouro, prata, ferro, cobre, chumbo, estanho, enxofre, caparrosa etc., que enviou para o Reino acompanhadas de um relatório sobre as descrições científicas e indicações da qualidade e quantidade existentes. A Partir de 1803 iniciou estudos de prospeção de depósitos de salitre, ou nitrato de potassa, mineral de grande interesse estratégico por ser usado na fabricação da pólvora, e em 1805 realizou prospeções de minas de cobalto. Além das remessas de salitre, também foram enviadas para Portugal sementes de plantas e outros produtos naturais.[79]

João da Silva Feijó (Rio de Janeiro, 1760 – Rio de Janeiro 1824) fez o reconhecimento das minas de carvão de Buarcos, na companhia de Alexandre Rodrigues Ferreira, no âmbito do estudo das produções naturais no Reino, promovidas por Vandelli.[80] A permanência nas Ilhas de Cabo Verde decorreu entre 1783 e 1797, retornando nesse ano a Portugal. Durante dois anos preparou-se para uma expedição à Capitania do Ceará, onde se dedicou aos estudos de mineração, mineralogia e geologia. A provisão de D. Maria I, de 25 de fevereiro de 1799, determinava que Feijó estudasse as potencialidades naturais do Ceará. Nesta região realizou viagens a Baturité, Canindé e Serrote do Rosário.[81] Durante os dois anos de preparação em Lisboa realizou estudos sobre o salitre da Ribeira de Alcântara, o que lhe conferiu a experiência necessária para os estudos que realizou sobre as minas de salitre de Tajuba. Do Ceará foram enviadas remessas de salitre com destino à refinaria de Alcântara.[82]



[69] FIGUEIRÔA, Sílvia F. de M.; SILVA, Clarete P.; PATACA, Ermelinda M. – Aspetos mineralógicos das “Viagens Filosóficas” pelo território brasileiro na transição do século XVIII para o século XIX. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. Vol 13. n 3. 2004. p. 713-729. FIGUEIROA, Silvia F. de M. – "Metais aos pés do trono": exploração mineral e o início da investigação da terra no Brasil. Revista USP [online]. 2006, n. 71, pp. 10-19.
[70] Ferreira, Martim R. Portugal Vasconcelos – 200 anos de mineralogia e arte de minas: desde a Faculdade de Filosofia (1772) até à Faculdade de Ciências e Tecnologia (1972). Coimbra : FCTUC, 1998.
[71] VARELA, Alex Gonçalves – A atuação do naturalista Manuel Ferreira da Câmara na ilustração portuguesa: O cargo de consultor do Governo português para os assuntos de minas e metalurgia. I Simpósio de Pesquisa em Ensino e História de Ciências da Terra. III Simpósio Nacional sobre ensino de Geologia no Brasil. UNICAMP. 2007. p. 301-306.
[72] VARELA, Alex Gonçalves – A trajetória do ilustrado Ferreira da Câmara em sua “fase européia” (1783-1800). Tempo. Revista do Departamento de História da UFF, v. 12. 2007. p. 165-190.
[73] Varela, Alex Gonçalves – Um manuscrito inédito do naturalista Manuel Ferreira da Câmara: “Nota sobre a extração das minas do Principado da Transilvânia” (1796). História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. v.17, n.1, 2010, p.185-201.
[74] RODRIGUES, Manuel Augusto – A Universidade de Coimbra e a elite intelectual brasileira na última fase do período colonial. Revista de História das Ideias. Coimbra. vol. 12, 1990. p. 89-110.
[75] VARELA, Alex Gonçalves – A "viagem de aperfeiçoamento técnico" de José Bonifácio e Manuel Ferreira da Câmara pelas regiões mineiras da Europa Central e Setentrional (1790-1800). Tempos Históricos. (13). 2009. p. 75-102.
[76] VARELA, Alex Gonçalves – Textos em Viagem: As memórias científicas produzidas por José Bonifácio e Manuel Ferreira da Câmara (1790-1800). XIV Encontro Regional da ANPUH-Rio. Rio de Janeiro. 2010.
Disponível em http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1276633192_ARQUIVO_TextoAnpuhAlexVarela2010A.pdf. Consultado em 12/12/2011.
[77] VARELA, Alex Gonçalves. Atividades científicas no Império português: um estudo da obra do 'metalurgista de profissão' Manuel Ferreira da Câmara - 1783-1820. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [online]. 2008, vol.15, n.4, pp. 1201-1208.
[78] Primeira Fábrica de Ferro no Reino do Brasil – O Investigador Português em Inglaterra. Vol. XVII. Londres. 1816. P. 143-151.
[79] FERRAZ, Márcia Helena Mendes – A produção do salitre no Brasil Colonial. Química Nova. 23(6). 2000. p. 845-850.
[80] GUEDES, Maria Estela – João Silva Feijó: viagem filosófica a Cabo Verde. Asclepio. Vol. XLIX-1. 1997. p. 131-138.
[81] SILVA, Clarete Paranhos da; LOPES, Maria Margaret – O ouro sob as Luzes: a 'arte' de minerar no discurso do naturalista João da Silva Feijó (1760-1824). História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [online]. 2004, vol.11, n.3, p. 731-750.
[82] SILVA, Clarete Paranhos da – As Viagens Filosóficas de João da Silva Feijó (1760-1824) no Ceará. História: Questões & Debates, Editora UFPR. Curitiba, n 47, p. 179-201, 2007.